›» Capítulo 4 «‹

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— É, você teve azar — David diz. Reviro os olhos e saímos da sala.

Ando até meu carro, o ligo e vou em direção a um parque que tem perto da escola mesmo. Muitas vezes esse parque me dá uma calma que meu refúgio acaba sendo lá. É estranho isso. Entro, vejo algumas crianças brincando e me sento embaixo de uma árvore um pouco afastado de tudo. Sorte minha que meu violão estava no carro — acho que ele foi para lá por magia ou telepatia, sei lá.

Bufo irritado pelo dia de hoje. Talvez eu esteja reclamando demais, mas sabe quando você acorda com vontade nenhuma de fazer alguma coisa? Foda-se. Pego meu violão e começo a tocar alguma coisa, acho que era uma música, mas nem isso estava aliviando meu mal humor. Fico um tempo apenas dedilhando as cordas achando que vai sair alguma coisa. Nada.

— Acho melhor você melhorar essa cara que neste lugar vai assustar muita gente — uma menina negra diz se aproximando de mim. Era a Andrea, e ela não estava sozinha. Ao seu lado, tinha uma menina de quatro anos, que aparentava ser sua irmã.

— Você me assusta às vezes — digo deixando o meu violão de lado.

— Por que? — ela indaga fazendo uma careta. Por que ela fica tão fofa fazendo uma simples careta? Aliás, que diabos eu estou pensando? Horas atrás eu estava desejando ficar longe dela, e agora meu subconsciente simplesmente quer que ela fique. Não entendo a mente humana!

— Porque você aparece do nada, sabe. Você brota, literalmente.

— Não broto não — ela diz se sentando no gramado junto comigo. Se alguém me ver aqui com ela, ferrou. Quer dizer, o quê? Ferrou nada!

— Ann, posso ir brincar? — a garotinha pergunta.

— Pode sim, mas não se perca, por favor. Vou ficar de olho.

Andrea aparentou ter uma paciência com criança, coisa que eu não tenho. O engraçado é que elas não se pareciam nem um pouco. Enquanto a Andie tem cabelo enrolado, a sua irmã tem o cabelo mais liso. Tem diferença também em seus olhos. A Andie tinha olhos... Verdes? Não, espera, o olho dela é verde mesmo?

— Andie, você usa lente ou algo do tipo? Ou seu olho é verde mesmo?

— Isso é uma péssima coisa para se perguntar — ela retruca com um sorriso.

[ — Não tenho culpa se sou curioso — digo e sinto minhas bochechas ficarem quentes. Ao invés dela ficar brava, está com uma expressão calma. Eu acho que todo mundo já deve ter perguntado isso.

— Normal me perguntarem isso, Ben. Meu pai é negro e minha mãe é havaiana. Sou meio a meio, e puxei o olho da família dela, minha mãe mesmo tem olho verde. Aí nasceu eu, negra do olho verde. Minha irmã é o contrário. Ela puxou o olho do meu pai, mas o resto é igualzinha minha mãe.

No dia em que ela chegou à escola, não deu para ver direito a cor de seus olhos. De qualquer forma, fico curioso sobre suas olheiras. O que ocasiona aquilo? É que ela não dorme mesmo, ou problemas pessoais? Há várias possibilidades, e a cada dia que passa eu fico mais curioso. Parece que ela é um livro fechado com chaves, difícil de abrir.

— Desculpa ter sido meio rude com você hoje de manhã. Eu não tive um bom dia, e mesmo sabendo que isso não é motivo para descontar em você... Acabou saindo — ela diz, o que me deixa surpreso. Se fosse eu, não pediria desculpas tão cedo.

— Sem problema.

Não iria contar que eu sou indiferente a respeito dela. Sério, pessoal, eu não a conheço direito, então não vou falar "nossa, não tenho problemas com você" ou "tenho problemas com você", até porque não ligo. Aliás, ela é doida, completamente pirada. Uma hora está bem, simpática e outra está com um bico do tamanho do Monte Everest. Isso que eu só falei com ela duas vezes, sabem o que é isso? D-U-A-S. E só, não vai passar disso.

Além do MarWhere stories live. Discover now