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- Não é pra mim que você tem que pedir desculpas, João - ela caminhou em minha direção, só mais uns passos, alcançando o pé da cama. Tentei me esticar, pegar sua mão, mas ela só olhou meu esforço com devida indiferença. - É pras famílias que você destruiu ontem. Pra toda essa gente que foi afetada por sua sede de vingança. E eu não tô falando só do Batan, não. Morreram alguns dos nossos. Mais dos nossos. E isso pra quê?

Eu não sabia lhe responder. Eu não sabia quantos mortos foram, quantos feridos foram, eu preferia não saber o que minha atitude havia causado, mas estava quebrado por dentro por causa das consequências. Só queria que alguém sentasse ao meu lado e me abraçasse e dissesse que tudo ia ficar bem, que tudo ia ser corrigido... Mas eu só estava sendo julgado e julgado, levando sentença atrás de sentença.

A futura juíza Adriana seria impassível e incorruptível.

- Drica... Eu sinto...

Ela voltou a levantar o olhar e eles brilhavam de uma forma que eu nunca vira. Era dor, desaprovação e... Raiva. Brilhavam intensamente, magoados, me empurrando mais e mais para o abismo da distância que colocara entre nós dois.

- Você não pôde ir ao enterro do seu irmão - a mágoa estava clara em cada palavra daquela frase. - Se despedir dele como ele merecia. Não estava lá pra sua mãe, pra sua cunhada, pro seu sobrinho... Pra mim. Só não estava lá, João. Por quê?

- Porque eu fui um imbecil.

- Que bom que você sabe.

Um silêncio constrangedor se fez presente e eu engoli a seco, vendo-a dar mais alguns passos e sentar ao pé da minha cama. Minha perna girou em sua direção, causando um leve ardor no curativo, mas poder encostar nela foi... Indescritível. Mesmo que acidentalmente, valia a pena.

Com horror, percebi que Drica tinha feito eu me sentir de uma forma que nenhuma outra mulher fizera e eu estive tão anestesiado por tudo que não pude aproveitar plenamente. E agora... Ela escorregava de meus dedos com sua nova rigidez altiva e eu não sabia o que fazer.

- Você já viu o que a mídia tá falando? - Perguntou. - Estão pintando o Pepê de um monstro... Eu não sei nem reproduzir. Você deu sorte de não ter sido citado na matéria. Na verdade, não acho que isso seja sorte.

- Do que você está falando?

- A princesa das mídias - falou, parecendo não muito contente com o fato. - É amiga da Mila. Mila e ela estão fazendo ligações, usando a influência delas pra tentar limpar sua barra. Você tirou a garota de uma reabilitação pra isso.

Manuela Montes. Meu coração disparou em uma injeção de adrenalina enquanto eu ponderava o que estava acontecendo. Mila tinha conseguido falar com a amiga e ela estava me tirando das mídias, tentando amenizar e apagar minha participação, como se não tivesse acontecido.

Eu podia fingir que não acontecera.

- Eu vou agradecer elas depois.

- Você tem um emprego, aliás. E um apartamento em São Paulo, esperando por você, quando você melhorar. Parece que você precisa decidir o que vai fazer agora.

Eu estava embasbacado... Apesar de tudo, aquela era uma notícia ótima. Eu não aguentaria mais um segundo naquele meio, não sabendo que a qualquer momento, tudo poderia acontecer de novo e eu talvez precisasse matar alguém a troco de nada. Por ódio, vingança ou para me defender.

Eu teria um emprego. Em São Paulo, na cidade que eu tanto adorava. Voltaria para o meu canto, o meu refúgio, com amigos antigos e lugares favoritos, a tudo o que eu me acostumara em minha juventude.

- Isso é... Ótimo - foi tudo o que eu consegui dizer, com o peito preenchido de esperança de sair daquele mar de horror e ficar bem.

- Parabéns - Drica disse, mas sem demonstrar nenhuma emoção. - Ligue para Mila quando quiser. Ela vai te dar os detalhes. Está preocupada, também.

Encarei Drica com meus olhos brilhando. Drica iria para a USP em alguns meses. Nós poderíamos ficar juntos, se ela me perdoasse. Poderia cuidar dela na cidade grande, talvez morássemos juntos em alguns meses. Observei aquele futuro com a barriga embaralhada, desejando-o intensamente, implorando para que ele acontecesse logo.

Só faltava ela. Só faltava ela apertar minha mão de volta.

- Por favor... - Murmurei, procurando as palavras certas. Estiquei-me, conseguindo capturar sua mão na minha. Apertei-a, mas sem sentir o característico aperto dela. Meu coração despencou de cem andares, mas permaneci firme, permaneci tentando. - Me deixa voltar. Eu sei que eu te magoei, que eu magoei todo mundo e fiz merda, mas eu... Eu me arrependo. Eu sei que estava errado. Deixa eu consertar tudo, Drica.

Houve um momento em que meu pedido ficou no ar, esperando pela batida do martelo. Um momento em que nós dois pesamos as palavras, as atitudes, o passado e as oportunidades. Drica encarou o além, seu olhar perdido acima da minha cabeça.

Pareceu passar em câmera lenta, quando você via cada detalhe, cada partícula de sujeira no ar, cada sopro de vento, cada raio de sol. Vi-a respirar fundo, os ombros subirem e, depois, caírem como em uma derrota. Vi a dúvida e o medo cruzar seus olhos... Apenas por um momento, antes de voltar a mesma rigidez a que eu já estava me acostumando.

- Arrependimento não traz ninguém de volta, traz? - repetiu.

Ela soltou minha mão, enquanto eu me afundava no limbo. Levantou-se da cama, passando as mãos pelos cachos com todo aquele novo poder inebriante que emanava dela, encaminhando-se para porta. Parou no meio do quarto para me olhar mais uma vez e deu um suspiro cansado e chateado, demonstrando estar sofrendo com aquilo pela primeira vez em toda a conversa.

- Preciso ir - disse. - Você tem uma decisão para tomar e eu tenho uma viagem para fazer. Boa sorte com tudo.

E antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, atravessou o portal sem olhar para trás. Tentei, ainda, me levantar para ir atrás dela, mas só consegui urrar de dor por conta do meu machucado.

NOTA: Mantenham a calma, por favor.
Resolvi atualizar agora porque estou sem Internet em casa e não sei se vai ter voltado quando eu retornar.
Só falta mais um capítulo e um posfácio.
Mantenham a calma.
A gente chega lá
Até semana que vem!

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