O Último Dia

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          — Aproximadamente uma hora e meia — falei hesitante.

          — Hum... É o bastante. Espero que você não pense em fugir no meio desse tempo. — Hauser falou mostrando o revólver apertado no cinto. — Digamos que não sairia de uma forma muito legal para você.

          Olhei para ele com uma expressão nervosa, mas concordei que não fugiria. Por outro lado, meu instinto, meu ser, tudo dentro de mim me falava para correr, para me desesperar.

          — Fatou, pra você, quanto vale uma vida humana?

          — Hã? — Eu ainda estava nervoso, mas essa pergunta fez com que a situação parecesse mais uma piada. — Bem... Não há valor para vidas humanas... Elas não podem ser precificáveis... M-mas eu acho que eu já falei...

          Ele me interrompeu de repente, o que me assustou bastante.

          — Completa idiotice.

          Eu olhei para ele sem entender.

          — O que você quer com esse discurso? Você realmente acha que não se aplica valores para vidas humanas? Você acha que todos somos iguais? Acha que não existem vidas mais valiosas que outras? — Ele fez uma expressão de puro desgosto. — O mundo não é lindo, garoto. Não existe essa de "todos somos iguais". Acorde para a realidade! Se você tivesse que escolher entre a vida de sua mãe e a de um mendigo qualquer na rua, qual você escolheria? — Ele cuspiu no chão como um ato de desgosto e logo voltou a falar. — Você nem precisa responder! A vida de sua mãe vale muito mais do que qualquer morador de rua, você não acha? Por quê? Por que a vida dele é menos importante que a vida de sua mãe? Porque você acredita nisso! Você valoriza mais sua mãe do que um mendigo aleatório, e as pessoas ao seu redor te desaprovariam se não o fizesse, achariam que você é ingrato e não está valorizando sua família da forma correta. Maldita sociedade hipócrita! Como podem pedir para que todos sejamos iguais e ainda assim exigir tão exacerbadamente a desigualdade entre vidas? Vidas são iguais? Não me enrole, não faça eu me enojar ainda mais de você. Sabe, Fatou, se naquele dia você me respondesse corretamente, se você me mostrasse essa verdade implícita... Talvez eu pudesse repensar. Mas a sua resposta foi a mesma... A mesma que todos vocês dão! "Humanos são iguais, todos merecemos e temos os mesmos direitos". Quanta idiotice! Isso é ridículo! Você chora por todos aqueles que morrem em conflitos imbecis na África ou no Oriente Médio? Você entra em luto por eles? Você deseja ir no maldito velório deles?! É claro que não. Pra você eles são simples números, pessoas que morreram por algum motivo idiota e que são desafortunadas. Eles não são iguais aos seus parentes, eles não são iguais aos seus amigos, eles não são iguais a ninguém! Pessoas valem mais ou valem menos dependendo da influência que elas tiveram em sua vida.

          Hauser, então, parou de falar por alguns segundos. Acreditei que devia falar algo, mas no momento que abri minha boca ele voltou a falar. A expressão em sua face era de puro ódio.

          — Você acha que uma pessoa deve ser julgada por um crime que ela não sabe que cometeu? É uma questão complicada. Talvez um julgamento não seja muito correto, mas...

          Ele parou de falar repentinamente, sem ao menos voltar o raciocínio.

          Tudo aquilo estava construindo um profundo sentimento de raiva em mim. O que aquilo tinha a ver com a situação em que estávamos?

          — Hauser, você ainda não respondeu o que eu quero. Por quê... Por que vocês estão agindo como atractores? — falei, desabafando.

          Isso o surpreendeu. Eu precisava jogar as cartas na mesa. Ele provavelmente não sabia do meu conhecimento sobre atractores, fractais e essas maluquices vindas da maldita agenda.

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