›» Capítulo 4 «‹

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— Mas olha, vê se acorda nas aulas que não vou fazer sua tarefa não.

— Tá.

— Então você toca violão. Sério? Acho isso bacana — ela puxa assunto. Obrigada por fazer isso, Andie! Isso não foi irônico.

— É uma das primeiras pessoas que fala isso — falo sincero, pois realmente, é a verdade.

— Tem a ver com esses estereótipos que todos colocam? Sinceramente, eu não ligo para isso, as pessoas fazem o que elas querem. Eu adoro matemática e dança. Coisas diferentes.

— Pensei que você fosse falar outra coisa.

— Você acha mesmo? Não sou uma garota do tipo "nossa, vou pintar o cabelo porque a Bailey pintou" ou "ela está usando sutiã preto, vou usar também". Percebi que ela tipo uma boneca; bonita por fora, mas sem nada por dentro.

Solto uma risada estridente. Ela me olha preocupada, mas solta um riso tímido, como se culpasse por ter falado aquilo. Nada além da verdade.

— Pensei que você iria discordar. Vocês dois formam um belo casal.

— Não, obrigado. Estou bem sem ela — digo revirando os olhos. Ela resmunga algumas coisas que eu não consigo ouvir, então deixo quieto. No fundo, ela é legal. Conceitos sobre uma pessoa mudam muito, e isso às vezes é um saco.

Ficamos a tarde toda conversando, e só demos conta da hora quando começou a escurecer. Fiquei com uma interrogação na cara quando de repente ela se levantou, disse que estava atrasada, foi em direção a irmã e foi embora. Ela parecia preocupada como se tivesse hora para voltar e estivesse atrasada para alguma coisa. Não sei ao certo, só lembro-me do que ela disse antes de sair: "vejo você amanhã na biblioteca. Não se atrase". Isso é a pior coisa para se dizer quando uma pessoa não é pontual, como é o meu caso. Acho melhor eu ir mudando meus hábitos.

××××××××

Chego em casa e desanimo completamente quando vejo um carro parado na frente da mesma. Fico com um receio de que seja quem eu estou pensando, mas torço para que a resposta seja não. Para começar tudo, minha mãe é amiga da mãe da Bailey e o pai dela é amigão do meu. Ambos são médicos, ou seja, trabalham juntos. Pronto, começou por aí. Então, resumindo tudo, o que vocês acham que ambos os pais esperem? Compromisso de seus únicos filhos, mas não vai rolar, eu me recuso.

Abro a porta de casa com um receio, e isso só aumenta ainda mais quando vejo a própria Bailey sentada no sofá. Aquele sofá que odeio, e que vou odiar ainda mais. Não me levem a mal por odiar um sofá, mas é coisa da minha cabeça e de quando eu era pequeno. Apenas isso, nada demais.

— Filho! Você chegou — minha mãe diz vindo me abraçar.

— O que eles estão fazendo aqui? — sussurro baixinho para que só ela ouça.

— Seja educado — ela sussurra de volta e solta um sorriso.

"Seja educado". Hunf! Até parece. Com eles? A última coisa que eu vou ser é educado.

Falsidade 100 X 0 Personalidade Verdadeira.

— Fiz um jantar delicioso para nós.

— Família Wood, fiquem a vontade! — meu pai diz com o mesmo tom que a minha mãe.

Sentamos na enorme mesa que tinha na copa e começamos a comer. Meu pai e o Sr. Wood conversam sobre o hospital, e eu fico boiando porque não entendo nada. Minha mãe, a Bailey e a Sra. Wood conversam sobre maquiagem — qual a diferença de pó e base? Nenhuma. Se ao menos tivesse um cachorro com quem pudesse conversar, isso aliviaria o vácuo que eles estão me deixando — se bem que com eles eu prefiro ficar boiando mesmo. Um cachorro não seria má ideia, né? Já tentei convencer minha mãe, mas ela fala que isso só vai trazer despesas — como se ela não desse despesas também —, deixaria a casa totalmente bagunçada e cheia de pelos. Eu até já imagino um nome para um cachorro, que provavelmente se fosse para escolher seria fêmea. Talvez Luna ou Babi, prefiro Babi. Enfim, isso no momento não importa então vamos voltar ao meu vácuo.

— Alguém pode me dizer o que está acontecendo? — pergunto sufocado, e por motivo. Primeiro eu chego aqui e está todo esse povo me esperando para conversarem. Conversarem sobre exatamente o que? Esse pessoal não me cheira a coisa boa.

— Ah, querido, seu pai e o Sr. Wood fizeram uma proposta.

— Qual? — pergunto já sabendo a merda que irá vir.

— Seria muito bom se você e a Bailey namorassem, não é? — Sr. Wood fala. Com certeza ele sabe que eu "terminei" com a Bailey, agora sim fudeu. Ele vai querer me matar por fazer a princesinha adormecida dele chorar. — Não precisa responder, sei que você iria adorar.

— Não iria não.

— Filho! — meu pai me repreende.

— É a verdade.

— É brincadeira dele, Benjamin está muito engraçadinho nesses dias — minha mãe se intromete fazendo com que um silêncio seja formado. Só quero ver até onde isso vai parar. — Pode continuar.

— O proposto foi que vocês dois namorassem. Isso aumentaria o nosso status na cidade. Imaginem: o filho do médico mais sucedido namora com a princesa do sócio. Isso seria tão bom! Seria manchete do jornal. Isso melhoraria muitas coisas no nosso emprego.

— A questão aqui, Sr. Wood, é que eu não estou em negociação, e você seria a última pessoa que eu aceitaria fazer um acordo.

Não estava entendendo muito bem como que aquilo melhoraria na reputação do hospital, eu só queria mandar todo mundo "praquele lugar" e sair daqui. Se eu não aguento ficar um segundo perto da Bailey, como que eu conseguiria suportar ela num namoro falso? Me poupe, não estou num século passado onde tinha casamento arranjado.

— Eu não aceito isso — digo me levantando da cadeira.

— Você não tem escolha, Benjamin — meu pai diz se levantando também. Ele me encara bravo, mas eu não desvio o olhar. Tinha que parar de ter medo dele, isso não vai me levar a nada. Passei anos me remoendo querendo que isso acontecesse, querendo que eu falasse o que eu acho de todas as regras absurdas que ele impõe.

— Tenho sim, e eu escolho não aceitar esse acordo, vocês querendo ou não.

Bailey começa a chorar e eu não sinto nem um pouco de pena dela. Me chamem de insensível ou do que quiserem, mas não caio mais na armadilha de ninguém. É isso o que eu espero que aconteça a partir de hoje. Saio da copa e vou furiosamente em direção ao meu quarto, deitando em minha cama e relembrando de todo o dia de hoje. Sem perceber, meus pensamentos já são invadidos por um par de olhos verdes.  

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