A Linguagem do Caos

120 8 0

Capítulo 3

A Linguagem do Caos

Minha morte. Sim. Ela deixou bem claro.

          Ela sabia. Ela realmente sabia que eu morreria no fim dessa semana. Mais do que isso, ela já tinha o conhecimento de que eu também sabia disso. Agora não existiam mais dúvidas. Não foi uma alucinação ou um mal-entendido. Realmente... Eu morreria.

          Mesmo que ela tenha falado de forma tranquila e sorridente, algo não me parecia certo. Aquele olhar... Um olhar profundo e assustador, como o de alguém que viu o inferno, o desespero mais profundo. Foram meros segundos, mas algo realmente estava sendo dito naquele momento. Havia alguma mensagem profunda que ela inconscientemente deixou escapar.

          Julia... O que é que...

          Ela não falou mais nada além daquilo. O sinal tocou e nós voltamos para a sala, prontos para a aula de física. Os olhares dos garotos da sala foram de olhares invejosos e raivosos para os olhares de assassinos, afinal, simplesmente almocei com ela logo no primeiro dia que a conheci.

          A aula de física começou da forma que sempre começava, nosso professor entrou e contou alguma piada idiota e sem-graça que quase ninguém entendeu, seguindo para o familiar clima constrangedor típico de professores piadistas. Facilmente ignorado, ele começou a dar a aula. Muitas vezes falava de coisas desnecessárias ou matérias que não eram de nosso currículo escolar.

          Tobias Leonhardt. Chegando na casa dos 40 anos. Ainda que tenha uma idade não tão jovem, era o professor mais novo e, portanto, o mais "moderno". É claro que certas vezes ele se esforçava para se integrar em nossas conversas de adolescentes nascidos nos anos 90. Só o fato de ele realmente ter ouvido as bandas malucas e ter usado a moda noventista já mostrava o quão velho ele era. Por outro lado, ele odiava ser chamado de velho. O tempo não perdoa ninguém.

          Ainda que ele não tivesse uma idade tão próxima da nossa, nós não nos importávamos. Ter um professor que consegue falar a nossa língua, pelo menos em certos momentos, já é bom o bastante.

          É claro que isso desaparecia no momento que as aulas começavam. Física. Existe algo mais impossível?

          Sempre fui bom o bastante para me virar em matemática, mas parecia que os números não gostavam tanto de mim na matéria do Tobias. Física é uma matéria tão maníaca que muitas vezes não consigo acreditar que nos é ensinada como ensino básico. Digo... Tudo que aprendemos nessa matéria são teorias que diversas pessoas demoraram milhares de anos para criar. Pessoas muito mais inteligentes do que nós, meros estudantes! O pior disso é que nós aprendemos teorias que podem ser modificadas ou eliminadas a qualquer momento! Ser tão ruim em aprender possíveis mentiras me parece ridículo.

          Mas não posso negar. Fico fascinado com essa matéria. É quase como se o universo inteiro estivesse disposto em nossas mãos. Física é o centro do poder humano.

          Afinal, por que sou tão ruim em física? Sei matemática, gosto da matéria, mesmo que esta não faça muito sentido em certos momentos, e gosto do professor... Qual o sentido de quase repetir essa matéria todo ano?

          Ah... Entendo. A aula de física fica exatamente depois do horário de almoço de uma segunda-feira. Talvez o meu espírito se negue a existir em um momento tão triste e melancólico quanto esse.

          Os meus colegas de classe parecem não sentir o mesmo que sinto quanto a essa matéria, mas posso dizer que isso tem uma explicação.

A Borboleta na TormentaLeia esta história GRATUITAMENTE!