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"Drica, se acalma... Você não sabe se ele está lá mesmo"

Eu sabia, sim. Tinha visto o plano ser feito, tinha acompanhado, JP mesmo tinha me falado sobre e aquilo ali era perto o suficiente para uma investida. Aquele caos, aquela gente desesperada, a Avenida Brasil parada... E JP estava ali.

- Mila... Tá passando uma fila de gente presa. Tem gente morta - sussurrei para ela, tentando não chamar a atenção.

"Chega! Para de assistir isso. Você não sabe o que aconteceu"

- Como eu vou falar isso pra mãe dele, Mila? Ela tá com a Cela aqui no hospital. Como que eu falo isso pra elas?

"Adriana, nada aconteceu. Se acalme. Pelo amor de Deus, Dri, só fica calma!"

Eu estava chorando de novo. Pânico. Não era porque eu não queria mais estar do lado de JP, justamente por aquela escolha absurda que ele tivera, que eu queria que algo de ruim acontecesse com ele, pelo contrário. Eu queria ele bem, queria que ele se redimisse, queria que eu fosse capaz de perdoá-lo.

- Como?

"Dri, presta atenção. Não tem como você ficar aí. Vem pra cá..."

- Não posso deixar a Cela sozinha agora.

"Traga ela!" Mila resolveu. "Vai ser ótimo ter vocês duas aqui. Vai ser ótimo pras duas também. Vai dar tempo pro pessoal esquecer... Sabe? Ela não pode saber disso. Vai perder a cabeça... Como o JP.

Prendi a respiração, arregalando meus olhos molhados pelas lágrimas que queria reclamar. Meu lanche estava na minha frente, quase intacto, e aquela solução parecia por deveras agradável. Cela precisaria de um tempo para se recuperar da perda e seguir com a gravidez de forma saudável, sem a interferência de gente malintencionada que poderia lhe contar a verdade sobre a morte de Pepê. Pretendia me mudar para a sua casa e cuidar de tudo eu mesma, mas levá-la para longe de todo o ambiente... Parecia ótimo.

- Eu tenho que ver com ela - murmurei.

"Pois veja! Veja porque preciso comprar as passagens. Pra depois do enterro, né? Você já sabe quando vai ser?"

- Não... - Estive tão aérea que nem reparei nesse fato, mas imaginava que as coisas estivessem andando sem mim. - Acho que deve ser amanhã.

"Bom, veja com ela e me avisa, tá? E, Dri, qualquer coisa que você precisar, você me grita. Promete?"
- Prometo - Jurei, sabendo que ela seria, mesmo, minha primeira opção.

Era bom ter Mila do meu lado, mais experiente e mais vivida, para me ajudar com as minhas batalhas. Com o coração ainda mais leve, mas ainda preocupada com JP e com Cela, que eu não sabia onde estava.

Nos despedimos e eu terminei de engolir meu lanche, prestando atenção na notícia, não sabendo se ficava aliviada ou não de JP não aparecer entre os presos. Não falaram os nomes dos mortos e feridos, aumentando minha ansiedade.

O café da manhã foi terminado sem que eu aproveitasse o gosto da comida, mas sabia que a minha falta de alimnetação decente do dia anterior podia acabar causando um problema mais grave e eu precisava estar inteira para enfrentar tudo aquilo. Com um suspirou, apoiei minhas mãos na mesa e empurrei meu corpo para me levantar. Senti-me colorida, as coxas, a barriga e meu rosto inteiro corou com a lembrança da noite anterior para, então, encher meus olhos de lágrimas não derramadas.

Respirei fundo e me encaminhei para a entrada da visitação no hospital. O rapaz ficou rapidamente animado quando me viu, me fazendo notar que me tinha boas notícias antes que o alcançasse.
- 205, moça - ele me informou.

Anotou meu nome e identidade, colando um adesivo de visitante em mim. Que coisa mais brega.

Subi a rampa apenas um andar e dei de cara com a maternidade. Fazia, realmente, muito sentido que ela estivesse naquele andar, mesmo que ainda não fosse hora de parir.

Os cuidados com ela já deveriam ser diferenciados desde ali, ainda mais fragilizada como estava.

Alcancei o quarto rapidamente e bati na porta. Um sonolento "entra" foi ouvido. Abria porta, encontrando minha melhor amiga deitada na cama, um pouco inchada e avermelhada, com o braço esticado, tomando o que parecia ser soro. A mãe de Pepê e JP estava deitada no sofá, adormecida.
Cela abriu um sorriso leve ao me ver e eu correspondi.

