›» Capítulo 3 «‹

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Toc. Toc. Toc.

Esse é o barulho que meu lápis faz quando bato contra a folha do meu caderno. Não adianta, nada sai. Nenhuma palavra, nenhuma letra, nem sequer um rabisco. Quem dera uma música. Tudo o que eu via são as linhas azuis do meu caderno junto da folha branca. Jogo meu lápis na mesa frustrado e suspiro angustiado. Será que era tão difícil assim escrever uma música? É certo que aula de história não é o melhor lugar para compor, mas o que fazer numa aula chata? Não que eu odiasse a matéria, na verdade eu amo, mas não mereço um professor que fala cuspindo. Ninguém merece.

Sou salvo quando o sinal bate, e quase ajoelho agradecendo. Saí suspirando alto e ando rapidamente até a biblioteca, procurando um lugar mais calmo. Hoje eu estou totalmente desapontado. Isso! Parabéns, Benjamin! Essa é a palavra certa. Decepcionado, esmorecido, malogrado e inúmeras outras palavras que também posso me nomear como o fracasso em pessoa.

Ok, Benjamin, foco no que você ia fazer aqui nesse lugar cheio de prateleiras e livros empoeirados. Fui totalmente impulsivo, mas fazer o quê. Não tenho o costume de ir a biblioteca, mas confesso que esse lugar é, no mínimo, reconfortante. Nas minhas condições, estou aceitando qualquer coisa que me agrade, mas o difícil seria achar algo. Não que eu seja exigente ou algo assim, mas sabe quando não estamos com nem um pingo de paciência? Antes eu até costumava ler, mas nunca foi meu hobbie preferido — até mesmo quando meu pai me obrigava a ler livros sobre medicina. Hoje eu só procuro por inspiração — mesmo sabendo que no final vou continuar na mesma.

O ruim de biblioteca é que muitos livros bons ficam escondidos que nem vemos e nem temos a noção de que existem, e que esses "esquecidos" podem ser a nossa salvação. Outro ponto negativo é o pó existente. Caramba, azar de quem tem alergia — e sorte a minha por não ter. Percebo isso quando ouço um espirro vindo perto de onde eu estava. Tento ver quem, além de mim, está aqui dentro. Só se for doido - ou doida-, porque nessa biblioteca enorme aposto que ninguém vem até essa parte que estamos. Os estudantes mal passam da porta, e se entram só vão até umas mesinhas que se encontram antes das prateleiras.

Ando tentando achar quem foi a dona - ou o dono - daquele espirro, e me surpreendo quando encontro uma menina de costas para mim. Não, espera! Eu conheço aquele cabelo totalmente enrolado. Na verdade, o cabelo é bem confuso, pois em cima é liso, mas embaixo é encaracolado. De certa forma, é bonito. Bem... Eu não sei nada sobre isso, então vai entender, né.

— Ei — ela diz me pegando de surpresa. — Pensei que fosse a única nessa biblioteca mais conhecida como "junta mofo". Espera, você não é o popularzinho namorado da Bailey? O que faz numa biblioteca? Fugindo? Você não tem cara de quem gosta de ler.

— E que cara eu tenho então? — pergunto intrigado e ela arqueia a sobrancelha. Mas que garota curiosa! — Tudo bem, uma parte é verdade, a outra não — continuo para quebrar a tensão. É certo dizer que eu não tenho nenhum segredo para ser revelado (talvez um ou dois, exceções da vida), mas eu nunca falei com ela. Tá, a parte do "fugindo" talvez fosse um termo certo de se dizer. Mas é só talvez, e não vou admitir isso, ainda mais para ela. Além do mais, ela me chamou de popularzinho. Não posso suportar. — Aliás, oi para você também.

— Ok, me desculpe, não costumo ficar julgando por aí. Eu nem me apresentei. Me chamo Andrea, mas pode me chamar de Andie.

— Você é a garota que chegou atrasada na aula de matemática. Lembro de você — digo caçoando e ela revira os olhos, sorrindo em seguida.

A verdade é que eu mais que lembrava. Se ela soubesse o que a Bailey diz, o quanto David ri de seu cabelo, ou da maneira de como Gary fala de suas olheiras enormes, com certeza ficaria um pouco assustada com tanta infantilidade e me xingaria de todos os nomes possíveis, mesmo sem eu ter feito algo. De alguma maneira, eu não a conhecia, então é melhor eu ficar na minha. Mesmo assim, confesso que no fundo não concordo com nada do que eles dizem, e de alguma forma ela me cativa de uma maneira que eu me sinto hipnotizado.

Além do MarWhere stories live. Discover now