Ele está sentado naquele sofá de três lugares com as pernas abertas e os braços cruzados, sisudo, como se fosse um adolescente emburrado. Ele fica calado, observando-me, o que me deixa muito inquieta. Dou de ombros diante do seu silêncio. Ian revira os olhos demonstrando não crer nas palavras ditas segundos atrás por mim. Não há muito o que eu possa fazer se ele começar a dificultar novamente as coisas comigo. Hoje é um péssimo dia para testar minha paciência, querido.

Penso que deveria ser mais firme e dura com ele. Ignorá-lo nunca dá certo. Ele vem atrás de mim pior do que as outras vezes e ainda faz com que eu me sinta mal por não ter sido a amiga que ele quer que eu seja. Eu diria que é um tanto complexo a minha relação com o Montgomery mais velho. Ian é complexo.

Enquanto o silêncio predominava naquela sala, eu me perdi em alguns pensamentos, imaginando um futuro longe dali, em alguma cidade que não fosse Holtsville. Eu já havia escolhido o que queria estudar no College. Não é bem a profissão que meu pai quer para mim. Ninguém da família está envolvido com esse tipo de coisa. Ele disse que eu deveria escolher entre a área de artes ou algum trabalho com menos exposição. Nada de ciências jurídicas. Nada de polícia. Nada de política. Nada de ser advogada. Bem, eu já havia me decidido, mesmo que levasse uns 8 anos para concluir, eu sabia que queria advogar.

Eu não havia mencionado com ninguém que eu havia optado trabalhar neste meio. Eu temia causar uma discórdia antecipada. Penso que é melhor manter os ânimos tranquilos aqui em casa por enquanto. Não quero que as atenções se voltem para mim, já que a minha vida está bem próxima de uma verdadeira novela mexicana. Não é uma crítica. É até um elogio. Minha vida é um drama. Um drama estranho e longe de se adequar ao século XXI. É que para a minha família, nós ainda vivemos no século XVI. Você tira pela ideia louca de me tratarem como uma jovem que não pode sair para nenhuma festa, que não pode dormir na casa de nenhuma amiga, que não pode ficar sozinha com uma pessoa do sexo masculino. Quantos anos eles acham que eu tenho?

Ian se incomoda com o silêncio. Eu sei disso porque ele balança as pernas para lá e para cá. Toco em sua perna direita para que ele pare com os movimentos. Embora eu não concorde em me deixar ser manipulada por suas chantagens emocionais, eu acabo cedendo:

-Vai ter um ataque cardíaco desse jeito. -sorrio de mim mesma.

Ele inclina o pescoço para o meu lado e avalia meu semblante. Tento manter o riso. É melhor quando ele pensa que estou de bom humor.

-Podemos conversar como duas pessoas normais? -perguntei -Se ainda quiser, é claro!

Ele descruza os braços e para de mexer as pernas. Seu corpo se volta para mim. A sua mão direita toca meu cabelo. Sem tirar os olhos dos meus, ele brinca com as pontas de uma pequena mecha. Espero que algo saia de seus lábios, no entanto, ele parece distraído.

-Senti sua falta ontem à noite. -a minha sinceridade o pega de surpresa. Ele faz um gesto com os olhos como se estivesse os comprimindo. -Eu sei que venho te ignorando… depois daquela coisa que aconteceu… -tentei não gaguejar. -E logo meu pai implicou com você e o Paul por conta da história do namoro….

-Por isso tem me evitado?

-Também…

-Também, o que? Arranjou tempo para ir no chalé mexer em minhas coisas, Ana!-afirmou, ríspido -Por que vou acreditar em você?

-Se você não lembra, eu fiz isso na última noite em que estive lá. -ressaltei -Estava com frio… era tarde e você ficou demorando no banheiro… eu queria algum casaco. -expliquei -Por coincidência, sua mala caiu quando abri a porta do guarda roupa. As minhas mãos não se conteram e abriram o zíper para ver o que tinha lá dentro.

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