O início

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Existem algumas coisas que nenhum filme sobre zumbis mostra na tela para você, mas que seriam muito úteis para todo mundo que acha que uma vida no meio do apocalipse se baseia em matar mortos-vivos com um bastão de beisebol - e fazer cara de mocinha bela, porém valente e suada. Talvez as pessoas tivessem valorizado mais as pequenas coisas do dia a dia. Porque, cara, como é difícil encontrar papel higiênico e absorventes! Nossa. Eu nunca havia pensado nisso assistindo filmes de zumbi com os meus amigos. Tampouco sobre como você simplesmente esquece o que é depilação com o tempo, com os sustos, com a falta de espelhos. Coisas banais da nossa rotina se tornam lembranças distantes, luxos. Perdem o seu sentido ao longo daqueles dias em que a sua maior preocupação é comer e sobreviver. Ontem eu estava contando para uma das crianças do acampamento sobre como eu gostava de passar horas e horas com uma pinça de metal na frente do espelho, puxando os pêlos da minha sobrancelha um a um, numa espécie de tortura auto infligida cuja dor era ignorada, deixada em segundo plano, totalmente ofuscada pelo excesso de concentração. Naqueles tempos a coisa mais importante da minha semana era conseguir um desenho perfeito para as minhas sobrancelhas. Hoje, eu nem sei se conseguiria segurar uma pinça - você teria que ver os calos nos meus dedos para entender.

Aliás, se você olhasse para mim nesse exato momento, pensaria consigo mesmo: "Veja essa garota selvagem com uma bandana vermelha suja amarrada na testa, parece a filha do Sylvester Stallone na sua fase Rambo. Observe a maneira com que ela bate o dedo nervosa na ponta do bastão amarrado na calça jeans com um lenço cigano. Analise como sua postura está pronta para agir em caso de perigo, ainda que ela esteja apenas sentada no chão, lendo um livro colorido para uma garotinha pequena que mal sabe ler. Mas espere um momento. Aquela ali não é Mirela Ferraz? Ela está fazendo um novo canal no YouTube? Algum programa sobre estilo e sobrevivência, com exemplos de como não se vestir?"

Exato, eu sou Mirela Ferraz. Sou eu mesma em carne e osso (para o meu desapontamento, claro, mas não vamos nos aprofundar nesse assunto agora), e eu não estou gravando nenhum video novo para o YouTube. Nos últimos noventa dias eu tenho suado muito, corrido muito e dormido pouco, ao invés de falar sobre o melhor demaquilante do mercado para uma câmera de vídeo cara em um tripé no meu quarto. Nos últimos dias me encontrei em algumas situações em que o conhecimento profundo sobre como demarcar o côncavo dos meus olhos com sombra marrom não foi usado, mas unhas cumpridas foram essenciais para romper tendões duros de braços que me agarravam forte, com intenção de me puxar de encontro a bocas famintas que queriam comer meu cérebro. Então, digamos que, de todo meu conhecimento na minha vida anterior, a moda das unhas stiletto afiadas me foi relativamente útil.

- Começa pelo primeiro dia - me disse Elis, a garota que dorme no saco de dormir roxo ao lado do meu no acampamento, há uns dias atrás - Escreva sobre o que você estava fazendo quando tudo isso começou. Lembre-se como foi que você percebeu que havia algo errado.

- Será que eles já não vão saber?

- Provavelmente sim. Mas não importa. Você tem que contar como foi.

Eu não gostei de Elis na primeira vez que a vi. Ela parecia uma mistura de ser humano com rato de esgoto, e não conseguia articular palavras corretamente. Eu senti medo, mas também fiquei com pena - e não precisava necessariamente gostar dela, apenas agir humanamente. Elis era só mais uma sobrevivente, não minha amiga. Ela estava obviamente sofrendo de desidratação. Não, não eram cabelos desidratados precisando de aloe vera; era o corpo de Elis que estava desidratado. Ela poderia morrer se eu não agisse rápido.

- Vamos... Água... Leste...

Compreendi que ela queria dizer que havia alguma fonte de água para o leste. Provavelmente ela falava da caixa d'água de um bairro distante, que eu já tinha visto com meus próprios olhos há pouco tempo: a caixa havia tombado depois que um grupo de sobreviventes tentou liberar um dos canos de dreno com explosivos. É, o ser humano é bem estúpido quando está com sede. Ou sem sede, tanto faz. Eu a ergui do chão e a arrastei até o abrigo improvisado que eu havia feito para mim. Ela era incrivelmente leve. Continuei juntando um litro de gasolina aqui, outro ali, catando por todo carro abandonado pelo qual eu passava, até conseguir encher metade do tanque da minha Kawasaki Ninja de lataria lixada. Amarrei Elis contra as minhas costas, na altura da cintura, para que ela não caísse da moto no carona, e parti para o acampamento maior, há mais ou menos trinta quilômetros dali. Não foi uma viagem tranquila, mas posso contar sobre ela mais adiante.

E Elis tem razão: eu preciso contar como foi. E tenho apenas esse caderno de duzentas e sessenta folhas em branco, cinco lápis pela metade e um apontador enferrujado para fazer isso.

É melhor começar logo. Começar do início.

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da autora:

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