34.2 -

876 99 9

Se mantinha em uma distância segura de mim, passos demais. Forcei ao menos me sentar na cama, sentindo a pele da ferida de bala em minha perna repuxar e reclamar de uma maneira gritante. O olhar de Drica saiu do meu rosto até onde minha perna exposta exibia o curativo, na coxa, manchado de vermelho. Seus olhos cerraram por um momento e ela voltou a me encarar.

Estava vestida em preto. Um vestido não muito longo, com mangas cheias que estava a fazendo parecer com uma espécie de princesa. Um cinto branco em sua cintura destoava de todo o resto, mas que deixava sua silhueta esguia mais imponente e respeitosa.

Não sabia o que dizer. Abri e fechei a boca algumas vezes. Havia algo que poderia ser dito que fizesse toda a merda que eu provocara ser apagada e ela voltasse para os meus braços naquele mesmo segundo?

- Dri, eu sinto muito, eu... - Balbuciei.

Seus olhos estavam inchados e as bochechas estavam muito proeminentes, embora todo o seu corpo demonstrasse sinais de quem emagrecera demais. Porém, além disso, não havia nada que lhe demonstrasse fraqueza, nada que remetesse à garota que eu deixara chorando quando resolvi ir atrás de vingança. Parecia que dois séculos separavam as duas Dricas e que essa não se importava nem um pouco com o meu sofrimento e a falta que ela fazia em minha vida.

- Pessoas morreram, João - ela não deixou nem eu terminar de falar, pontuando claramente o descaso e a desaprovação que ela sentia por mim. - Pessoas inocentes morreram, policiais morreram. Gente que também tinha família, pessoas que amam elas. Tem muita gente ferida.

Fechei meus olhos e engoli a seco a dor que sentia desde que atirei no pescoço daquele policial e a verdade me atingiu com mais força do que a bala que penetrou minha coxa. Eu tinha feito algo extremamente errado e se pudesse voltar atrás...

- Eu sei, mas eu...

Drica soltou uma risada nervosa que arrepiou todos os meus pelos, interrompendo a minha fala. Ela parecia extremamente poderosa e completamente diferente, era quase como se eu não a conhecesse, misturado com o fato de que ela não queria, mesmo, que eu visse exatamente como ela era agora. Algo tinha quebrado dentro dela - eu tinha quebrado? - e não parecia ter conserto.

- Se arrepende? - Perguntou. Pareceu um pouco debochada e meu coração foi esmagado pela força que ela emanava, gritando por socorro, por um pouco de atenção que não parecia disposta a acontecer. - Se arrepende, é isso que você vai falar? Arrependimento não traz ninguém de volta, traz? Eu me arrependo de ter subido na moto aquela noite, mas isso não vai trazer Pepê de volta, vai? Arrependimento não faz nada.

Amargura estava brotando de suas palavras sem nenhum tipo de filtro. Conseguia, porém, ver sua dor estampada e tintilando nos sons que proferia, na maneira de olhar, na forma com que seu corpo se comportava em minha presença.

Queria fazê-la acreditar em mim, no que eu dizia, no que eu sentia. Queria que ela visse o meu lado... Mesmo quando eu não pude ver o seu.

- Arrependimento faz a gente mudar, Drica - encarei seus olhos escuros, vendo-a muito mais amadurecida do que a menina que eu deixara na porta da casa do meu irmão em meio a um tiroteio.

Seja lá qual foi, da série de coisas terríveis que aconteceram naquela semana, tinha feito Drica virar uma mulher imponente e poderosa, como sempre acreditei que ela seria. Estava firme e irredutível e, embora isso triturasse meu coração, embora eu ainda tivesse chances daquela menina estar ali em algum lugar e ouvisse meus apelos, eu conseguia ver, em seus olhos que emanavam a força da justiça e a juíza que ela seria, ja dentro dela, que não tinha volta.

Não estava pronto para desistir dela. Não achava que nunca estaria.

- Faz - ela concordou.

Sua resposta me encheu de calor. Ela acreditava que arrependimento mudava, então era claro que podia acreditar que eu havia mudado, podia me dar uma chance. Qualquer chance. Qualquer coisa. Qualquer faísca de esperança que eu pudesse me agarrar.

- Eu me arrependo - murmurei, a voz fraca, com horror e medo das coisas que eu fiz. - Eu fiquei... Perdido, acho. Isso foi ao que eu me agarrei. Cela e minha mãe se agarraram ao bebê e você a elas. Eu me agarrei ao horror. Ao medo. Estava tudo acontecendo e eu só fui... Eu fui indo, fui levado... Eu me arrependi, Drica. No momento em que eu vi que as coisas sairiam do controle e eu já estava lá. Eu... - Fechei os olhos e senti as lágrimas descendo. - Eu matei um policial. - Encarei Drica e ela estava impassível, nada em sua expressão se alterou, além das narinas inflando ao tomar um pouco mais de ar. - Matei um homem. E aí eu vi que eu estava errado e fugi. Eu quis voltar na hora. Foi quando eu... - Apontei para o curativo ensanguentado.

Apesar da máscara que ela vestia, tentando me afastar, me manter distante, conseguia ler o choque eu seu rosto por conta das minhas palavras. A decepção e a dor, que eu também sentia, pelo que eu havia feito. E isso doeu ainda mais, ver que minhas escolhas erradas machucavam a quem eu amava, machucavam Drica.

- Você precisou matar alguém pra me ouvir - ela murmurou, parecendo ainda mais rígida e distante. - Você matou...

Ela não me escutava de forma alguma, só ouvia as coisas ruins que eu lhe dizia, só prestava atenção nos detalhes errados, então precisei aumentar o tom de voz.

- Eu me arrependi, Drica! - Implorei pela sua atenção e pelo perdão. - Por favor, me desculpa. Eu não tinha ideia do que estava fazendo.

Ela abaixou o olhar, não conseguindo mais sustentar a intensidade que atravessava nós dois, minha súplica e a sua indiferença.

O oposto do amor é a indiferença, eu pensei, com o coração apertado. Drica estava me provando que não se importava mais, que não sentia mais nada.

E aquilo doía.

Aquilo matava.

YJ�f~P

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!