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- Eu só não sei se isso passa - confessei, depois do segundo gole do leite.

Mila se debruçou sobre o balcão, o mesmo sorriso leve que estava sustentando durante toda a tarde, como se fosse o máximo de felicidade que ela conseguia exibir por nos receber em sua casa, mas sabendo que ambas estávamos sofrendo com nossos problemas.

Minha prima era demais. Se tinha alguém quem eu queria me espelhar e ser o mais parecido possível, esse alguém era Mila. Ela era linda, mesmo com nem um pingo de maquiagem, mesmo com os cabelos bagunçado e sem nem se esforçar. Ainda era inteligente e esforçada, tinha umas sacadas rápidas, era super perceptiva e carinhosa. Tinha uma força surreal, raramente abaixava a cabeça (normalmente, só abaixa a cabeça para o pai dela) e não tinha vergonha de falar as coisas que pensa e, mesmo quando envergonhada, fala mesmo assim.

E, além de tudo, Mila estava feliz. Eu me sentia tão separada da felicidade que eu a admirava simplesmente pelo fato dela ser feliz.

- Passa, Dri - Ela deu a volta e se sentou ao meu lado, virando a cadeira para me olhar. - Olha... Quando eu tinha 17, eu estava assustada com a forma que minha vida estava indo. Eu me drogava, lembra? Queria parar com as curtições, as festas... Mas eu estava viciada naquilo e meu pai estava furioso. Então eu tentei uma coisa nova: procurei alguém que ele gostasse e comecei a meio que namorar com esse rapaz. Já te falei disso, não é? - Concordei com a cabeça. - O Cael era um bom rapaz, um pouco safado, mas era um bom rapaz. Teríamos dado certo em algum ponto da vida, mesmo que não fôssemos apaixonados um pelo outro. Só que aí eu... Bom, o Cael foi visitar os avós em um final de semana e eu não tinha nada para fazer. Uma ligação e eu estava lá de volta, nas festas, nas drogas... Disse para mim mesma que seria a última vez e, por ser a última vez, eu exagerei. Eu só tinha 17, a mesma idade que você. Estava assustada, sem apoio, encaminhando para ser esposa troféu de político, ser toda postura e toda sorrisos e eu odiava a ideia. Odiava a mentira. - Ela suspirou, passando os dedos pelos cabelos. Estava absorvendo sua história porque nunca tinha escutado com tantos detalhes e entendia o que ela queria dizer. Todo mundo passava por alguma provação na passagem da adolescência para a fase adulta, não importava qual. Era o que nos fazia crescer. - E eu enlouqueci. E, sabe, saiu em alguns jornais. Não teve muita repercussão por causa do pai da Manu, mas, mesmo assim, todo mundo que eu conhecia sabia que eu tivera uma overdose. Alguns até chegaram a saber que eu conseguia as drogas... Transando com o Renan. Foi horrível, Dri, eu queria morrer. Queria me enfiar em um buraco e nunca mais sair. Então, quando meu pai me disse que eu iria para uma reabilitação foi... Um alívio. E, depois, me mudei para cá e ninguém me conhecia, ninguém sabia da história, era como começar de novo. Por isso sugeri que você viesse e começasse a vida aqui. Funcionou pra mim. Espero que funcione para você.

Tentei controlar as lágrimas, sem muito sucesso. Mila sorriu e curvou-se, envolvendo-me em um abraço apertado.

- Você teve... - Tentei me recordar de como ela havia chamado. - Um... Primeiro amor?

Mila se afastou do abraço, levantando as sobrancelhas, avaliando minha pergunta. Queria me agarrar em mais uma experiência dela e saber como me curar daquele infeliz sentimento que parecia dominar todo o meu corpo, arrastando-me de um lado para o outro.

- Eu acho que... Acho que foi o Talles - Sorriu, leve.

Abaixei a cabeça, sorrindo um pouco de lado por ela estar tão feliz. Ela e Talles eram um casal formidável e vê-los tinha me inspirado a segui em frente com JP. Apesar de não ter dado certo, não me arrepedia nem um pouco dos momentos que passáramos juntos.

- Você deu sorte, então.

- Não muita, na verdade - riu. - Sabe o que eu disse sobre falta de experiência? Talles e eu... Nós somos parecidos em muita coisa, mas muito diferentes em um monte de coisas também. A gente briga o tempo todo e eu sei que parece que estamos brincando, mas as vezes não é brincadeira. A gente fica sem se falar, xinga, grita... Mas eu não sei. No final do dia, não importa quantas vezes eu chutei a bunda dele, ele ainda está lá.

Suas palavras bateram com um martelo em minha cabeça porque eu conseguia encaixar JP e eu naquilo tudo de alguma forma, mas não no final. Eu chutei JP e, no final do dia, ele não estava lá; ele estava ferido e tinha matado alguém.

A epifania levou as lágrimas de volta aos meus olhos e o sentimento gritando ao redor de mim.

- Eu queria... - a frase ficou presa na minha garganta, mas Mila entendeu claramente o que eu queria dizer, mesmo no meu silêncio choroso.

Eu queria que ele estivesse lá no final do dia. Queria que ele me abraçasse e prometesse que tudo iria ficar bem e que aquela dor iria passar; nós enfrentaríamos aquela tempestade juntos. Mas nada disso aconteceria.

- Eu sei, Dri - Disse. - Mas você é nova e ele também. Vai ver não foi o tempo certo. - ela deu de ombros, sem saber o que mais dizer. - O tempo responde tudo e muda a nossa perspectiva. Eu não sei. Vai ver um dia vocês fiquem juntos de novo.

Na hora que Mila proferiu as palavras, eu neguei com a cabeça veementemente, incapaz de aceitar a ideia de deixar JP voltar para a minha vida, não quando ele me magoou tão profundamente e fez tantas coisas erradas de uma vez só, mas quando fui me deitar ao lado de Cela, tentando dormir realmente pela primeira vez em dias, foi aquela frase de Mila que me acalentou.

Talvez um dia JP e eu ficássemos juntos de novo.

Um dia

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