Era domingo. Chovia fortemente na cidade de Holtsville. O cobertor grosso cobria todo o meu corpo dos pés a cabeça. Eu estava sonolenta. Não tinha ideia de que horas eram. Sabia que precisava levantar. Meu pai tinha me intimado para ir à igreja com ele. Algo, que sinceramente, eu não poderia sequer recusar. Ele não ia admitir. Ou eu vou ou eu vou.

Daqui a pouco eu ouviria as batidas dele em minha porta. Eu precisava levantar. Descubro a minha cabeça e inclino o pescoço em sentido à janela. Ainda chovia. Dava para ver os pingos caindo pela janela do meu quarto. Chuva só combina com cama, cobertor e chocolate quente. No meu caso, só faltava o chocolate quente. Sento na cama. Retiro debaixo do travesseiro um caderno pequeno cuja capa era lilás. Pego a caneta de dentro dele e começo a escrever nas páginas brancas seguintes.

Apressei-me em escrever tudo que estava sentindo. Era uma mania, um hobby, uma rotina, um costume, seja lá como queiram chamar, mas era o que eu fazia todas as manhãs. O motivo? Eu tenho muito medo de me abrir com as pessoas, ser julgada por aquilo que eu penso. Aqui em casa ninguém tem liberdade pra isso, não. A minha família é um tanto sistemática, metodista e reservada. De um modo geral, aqui em casa, estão sempre querendo impor regras para mim.

 De um modo geral, aqui em casa, estão sempre querendo impor regras para mim

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"Ana, faça isso!".

Ana, não diga isso!".

"Ana, vá para o quarto!".

É muito entediante quando você já tem idade o suficiente para compreender a diferença do certo e do errado, mas teus pais insistem em te ver como uma menina de 12 anos. Reviro os olhos, aborrecida, por ainda viver nesta casa. Eu cresci ouvindo sobre a maneira que devo me comportar, sobre as roupas que devo vestir, sobre a forma que devo comer, os meus horários de estudar, quando devo falar. Chega uma hora que não precisamos mais ouvir estas coisas. Seria muito bom se eles enxergassem que eu cresci. Eu sei que parece melancólico isso. Se tem uma coisa que eu não gosto é melancolia. Detesto ver as pessoas chorando, detesto ir à um funeral. Eu não sei como reagir diante dessas coisas.

Aparentemente sou tímida, e frágil. Aparentemente sou fria e medrosa.

Detesto quando me dizem o que fazer e como fazer.

Meninas não podem ficar sozinhas com homens, diz mamãe.

Eu tenho pena da minha mãe, sempre tão amargurada e solitária, nunca a vejo sorrir, nem quando há motivos. Ela é fechada. Não conversa muito comigo. Ela não faz questão de manter uma aproximação de mãe e filha. De certo modo, isso afetou muito na minha personalidade.

Não há o que questionar quando a resposta for NÃO, diz papai.

O meu pai talvez não esteja tão distante da minha mãe, já que ele costuma ser conservado e ditador. Nós até conversamos, mas eu nunca me abro com ele. Não o enfrento, apesar da minha ira, eu não tenho coragem de enfrentá-lo. Isso é típico das minhas irmãs mais velhas, a Laura e a Olívia.

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