domingos

27 0 0


Há um tempinho atrás, li algo dizendo que domingos eram os dias com os maiores registros de tentativas de suicídios e quando li isso me vi meio que obrigado a concordar. Domingos nunca fizeram e nunca farão o meu tipo de dia feliz, de verdade, eu dispenso totalmente. Principalmente domingos onde o sol está mais forte do que nunca e não tem uma única brisa no céu capaz de refrescar o seu dia. Logo, você fica andando de um lado para o outro procurando um lugar mais fresco onde você possa sentar e ficar tranquilo. Numa boa. Sem nenhum tipo de interrupção. E aquele terceiro domingo de março não poderia ser diferente. Bem, era o que eu imaginava pelo menos.

Aqui atrás do meu apartamento (engraçado, falar aqui como se vocês soubessem onde eu moro, mas prefiro manter em segredo, e inclusive, todos os nomes aqui serão mantidos em segredo e substituirei por outros) tem um parque, não um parque de diversões, mas um parque cheio de arvores e um lago central, onde todos os dias encontro pessoas que vem passar a tarde aqui, todas as vezes que estou indo para a faculdade ou voltando das aulas de Inglês, onde eu sou o professor no caso, e naquele domingo decidi ir naquele parque escolher alguma arvore com uma boa sombra e poder, no mínimo, terminar o livro que estava lendo.

Estava lendo um livro que se chama "Eu te Darei o Sol", que foi presente de uma aluna.

Teacher, ganhei um livro que você vai amar! – Lembro dela me dizendo com o maior entusiasmo do mundo, e ela realmente estava certa, o livro é lindo! — Vou te dar esse livro assim que eu terminar a leitura, não gosto de ficar com livros parados em casa, e você foi o escolhido para lê-lo!

Peguei o livro e vi que faltavam pouco menos de trinta páginas e desci para o parque. O dia estava tão quente, mas tão quente que eu não conseguia lidar. Apesar de que qualquer esforço para mim embaixo do sol já era considerado demais e eu desistia. Desci os cinco andares pela escada, eu prometi que não andaria mais de elevador e fui em direção ao parque. Encontrei algumas pessoas que moravam no mesmo prédio em que eu morava e nos demos um "Oi" apenas com olhares. Não era de falar muito com meus vizinhos.

Assim que cheguei, para minha grande surpresa, olha lá, todas as arvores tinham pessoas embaixo delas. Todos os bancos (embaixo da sombra) estavam ocupados. Pessoas andando de bicicleta em volta do lago também era o que mais tinha. Mas, do outro lado do lago havia uma arvore e me parecia que estava sem ninguém a ocupando. Ajustei meus óculos para confirmar e forcei um pouco a minha vista para ter certeza e acho que eu estava certo. Uma arvorezinha apenas para mim, era tudo o que eu precisava, tudo o que eu havia pedido. Obrigado Deus, por ouvir meus pensamentos.

Passei por algumas pessoas que estavam dormindo na grama, outras caminhando com seus cachorros, fazendo piquenique, lendo, apenas sentadas e vendo o lago, até chegar na minha arvore. E adivinha só? Ela estava vazia mesmo, eu estava certo. Me encostei nela e comecei a ler meu livro, mas não durou muito tempo.

— Por algum acaso tem alguém sentado aqui contigo? Tipo, do outro lado da arvore talvez?

Quando olhei para cima para ver, um rapaz estava diante de mim com o mesmo livro que eu estava lendo em mãos, me perguntando se tinha alguém sentado comigo? Era isso mesmo? Ajustei meus óculos novamente.

— Oi, é, não. Não tem não, pode sentar. — Respondi.

Enquanto ele virava para se sentar do lado de trás da arvore, reparei em algumas coisas: ele devia ter uns 24 anos, com uma barba um tanto quanto grande. Estava de alpargatas, bermuda e uma regata com alguma frase das músicas da Florence + the Machine, deduzi que ele era estudante de alguma faculdade como filosofia ou ciências sociais. Dois minutos depois, voltei a leitura do meu livro.