- Achei que você ia ficar aqui comigo - ela sussurrou, para não acordar a sogra.

Não quis lhe preocupar mais que o necessário, então todo o drama de ter saído dali para tentar segurar jP e tentar impedi-lo de fazer uma burrada, o que resultara em nada além da perda da minha virgindade e no nosso término, foi deixado para lá para um resumo sincero, embora omisso, do que realmente acontecera.

- Só podia ficar uma pessoa aqui e a tia Cláudia queria muito... - Murmurei. - Achei melhor, ela tem mais experiência...

Queria completar que fora Cela e o bebê que tiraram a tia (nome) do choque em que se encontrava, mas não quis trazer o sofrimento de volta á tona, não quando o sorriso de Cela estava de volta ao seu rosto, tão sereno, tão cedo.

Tão mãe.

Ela já parecia uma mãe.

Esticou a mão do braço do soro e envolvi-a com as minhas duas, não planejando sair de perto dela tão cedo.

- Bom ver você - sussurrou.

- Bom ver você bem - retruquei. - Me deu um puta susto.

- Levei um puta susto - disse, o sorriso murchando com a memória.

Droga. Xinguei-me mentalmente. Precisava mudar o rumo da conversa rapidamente e me decidi por lhe fazer a proposta agora.

- Mila acha que... - Ia dizer "a gente", mas não quis preocupá-la com meus problemas. - Você pode usar de uns dias de folga, sabe, pelo bebê? - não estava certa do que estava dizendo e queria convencê-la de alguma maneira. - Convidou a gente pra ficar uns dias na casa dela, relaxar e se recuperar. O que você acha? Parece ser tranquilo por lá. Parece legal.

Cela avaliou-me e um sorriso leve e triste brotou em seu rosto.

- Conhecer a cidade onde você vai morar e ver se é boa o suficiente pra minha garota?

Queria ter algo para dizer, falar-lhe que eu não a abandonaria, que ficaria ao seu lado para sempre, mas era mentira e Cela seria a última pessoa que me pediria isso. Eu sabia que era possível, hoje, ser amiga e companheira mesmo à distância. mila era um exemplo claro disso. Prtendia seguir o mesmo caminho para Cela e visitá-la em todas as férias, nem que tivesse que trabalhar em turnos dobrados para isso.

- Acho que vai ser ótimo, Dri - concordou, vendo que eu não tinha nada para dizer. - Ótimo pro bebê - sorriu, como se a ideia de fazer algo pelo bebê fosse tudo que lhe importava. - Mas eu tenho que... - a voz lhe faltou e apertei sua mão com força. - Dizer adeus. Primeiro.

Concordei, compreensiva. Eu também precisava dizer adeus.

Não só para Pepê, mas para toda uma vida.

Nota: Olá!
Eu devia ter atualizado ontem e peço desculpas pelo atraso. Apenas me fugiu a mente. Tô com um montão de trabalhos e tarefas para fazer. Tive uma encomenda grande na loja e ainda estou em semana de provas, então estou meio louca.
Tenho lido uns livros agora. Tô bem feliz porque fazia algum tempo que não conseguia tempo para. Porém consegui um aplicativo que lê para mim no celular. Demorei um pouco para me acostumar, mas foi a melhor coisa que eu fiz. Uma semana e meia e estou terminado o quarto livro. Tô muito, muito feliz.
Bom, sobre os acontecimentos, tenho que falar pra vocês algo que li nesses livros: não se conhece a felicidade sem ter conhecido a tristeza. Para alguém com tudo, tudo é normal. Mas alguém que já teve o "nada", tudo é tudo. A gente só aprecia as coisas que a gente aprendeu a dar valor - porque já sentimos falta dela.
Não foi exatamente isso que estava escrito, mas alma de poeta é alma de poeta. A gente sempre arruma um jeito de deixar as coisas parecerem mais bonitas do que são.
Bom. Finalizaremos esse mês. Eu peço que estejam prontos para tudo: para rir, para chorar, se desesperar, apreciar ou decepcionar. Estejam prontos. Tudo isso pode acontecer.
A vida acontece. Acontece enquanto nos falamos.
E mantenham a calma.
Nos vemos semana que vem <3

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