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Sentei-me no sofá estranho, pensando que teria que começar a me acostumar com aquela nova realidade. A cidade era completamente diferente de tudo ao que eu estava acostumada e muito diferente, também, do que eu imaginara. Não era tão roceira quanto em minha cabeça, mas, mesmo assim, parecia assustador. A vizinhança tinha nos olhado chegar e entrar no prédio com olhos de águia, como se perguntando quem nós éramos. Eu tinha certeza que estavam acostumados com jovens chegando todos os anos, mas não naquela época. Eu estava um pouco adiantada no calendário, mas a culpa não era exatamente minha, a vida tinha virado de cabeça para baixo e era bom ter um bom novo ar para respirar.

Mila estava sendo uma anfitriã maravilhosa, embora não fosse uma boa cozinheira. Era atenciosa, carinhosa e parecia cuidar de Cela e de mim com todo o cuidado, quase como se fôssemos de porcelana e ela tivesse medo que quebrássemos em suas mãos a qualquer momento. Percebi, com carinho, que Mila tinha jeito de mãe; ela cuidava da gente da mesma forma carinhosa e preocupada que tia Claúdia tinha cuidado.

Sentei-me no sofá enquanto Mila estava na cozinha lavando as louças. Talles estava fora, estudando ou na academia, ela tinha mencionado, mas eu tinha me perdido no cronograma do rapaz. Mila, eu sabia, estava matando aulas para nos receber. Coisa que ela não poderia fazer no dia seguinte, tinha me alertado, mas nos dera uma lista de lugares para ir e coisas para fazer que iria funcionar.

Vi quando terminou a tarefa e virou-se para mim, secando as mãos, com um sorriso leve no rosto.

- Você acha que ela vai ficar bem? - Perguntei.

Mila se sentou no sofá ao meu lado e eu deitei a cabeça em seu colo, sem nem pestanejar. Minhas malas ainda estavam abandonadas no canto da sala e, apesar de termos passado as últimas horas rindo, apesar do caminho de carro do aeroporto de Goiânia até Jataí ser longo, Mila sabia o quão quebrada eu estava. Nós duas sabíamos que agora que Cela fora deitar para descansar, destruída depois da longa viagem e a semana terrível que tivéramos, não demoraria para que eu desmoronasse.

Grande parte das minhas coisas já tinha vindo comigo na viagem. Eu não tinha lá muitas coisas mesmo, com três malas, minha vida estava me acompanhando. Ficaria por Jataí com Mila e Talles pelos próximos meses, até eles se formarem, que seria quando eu começaria a minha faculdade. As poucas coisas que ficaram para trás estavam na responsabilidade de Cela de me mandar, quando retornasse ao Rio. Conversei com ela sobre a possibilidade dela ser minha colega de quarto, mas ela preferiu criar o filho próximo da avó, que tanto desejava sua presença.

Fizemos promessas, nós duas. Eu as visitaria em todas as férias, festas e feriados prolongados, nem que tivéssemos que dividir a passagem ou a que estivesse em melhores condições financeiras pagasse, nem que eu tivesse que ir de ônibus para economizar. Cela sairia da favela com o dinheiro de Pepê lhe deixara, venderiam as três casas: a dela, a da mãe e o esconderijo e morariam em um lugar mais calmo, onde meu afilhado cresceria sem sofrer as influências do tráfico.

Ele teria uma vida melhor que todos nós. Era o meu único desejo.

- Vai sim - Mila concordou, passando os dedos pelos meus cabelos encaracolados. - Ela está tão certa. Poucas vezes vi uma moça tão nova tão feliz com uma gravidez. Ainda mais nas condições dela. A maternidade lhe caiu muito bem.

Minha mãe tinha engravidado nova assim, eu sabia. Apesar de todos os problemas e todas as nossas discussões, ela tinha feito o seu melhor para que eu fosse melhor que ela, embora tivesse medo que eu voasse. Fizemos as pazes, nós duas. Disse que estava orgulhosa de mim, das minhas atitudes e da mulher que eu tinha me tornado. E que me deixava ir, mesmo que não fosse o que ela queria, se era o que eu desejava, eu merecia ter. Não ficou muito feliz por Mila estar me ajudando tão ativamente; parecia que esperava que Mila enfiasse uma faca em minhas costas a qualquer momento, mas me deixou ir e ainda me deu algum dinheiro.

Tia Cláudia também me deu algum dinheiro. Apesar das minhas negações, ela disse que era o que Pepê teria feito e, com isso somado à minhas economias (a chave, por algum motivo inexplicável, estava junto às joias da tia Claúdia), abri uma conta no banco com uma quantia assustadora. De alguma maneira, meu melhor amigo tinha guardado uma quantia imensa por motivo algum - ele não era muito de gastar e tirava bastante grana das gestões da droga, além da pensão que ganhava do tráfico por seu pai, do que o governo lhe dera pela morte inexplicável do pai, que ele guardou por todos aqueles anos, e do que herdara do pai, também. E ele guardou... Pra gente.

Eu tinha escutado que, quando a pessoa estava para morrer, ela reagia diferente, como se soubesse. O abraço que ele me deu me dizia que, de alguma forma, ele sabia. O esconderijo, o dinheiro... Tinha um monte de coisa preparada para a gente, quando estivéssemos sem ele. De alguma forma, ele preparou tudo.

- Os pais dela convidaram ela para morar com eles de volta - contei a Mila.

Encarei a porta do quarto em que eu dividiria com Cela por alguns dias, enquanto ela esfriava a cabeça de todos os problemas, apenas conferindo se ela não estaria ouvindo o que eu falaria agora, sabendo o quanto havia magoado minha melhor amiga.

- Isso é bom, não é? - Mila sorriu, sem saber. - É bom ter apoio dos pais nessas horas. Você também conseguiu isso.

Meu sorriso foi curto. Sim, minha mãe estava finalmente me apoiando e isso era ótimo. Tinha me mandado umas cinco mensagens preocupadas desde que me deixara no aeroporto no Rio. E Cela tinha a tia Claúdia, mas o mesmo não poderia ser dito de seus pais.

- Não - murmurei, com medo da minha amiga levantar e me pegar falando aquelas coisas, trazendo todo o sofrimento de volta. - Eles disseram que aceitariam ela de volta em casa se ela abortasse.

Ouvi Mila segurar a respiração.


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