Oitavo Dia

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Capítulo 4

Oitavo Dia

Qual é a sensação de ver uma pessoa morta? Tristeza? Pena? Medo?

          Errado... A sensação de ver uma pessoa morta é nojo.

          Sim, nojo... Quando se vê o corpo sem vida, a carcaça vazia, tudo que se sente é o mais completo nojo. Nojo de quê? Como podemos ter nojo daquilo que somos formados? Temos nojo do simples fato de percebermos que somos um agregado de diversos elementos químicos aleatórios, uma existência orgânica e estranha, frágeis como vidro. Nós temos nojo... Nojo da nossa fragilidade, da nossa existência e, também, nojo de nosso nojo.

          Só de me sentir enojado com aquilo já me enojou. Não tive um pingo de consideração pelo morto. Tudo que pensei foi na aberração que se encontrava à minha frente. Naquele momento eu não gritei, não chorei, não me desesperei, estava ocupado vomitando.

Oitavo Dia:

          Não havia mais de um mês desde que o inverno acabara e, por isso, os dias ainda se mostravam extremamente frios, mesmo na primavera. Talvez o frio estivesse ainda mais impiedoso pela situação em que me encontrava.

          A sala do diretor era bem mais vazia do que eu imaginara. Ele só guardava alguns poucos papéis em algumas gavetas e deixava sua mesa no centro da sala deixando certos espaços completamente vazios. Não era uma sala muito bonita de se ver, era o tipo de sala um tanto quanto suja que ainda mantém velhas manchas de café no carpete esperando para serem limpas.

          O pequeno copo que eu segurava alcançou a minha boca. Uma bebida quente e com cheiro agradável estava nele... Chá. Engoli um gole pequeno na tentativa de vencer o frio terrível que fizera ao ter passado a noite inteira na escola, mas, quando esse pequeno gole alcançou meu estômago, uma forte ânsia de vômito me veio. Meu estômago estava uma completa bagunça, e não era por pouco: Passei a noite inteira vomitando.

          Na porta da sala, um policial gordo me vigiava com um olhar desinteressado. Ele realmente parecia mais interessado na travessa de biscoitos em cima da mesa do que ficar de vigia. Sinceramente, é o típico policial visto em filmes de Hollywood. A qualquer momento ele tiraria uma rosquinha do bolso e comeria desesperadamente.

          Triste era o fato de que me parecia que o diretor não limpava aquela sala há alguns anos. Formigas e outros insetos desconhecidos andavam pela sala como se o local em si fosse um gigantesco formigueiro. Os biscoitos na travessa pareciam estar ali por pelo menos algumas semanas visto que, na primeira mordida, pareciam mais ser espuma do que algo crocante, o que só ajudou a destruir ainda mais o meu estômago.

          Tentei novamente tomar um pequeno gole e deixei o copo na mesa enquanto observava os insetos em sua jornada para os biscoitos murchos. Ouvi uma voz na porta e logo percebi que alguém estava se aproximando. Estranhamente, mesmo depois de tudo que aconteceu, a escola não deixou de continuar as aulas normalmente e, hoje, os alunos vieram sem nem ao menos saber o que havia ocorrido durante toda essa noite.

          A porta se abriu e um homem com um sobretudo preto e uma gravata azul-escuro entrou na sala. O homem acenou para o policial esfomeado no canto sinalizando que este poderia finalmente sair da vigia para ir fazer uma boquinha. O homem de preto tinha cabelos loiro escuro e barba para fazer, ele chegou próximo de mim sorrindo e logo me entregou um pequeno cartão.

          — Olá, sou o detetive Hauser, espero que possamos nos dar bem para resolver logo esse terrível incidente.

          Olhei para ele com um olhar vago. Meus olhos por si próprios deveriam estar em terrível estado. Não dormi em nenhum momento desde que vi... aquilo.

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