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- AHHHHHHHHHH! - Gritei.

- Ai, para de ser maricas. Já tirei umas cinco dessas.

Barriga estava debruçado sobre minha perna com uma pinça, tentando tirar a bala, que estava alojada em algum lugar por ali. Eu só conseguia ver estrelas e desejar a morte. Não tinha nenhum remédio para diminuir a dor que eu estava sentindo, mas... No fundo, eu merecia.

Tinha tirado a vida de um homem. Um pai de família, talvez. Alguém que não tinha nada a ver com a morte do meu irmão. Eu merecia a dor, eu merecia mais que a dor.

Isso não me impedia de proferir uns palavrões, também.

- Aposto que não foi com alguém que não conseguia tirar a bala! - Gritei, desesperado.

Ele estava cutucando o machucado com a pinça há uns cinco minutos e a bala apenas escapava de suas mãos. Por duas vezes, já tinha levantado minhas mãos na esperança de esganá-lo, mas ele dava mais uma pinçada (não sabia se era proposital ou não) e eu voltava a urrar de dor.

Tinham lágrimas acumuladas em meus olhos e, ao menos isso estava me impedindo de surtar totalmente pela chuva de merda que eu havia feito.

- Pronto - Barriga retirou a bala e jogou a pequena cápsula de metal ensanguentada na minha cara.

Peguei e avaliei-a. Como uma coisinha daquelas fazia tanto estrago? Matava, machucava? Será que quem teve a brilhante ideia de fazer balas, armas e bombas conseguia dormir à noite? Eu duvidava que conseguisse.

- Ok - coloquei-a na cabeceira da cama. Barriga tinha me levado pra casa dele, quase uma mansão no meio da favela, e me instalado em um dos seus quartos. A casa estava toda ensanguentada por minha causa e eu duvidava que o lençol da cama teria alguma salvação. - E agora?

Barriga riu.

- Agora a gente costura.

Demorou mais cerca de meia hora de sofrimento, mas eu podia perceber as mãos firmes, embora um pouco inexperientes, de Barriga, tomando todo o cuidado, limpando o ferimento e tentando deixá-lo o mais correto possível.

Pude ver, em seus olhos, que aquela era a sua vocação. Barriga teria sido um ótimo médico, mas a vida tinha tirado isso dele. A chance quase impossível de alguém pobre e sem recursos de estudar medicina, fosse por conta do buraco educacional das escolas públicas, que não davam suporte para passar em uma faculdade pública de medicina, fosse por conta dos livros caríssimos.

Ele tinha dado um jeito, porém. De fazer um pouco daquilo.

- Você teria sido bom, sabe - sussurrei, afundando na cama, minha perna rígida de medo de mover e voltar a sentir toda aquela dor. - Médico.

Barriga me olhou por um segundo, a sobrancelha arqueada por eu tê-lo pego desprevinido. Sorriu de lado, com o elogio inesperado e apoiou a mão avermelhada com o meu sangue em meu ombro.

- Vou pedir para Carlene te trazer uns calmantes. Vai te deixar dormir um pouco e relaxar. E nada de mexer essa perna, não queremos perder mais sangue.

Concordei com a cabeça e ele se foi. Carlene voltou alguns minutos depois, com um balde, um copo e alguns comprimidos. Ajudou a terminar de cortar minha calça jeans, rasgada para que Barriga pudesse fazer a sua pequena cirurgia. Cortamos no meio da coxa, deixando a área ferida exposta. Ela me ajudou, também, a limpar o sangue que ainda tinha, na região e em minhas mãos.

Ofereceu-me três comprimidos. Um antiinflamatório, um para dor e um calmante. Era simpática, a moça, e fiquei na dúvida se era esposa, mesmo que uns bons quinze anos mais nova que Barriga, ou empregada. Declarei que não era da minha conta, tomei os comprimidos e dormi enquanto Carlene tentava limpar as manchas de sangue do chão do quarto.

Quando acordei, estava morrendo de fome. Olhei no relógio na cabeceira e a data me informou que eu dormira quase vinte e quatro horas. Com o aperto, percebi que tinha perdido o enterro de Pepê, não que eu pudesse ter ido com aquela perna.

Queria chorar, mas pulei de susto ao ouvir uma voz inesperada me chamar a atenção.

- Como você está?

Eu mal acreditei na figura que eu via em minha porta, parada no portal como um anjo caído, sua beleza sendo enaltecida em cada pequeno raio de sol que conseguia passar pela minha janela para ela, iluminando sua pela de cor de chocolate e os cachos negros que caiam sobre os ombros, muito bem arrumados - talvez mais arrumados do que eu jamais os vira.

- Vivo - respondi. Era o melhor elogio que eu poderia fazer a mim mesmo.

Vivo, porém, eu estava por fora. Por dentro era só horror, dor e morte. Não achava que restava mais nada além disso, nenhuma esperança, nada. Eu estava quebrado além do limite.

- Barriga falou que você levou um tiro - ela disse.

Apesar da expressão rígida, eu via a costumeira curiosidade contida e havia um pequeno brilho de preocupação em seus olhos que me fez respirar um mísero pingo de esperança de que não havia acabado entre nós.

- Sim - respondi. Descobri minha pena, exibindo o curativo - Na coxa.

Ela deu alguns passos incertos para dentro do quarto, o olhar curioso focado em minha perna, no ponto improvisado dado em minha coxa. Suspirou, cansada e voltou a me olhar.

- Não contamos nada para sua mãe, tiramos o carro de casa, então ela acha que você está em uma viagem para espairecer - disse. - Parece que você fez algo parecido quando seu pai morreu, então ela está acreditando. Faça o favor de não deixar ela saber disso. Vai morrer de desgosto.

Tinha algo cruel em seu tom de voz, quase beirando ao nojo, que me congelou, apesar do aviso carinhoso e do esforço para proteger minha mãe da verdade dos meus erros, do problema em que eu me enfiara e decepcionara tanta gente, além de quebrar algo importante dentro de mim que eu mesmo ainda não havia conseguido descobrir o que, exatamente, era.

- É melhor que ela nunca saiba mesmo - concordei.

Drica levantou o olhar para os meus olhos e a vi cerrar seus palpebras em minha direção, como se me avaliasse silenciosamente. Meneou a cabeça, os cachos caindo para um lado, deixando-me ver que pouco restava de sua feição angelical agora: ela era toda rigidez, dureza e poder.

- Agora você vê, não é? - Ela perguntou.

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