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- Isso é horrível, eu sinto muito - ela sussurrou de volta. - Não preciso nem perguntar o que ela escolheu. Ninguém precisaria, eu acho.

Também tinha ficado horrorizada quando Cela, aos prantos, me contou do que a ligação de seus pais se tratava. Tinha sido momentos antes de sairmos de casa para o enterro e eu, na minha inocência esperançosa, imaginei que eles tinham visto os noticiários e se compadecido da perda da filha, querendo ajudar de alguma forma. Não. Eles eram mais vis e cruéis do que eu me lembrava e só fizeram Cela ficar ainda mais destruída que antes só com a possibilidade de alguém desejar mal para o seu pequeno bebê.

- Eu sei...

Mila parecia não prestar atenção em minhas palavras, perdida em seus próprios pensamentos e com o olhar fixo em algum ponto vazio da parede, ao qual eu não sabia que era tão interessante. Porém, em sua expressão rígida, sabia que ela estava sofrendo pelas palavras dos pais de Cela, mesmo que não tivesse nada a ver com aquilo. Talvez porque conhecesse bem o descaso dos pais, visto que o dela era um merda.

- Eu digo por mim mesma - deu de ombros. - Não acho que eu queira ser mãe agora. Não acho que quero ser mãe por um tempo e também não sei se teria coragem de fazer um aborto, mas... Se algo acontecesse a Talles e eu estivesse grávida... - Ela soltou um suspiro sofrido e olhou para a porta como se esperasse que o rapaz entrasse ali a qualquer momento. - Eu não... Nossa. Eu não sei nem o que dizer.

Encolhi-me na insignificância de que eu não tinha um comparativo. JP e eu nada mais tínhamos e não era como se tivéssemos conseguido chegar naquele nível de intimidade. Senti as lágrimas acumularem em meus olhos e apertei a boca em uma linha fina, tentando conter os gemidos. Aquilo doía mais do que eu pensei que fosse doer.

- Ei... Dri... Calma - Mila passou os dedos pelos meus cachos e mais que eu chorei, desesperada, assustada, com medo. - Pode chorar, priminha. Faz bem. Você precisa.

Eu sentia como se houvesse uma bomba em meu coração e que ele tinha explodido em tantos pedaços que eu ainda não fora capaz de recolher todos. E não achava que fosse capaz de colocar tudo de volta a seu lugar nunca mais.

- Dó... Dói - não conseguia nem falar nada direito.

Mila beijou o topo da minha cabeça, curvando-se sobre o meu corpo. Abraçou-me e permaneceu curvada, como se me aninhasse em seus braços, balançando para frente e para trás. Senti-me como um bebê e melhor cuidada do que jamais estive em minha vida.

- Ele foi seu primeiro amor, Dri - ela disse, serena, com um sorriso no rosto. - Primeiros amores são assim, são devastadores e a gente sente tudo com mais intensidade. Acho que a maioria acaba por causa disso, por ser o primeiro. A gente não tem experiência e não sabe como agir... Mas acho que você fez bem, Dri. Vai doer, mas vai passar. Você é linda, priminha. Linda, inteligente, esforçada, trabalhadora... Vai achar alguém pra você que te ame, te respeite e te mereça. Eu achava que podia ser o JP, você sabe, eu gosto muito dele. Mas se não foi, tudo bem. Você vai achar outro cara.

Outro cara.

A ideia de arrumar outro cara me fez entortar o rosto e querer chorar ainda mais - e acabei chorando mais por não aceitar deixar JP ir.

- Podia passar logo - murmurei.

Mila passou a mão pelos meus cabelos, apertando-os e me dando um outro beijo na testa. Sorriu e me balançou mais um pouquinho. O carinho e a atenção eram ótimos, eu me sentia amada, apoiada... Não tinha conversado sobre aquilo com ninguém ainda, Cela tinha seus próprios problemas e eu não queria preocupá-la. Para ela, JP e eu tínhamos terminado porque eu precisei me mudar por causa da discussão com a minha mãe. Sabia que tínhamos dormido juntos, mas não fazia ideia que ele participara do atentado a UPP do Batan e que termináramos por causa disso.

Ela achava que eu estava triste, mas bem. O meu coração quebrado estava bem escondido, bem guardado e bem distante de se tornar uma preocupação para a minha melhor amiga. Por sorte, eu tinha Mila para me abraçar e dizer que tudo iria ficar bem.

- Vai passar com o tempo, Dri - ela disse. - Sabe o que eu vou fazer pra você? Chocolate quente. Chocolate quente resolve tudo.

Ela deu dois tapinhas no meu braço e eu levantei-me de seu colo, secando as lágrimas derramadas com uma risada leve. Mila deu passos largos para a cozinha e logo estava preparando o tal chocolate quente. Nescau, na verdade, eu ri quando vi o que realmente era.

Sentei-me, tentando me arrumar e passei as costas das mãos pelas bochechas, afastando o vestígio das lágrimas, mas sem conseguir afastar a tristeza que tinha dentro de mim. Poderia chorar por dias... Estava contente, porém, em ter a oportunidade de mudança. Um pequena luz para me agarrar durante aquele tempo sombrio.

- Talles dise que ia conversar com umas pessoas sobre te arrumar um emprego - ela anunciou, dando uma olhada no celular, provavelmente lendo uma mensagem do namorado. - Ele conhece tanta gente na cidade: é assustador. Todo mundo se conhece. Mas acho que você vai se acostumar rápido, eu acabei me acostumando também.

Levantei-me do sofá e fui me sentar na bancada do parapeito da cozinha, de frente para Mila, que estava esperando o microondas liberar meu Nescau.

- Você gosta muito dele, né?

O apito do microondas interrompeu a olhada esperta que Mila me atravessou. Ela virou para pegar o leite e eu dei um suspiro cansado, um pouco chateada comigo mesma. Ela virou, colocando o copo na minha frente e procurando os meus olhos com os seus.

- É um bom homem, ele. Um idiota na maior parte do tempo, mas tem um coração grande, mesmo que tenha dificuldade de admitir. Se depender dele, você vai poder escolher um emprego. E isso significa que ele vai filtrar as vagas e só te contar as que ele achar melhores.

Eu ri, tomando um primeiro gole do nescau. O leite achocolatado desceu queimando pela minha garganda, aquecendo algo no meu interior. Realmente, melhorava a amargura da vontade de chorar.

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Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!