Eu estava sem alternativas. Eu não tinha um adulto em que eu pudesse confiar. Eu não tinha ninguém para quem eu pudesse pedir ajuda. Eu estava fracassando. Eu sabia que ia fracassar. O destino cobrou de mim mas eu simplesmente não vou cumprir. Não porque eu não queira. Mas eu cheguei à conclusão de que eu não consigo.

***

Eu fiquei pensando durante uma semana. Uma semana é muito tempo para quem é obrigado a cumprir obrigações que não são legais. Eu pensava nisso. Pensava em Amanda todas as noites. Se não o tempo todo.

Minha avó parou de me levar até a escola. Eu disse a ela que não precisava ir comigo mais. Que as meninas pararam de implicar comigo. Mas eu não queria voltar a ir de van para a escola. Eu estava completando onze anos e já sabia o caminho da escola. Mas, fiz isso para ir para a escola com Amanda. Andando. Sozinhas, eu e ela. Assim, eu podia conversar com ela. Porque ninguém conversava. Eu podia ouvir sua dor. Porque ninguém estava disposto a ouvir. Todos estavam dispostos a julgar uma pessoa que faz algo como isso. Mas ninguém está disposto a ajudar a vítima de algo como isso.

Darlan nunca mais chegou perto de mim. Eu atravessava a calçada quando ele estava por lá. Eu virava o rosto e nunca chegava perto dele. Amanda que ia até a minha casa me chamar para ir para a escola. Eu não queria chegar perto dele até porque eu tinha muito medo. Eu estava ali por ela. E não por ele. Estava ali porque ela depositou uma confiança em mim. E eu podia fracassar com o destino, mas não com ela. Mesmo que isso seja confuso para você, estava claro na minha cabeça a diferença entre fracassar com a obrigação da vida, e fracassar com as pessoas com as quais nos importamos.

Na escola, tudo estava normal. Ninguém sabia de nada. Eu mantinha minha promessa. Nas reuniões com o psicólogo, Amanda se saia muito bem. Dizia ela! Na escola de Amanda tinha um psicólogo para avaliações gerais em todo o bimestre. E nunca, nunquinha, dizia ela, perceberam nada de anormal nela. Eu realmente não sabia se esses profissionais não queriam enxergar ou realmente não enxergavam seu psicológico abalado. Seja qual for a resposta certa, são umas drogas de profissionais!

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Depois de um tempo, percebi que Amanda agia normalmente. Todo aquele sofrimento entrou em sua rotina. Parecia que ela estava disposta a pagar o preço. Pagar o preço para ter uma escola boa e perspectiva de futuro. Pagar o preço para ter a imagem de uma menina boa que mora com o pai que foi deixado pela mãe sem motivo algum. Para o preço para frequentar a escola com mais meninas bonitas da cidade e, ainda sim, ser a mais bonita da escola. Ela estava disposta. E estava com um sorriso no rosto.

Pai, foi extremamente difícil para mim. Escutar tudo e ver muito. E não poder falar nada. Eu estava confusa. Meu cérebro estava embaralhando cada vez mais e eu tinha medo de surtar. Eu estava me sentindo sensitiva, sabe? Eu realmente conseguia fechar os olhos e sentir o que Amanda devia estar sentindo. Não sei se ela sentia a dor, o sofrimento e a sensação de sujeira espalhada por todo seu corpo. Como se entre seus dedos estivessem crostas e caraca e em suas pernas bolos de pelos embolados e com carrapatos.

Mãe, eu não sabia mais o que eu poderia fazer. Eu tentei falar com você. Mas acho que você estava preocupada com seus problemas. Você não teve tempo de seguir seus sonhos engravidou de mim no susto durante a faculdade. Mas nunca pensou que poderia estar colaborando para estragar os meus sonhos. Sonhos que eu ainda nem tinha sonhado.

Naquele momento, percebi que vocês não colaboraram para tudo aquilo. Não foi isso pai, não foi isso mãe. Vocês não colaboraram. Mas deixaram acontecer.

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Eu estava convivendo com aquela estória entalada na garganta há meses. Eu tomava café da manhã com a minha avó quieta. Cabisbaixa. E com muita vontade de chorar. Mas não fazia.

Para os Meus PaisWhere stories live. Discover now