31.3 - SINTO MUITO

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Era o pânico de novo. O mesmo da hora do tiroteio e lágrimas foram inevitáveis aos meus olhos, lembrando-me do último abraço de Pepê e da última vez que eu o vira. Seria, também, a última vez que eu veria JP?

Eu não podia suportar, não podia ficar sem fazer nada.

No desespero, com a respiração já entrecortada e o coração a mil, adentrei o quarto apenas o suficiente para puxar o lençol e envolvê-lo em meu corpo, cobrindo minha nudez com a brancura da roupa de cama nunca utilizada, manchada apenas pelo vermelho sangrento da minha primeira vez.
Ainda me dignei a virar a mancha para trás, evitando que aquilo me envergonhasse mais do que devia e corri pelos poucos cantos da casa, parando à porta da sala, encarando o quintal.

Ali estava JP, já vestido. Não sabia quanto tempo eu passara no banheiro, mas lhe fora o suficiente para despertar e se vestir por inteiro. Estava parado, no meio do terreno, e parecia se esforçar em mexer no fuzil que carregava no braço, como se não soubesse exatamente como manejá-lo, mas usaria-o mesmo assim.

Meu coração, que batia exageradamente rápido até o presente momento, simplesmente parou de bater com o horror da imagem que se espelhava em minha retina. 

Ele não percebeu minha presença e continuou a manejar o fuzil, testando seu peso e seu tamanho. Podia identificar, em suas feições já tão conhecidas por mim, o medo em cada poro pelo que ele estava prestes a fazer.

Eu não podia deixar. Não podia. Tinha arrastado ele até ali para tentar evitar que ele o fizesse, eu não podia deixar que ele saísse dali e corresse o risco de morrer.

De matar em nome de Pepê, que seria o primeiro a falar contra aquela reação estúpida.

De matar.

- O que você está fazendo? - Perguntei.

O susto fez João virar-se para mim com a arma apontada em minha direção e eu me encolhi contra o batente da porta, sentindo o coração bater acelerado. Ele arregalou os olhos e abaixou a arma, percebendo a besteira que havia feito.

- Desculpe, Dri... - Pediu. Meu olhar inquisidor e magoado estava em cima dele e ele suspirou. - Eu vou com os rapazes invadir uma comunidade pacificada aqui perto... A gente vai fazer uma represália contra a morte do Pepê.

Vingança.

Apesar de tentar manter-se sereno, tinha vingança estampada nos seus olhos cor de mel. Era tão clara que parecia brilhar em vermelho, me fazendo estremecer. Eu estava apavorada com a ideia, mas a forma com que ele segurava a arma, que apontara para mim e o ódio que emanava dele, eu sabia que ele estava disposto a matar e morrer por aquela causa.

- Pepê não ia gostar disso - murmurei, preocupada.

- Ele não está aqui para opinar, certo? - O deboche estava claro em sua voz e me fez arregalar os olhos.

JP percebeu o meu susto, mas não parecia disposto a pedir desculpas, não daquela vez. Ele sabia que eu estava certa sobre qual seria a reação de Pepê, sabia que ele conhecia o irmão para saber que seria contra, mas estava tão cego pela dor e pelo pesar que não suportava ser contrariado, nem pela sombra da memória de quem o irmão fora.

Seria eu capaz de continuar ao lado dele sabendo que ele desrespeitara a memória de Pepê tão covardemente, na esperança de um conforto para sua dor?

- Por favor, não faz isso - implorei, já sem alternativas. - Fica comigo...
Seu olhar magoado me informou que ele, agora, sabia o que eu estivera fazendo. Que eu o chamara até ali achando que a investida seria à noite e não naquele momento. Que eu tentara enganá-lo.
Eu não via nada mais de bom e puro em seus olhos, não ali. Não com o fuzil carregado em punho, pronto para sair para matança, para trocar a vida do irmão por outras, sabe-se lá quantas.
- Você nunca vai entender isso, Adriana - gelei quando ele usou meu nome, não meu apelido. - Meu irmão não merecia aquilo e eu vou fazer eles pagarem.

Raiva. 

Ódio.

Morte.

Seria eu capaz de ficar ao lado dele sabendo que ele fora capaz de matar em nome de Pepê?
De ignorar meu pedido, meu medo, de arriscar a própria vida quando Cela, eu e sua mãe precisavamos tando dele ao nosso lado?

Não.

Com o coração quebrado ao meio, eu sabia que não. Sabia que eu não conseguiria olhar para ele quando retornasse, se retornasse, e lhe dar qualquer forma ou espécie de carinho. Não quando ele estava sendo egoísta o suficiente para nos deixar sozinhas e ir em busca de algo tão impuro, tão contra as coisas que o irmão dele acreditava.

Não quando ele planejava me abandonar após a noite maravilhosa que passamos juntos.

Por algo tão ruim.

Como dois extremos.

Minhas lágrimas já caíam pesadas de meus olhos quando encarei-o, impassível e indiferente com a minha dor.

- Se você for - as palavras eram extremamente dificies de serem proferidas e eu sabia que não passavam de mais de um sussurro. - Se você for, não precisa voltar.

Houve aquele momento de silêncio desesperadoe enquanto ele me encarava como se medisse meu valor, como se julgasse minhas palavras até a compreensão e eu vi quando ele entendeu como ofensa.

Não havia mais nada.

- Você disse que ninguém podia me julgar. Lembra? 

De volta ao beco, quando ele me dissera que estava pensando em entrar no tráfico, usando minhas próprias palavras contra mim, em seu discurso distorcido de realidade.

- Isso é diferente. Não é necessidade, é ódio.

Ele riu de forma debochada e eu sabia que meu pedido tinha sido em vão. Nada que eu lhe dissesse iria lhe fazer mudar de ideia sobre.

- Você nunca vai entender. Sinto muito, Drica.

Nóstrocamos um último olhar, antes que ele virasse as costas e saísse do portão,levando qualquer esperança que eu pudesse ter junto com ele.

Eu também sentia muito.

Sentia tanto que parecia que meu coração estava sendo arrancado do peito. 

Desculpa?

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Desculpa?

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