Consegui terminar a leitura e não conseguia acreditar que o livro tinha terminado daquele jeito. Era um livro que minha aluna estava certa quando afirmou que era o meu tipo de livro. Eu estava apaixonado e pensando no que iria acontecer logo em seguida enquanto estava encostado ali embaixo da arvore, e o rapaz ainda atrás de mim.

Peguei meu celular e vi que já se aproximava das seis horas da tarde e que a hora havia passado voando e tinha que voltar para casa para arrumar as aulas de amanhã. Fechei meu livro e levantei, quando o rapaz da barba grande falou algo.

— Eu não acredito que a irmã do Noah fez isso com ele. Você acredita? E esse lance da mãe deles? De verdade, eu não sei o que pensar desse livro.

Virei de costas para confirmar se ele estava falando comigo mesmo, mas os olhos ainda estavam focados nas páginas amareladas dos livros, então talvez ele estivesse falando sozinho. Isso acontece as vezes com algumas pessoas. Virei de costas novamente e voltei a andar até que o ouvi ele falando novamente. E quando me virei de costas, ele estava olhando para mim dessa vez.

— É desse livro que está na sua mão que eu estou falando mesmo. O que acha? Da mãe deles e do que a Jude fez com o Noah? Um pouco ruim ela foi, vamos concordar...

— Ah, desculpa, achei que não estivesse falando comigo — afirmei — mas terei que concordar. O Noah não mereceu nadinha do que a irmã dele fez com ele, mas o final do livro valeu a pena, não valeu?

— Não sei, não cheguei a terminar ainda. Mas me falaram que não faz muito sentido.

— Pior que não faz mesmo, mas mesmo assim é lindo. Isso te garanto — e sorri quando falei isso. Mas juro que foi um sorriso não planejado.

Eu tinha um grande problema, que eu já tinha discutido com alguns amigos anteriormente que era o problema da "barreira da idade". Eu não conseguia puxar assuntos ou qualquer coisa com caras que eram ou pelo menos aparentavam ser mais velhos que eu, me sentia um tanto quanto babaca por talvez eles acharem meus assuntos muito infantis. Logo, naquele instante, eu não sabia o que falar, e muito menos o que fazer.

Fingi que estava folheando o livro de novo quando ele disse.

— Nunca te vi nesse parque, mas fique sabendo que você roubou minha arvore. Todos os domingos estou aqui — ele afirmou, mas rindo entre as palavras. Percebi que ele tinha um leve espaço entre os dois dentes da frente, algo que não acho muito bonito, mas nele confesso que ficou um tanto quanto atraente. Não aguentei e sorri de volta.

— Desculpe, prometo que na próxima vez fico do lado oposto ao lago. Pode ficar com a vista privilegiada — disse sorrindo.

— Então está combinado. Se quiser falar sobre o livro, semana que vem terei terminado e estarei aqui nessa mesma arvore, mas de frente para o lago. Fechado?

— Fechado. Combinado. — Sorri, fechei o livro e virei as costas.

Engraçado que, aquele domingo com tendências suicidas como eu li na revista, não estava mais tão ruim assim depois daquele fim de tarde no lago.

Voltei para casa pensando em como o Noah pode aceitar tudo o que a irmã dele tinha feito com ele no livro, mas também voltei pensando em como os espaços entre os dentes de algumas pessoas pode ficar tão bonito e em outras nem tanto. Talvez a pessoa tenha uma personalidade tão forte que o espaço entre o dente acaba meio que desaparecendo. Pessoas com personalidades que sobressaem o próprio corpo, que não cabe nelas.

Acho que esse era o caso do rapaz do lago, que eu estava contando os dias para voltar a encontra-lo.

BlueRead this story for FREE!