Dezenove

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"Querido diário,
Sabe quando seu santo bate com o de alguém? Quando, por mais que você esteja quebrada, e possa vir a quebrar de novo, você quer tentar? Quando você tenta manter o mínimo de sanidade possível perto daquela pessoa, mas você simplesmente não consegue? Quando você conhece esse alguém há 7 dias, mas é como se fosse da vida toda? Pois é, eu não conhecia nenhuma dessas sensações, mas a cada dia que eu passo com Rafael Lange, eu descubro um pouquinho mais essas coisas"

Rafael estava com um peso enorme na consciência. Tinha acabado de ler o diário de Lívia. E isso era extremamente errado.

— RAFAEL QUE MERDA VOCÊ ESTÁ FAZENDO? - A morena apareceu na porta. Era tarde demais para se arrepender.

— E-eu... - Seu coração estava acelerado e as palavras não saíam da sua boca. - Me desculpa.

— NÃO, CLARO QUE NÃO! - A menina correu até ele e pegou o caderninho rosa de sua mão. Estava tentando decidir o que predominava: A raiva ou a vergonha que sentia naquele momento.

— Eu juro que só li uma página!

Não devia ter lido nenhuma, seu idiota!

Lívia queria chorar.

Era uma hora inoportuna para discutir com Rafael. Ela estava ocupada demais discutindo com seus próprios pensamentos. Não queria nem olhar para a cara dele naquele momento. Queria fugir, mas estava no meio do mar.

Saiu correndo para fora o quarto, com o diário nas mãos. Rafael tentou segui-la, mas percebeu que as coisas piorariam se ele não a deixasse em paz. Então apenas ficou sentado no meio do quarto, pensando que sempre dava um jeito de estragar as coisas.

— Rafa? Tá tudo bem? - Alice apareceu na porta.

— Oi Alice. - Ele respondeu, ignorando a pergunta que a loira tinha feito.

— O que aconteceu? - Ela se juntou à ele.

Nada.

— Ah, me diz - ela fez biquinho, deixando Rafael extremamente irritado. Não sabia a razão, só sabia que não queria conversar com ela naquele momento.

— Não aconteceu nada, Alice!

— Ai, tudo bem! Fique aí nessa deprê então! - Disse a menina, se irritando e saindo do quarto.

❄❄❄

— Me desculpa - ele estava realmente arrependido. Era visível. Até Lívia já tinha sacado, mas isso não impediu que ela o torturasse um pouquinho.

— Rafael, isso foi demais!

— Eu sei que diários são coisas que não se deve ler, que são extremamente pessoais, mas por favor, eu estou arrependido!

— E por que eu deveria te desculpar?

— Talvez porquê eu sei como se sente?

Rafael arregalou os olhos, tampando a boca. Ele tinha mesmo dito aquilo?

Lívia não pôde evitar um sorriso. Rafael andou até a menina, e lhe abraçou. Por um momento, Lívia sentiu uma imensa vontade de que ele  a beijasse, mas isso não conteceu, então ela apenas retribuiu o abraço.

— Me desculpe, é sério.

— Tudo bem. - Ela sorriu, se soltando dele. - Mas se você ler isso de novo...

— Eu já sei, você me castra.

❄❄❄

A música saia alta dos auto-falantes. 5 jovens bêbados fazendo algazarra em alto mar. O relógio marcava quase 4 da manhã. Lívia tinha bebido, e muito. De vez em quando gargalhava sozinha, pensando o que aconteceria se seus pais resolvessem reclamar do barulho e a vissem naquela situação.

— Lívia, já chega né? - Rafael disse alto o bastante para que ela pudesse ouvir.

— Ah Rafa, para de ser chato! - Ela disse tentando pegar o copo da mão dele.

Tentativa falha.

— Vamos dormir, vem - ele disse, a puxando. Sabia que se esperasse por uma resposta, ela diria que não, então apenas ignorou os xingamentos que recebeu da parte da morena, quando ele a arrastou para o quarto.

— Se você esperar eu dormir e voltar pra lá, eu vou te bater - ela disse apontando para ele.

Rafael riu alto.

— Eu vou dormir também, tá bom?

— Então vem aqui. - Ela deu dois tapinhas ao seu lado na cama.

— Lívia, eu não vou domrir aí, tem uma cama aqui para mim. Você está bêbada!

— Ai, que viadagem... - Ela se deitou, irritada - Vem logo aqui, tô mandando!

Ele foi até a cama. Relutante. Queria sim dormir lá, mas o fato de que ela estava bêbada fazia-o pensar o quão errado isso era. Deitou-se ao seu lado e tentou manter a maior distância possível entre seus corpos. Mas quando estava quase dormindo, foi pego de surpresa, pelo peso da perna de Lívia na sua, e seus braços em volta de seu pescoço.

❄❄❄

O despertador do celular de Lívia tinha tocado no mínimo três vezes. Até que Rafael se irritasse e fosse desligá-lo.

— Bom dia, mandona.

— Bom dia, pessoa que estava com medo de dormir na minha cama ontem.

— Eu não estava com medo. - Disse mostrando a língua para a menina.

— E eu estou doente. - Rafael encarou a menina como quem não tinha entendido nada. - Acho que estou com ensolação...

Rafael não teve tempo de dizer mais nada, pois foi interrompido pelo seu celular tocando. Ao desligar, tinha um semblante um tanto triste.

— Minha mãe comprou minha passagem de volta.

HATER | Cellbit - Rafael LangeOnde as histórias ganham vida. Descobre agora