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- Marcela Loureiro - repeti para o rapaz que checava os visitantes. Era a terceira vez que eu lhe dizia o nome dela e ele não conseguia encontrá-la.

Teria olhado no celular e tentado ligar para ela, mas o inferno do hospital não tinha um mísero ponto de sinal, me deixando a mercê de funcionários incompetentes.

- Não consigo encontrar - ele me relatou.

- Loureiro. Marcela Porto Loureiro - repeti. Estava ficando irritada. Muito. - Ela deu entrada ontem de noite. Grávida, teve um problema, passou mal e ficou em observação. Tem como checar pra mim? Por favor?

Tentei da maneira educada, antes de começar a querer quebrar tudo. Como eles poderiam perder a Cela em um hospital? Tinha deixado-a em segurança e voltado para JP, ela tinha que estar ali em algum lugar.

- Claro - ele respondeu. - Só me deixa terminar de atender o resto do pessoal e aí procuro ela, está bem?

A contragosto, concordei, compreensiva. Uma pequena fila se formava atrás de mim, já que eram os primeiros minutos de visita e tinham outras pessoas ansiosas para verem seus familiares adoecidos. Afastei-me, respirando fundo.

- Vou comer alguma coisa e já retorno - disse ao rapaz, que concordou com a cabeça, atarefado.

Chateada em não poder passar os braços ao redor de Cela naquele exato momento, caminhei aos arrastões até a lanchonete do hospital. Não era a melhor coisa comível do mundo, mas tinham alguns salgados interessantes e daria para me alimentar enquanto me acalmava e aguardava que os funcionários do hospital corrigissem o erro. Sentei-me em uma das mesinhas, sendo a única pessoa ali presente àquela hora da manhã. O garçom, prestativo, correu em minha direção com o menu assim que me viu - deveria ser a primeira pessoa que ele atendia no dia e estava animado. Queria estar animada.

- Bom dia - Ele me cumprimentou. - Vai querer alguma coisa?

Meu humor, nem um pouco parecido com o dele, quis responder algo maldoso, mas apenas sorri amarelo e encarei o menu, escolhendo.

- Um misto quente e um suco de laranja, deve servir - pedi, agradecendo pelos lanches não serem caros, o que era estranho para um hospital.

Ele se afastou e eu tirei o celular do bolso, sentindo que ele vibrava incansavelmente. Tinha sinal ali naquele ponto, então.

Duas ligações não atendidas. Várias mensagens de Mila.

Antes de abrir o chat com Mila, porém, mandei uma mensagem para Cela, perguntando onde estava. Torcia para que tivesse sinal, mas pelo horário da última vez que checara o celular, no dia anterior, duvidava que sequer tivesse bateria.

Abri a conversa com Mila:

"Quê???????
COMO ASSIM?
Adriana, volte aqui e conte isso direito.
Pera.
Arde sim. É normal.
AI MEU DEUS ME CONTA ISSO!!!!!!
DRICAAAAAAA"

Eu queria rir, mas algo dentro de mim estava quebrado e não esbocei nada além de um sorriso. Respirei fundo, tentando pensar em uma maneira de resumir o dia anterior para minha prima.

"Vms com calma pf. mta coisa aconteceu. eu to meio perdida"

Assim que a mensagem foi visualizada, enquanto eu ainda pensava em como contar, o telefone tocou.

"Ei!" Mila estava animada.

- Oi - respondi.

Queria saber o que dizer, mas as informações estavam tão embaralhadas que isso foi só o que saiu.
"Nossa, o que houve?"

Meu simples oi foi suficiente para que ela notasse que algo estava estranho comigo. Respirei fundo e comecei a relatar meu dia anterior com cuidado para contar tudo. Mila se chocou quando lhe disse sobre Pepê e se horrorizou quando contei de manhã, sobre JP.

"Eu nem sabia que ele tava pegando em armas! Dri, você disse... Eu achei que ele tava dando tempo ao tempo..."

Nem Mila estava conseguindo organizar as ideias para me ajudar.

- Nunca tinha visto jP com uma arma até ontem - murmurei.

O garoto com o meu lanche se aproximou para deixá-lo sobre a mesa e arregalou os olhos ao me ouvir dizer "arma". Tentou disfarçar, sem sucesso, voltando para trás do seu balcão.

"Eu vou ajudar ele, Dri" disse e eu soube que ela estava chorando. "Eu sinto muito pelo Pepê, pela Cela e por tudo isso com o JP. Nós vamos resolver tudo juntas, ok?"

Fechei os olhos, prestes a cair no choro outra vez. Mila agia como minha irmã mais velha, sempre dava um jeito de me ajudar, mesmo quando não sabia exatamente o que fazer.

- Como, Mila? - Minha voz saiu embargada - Não sei nem se ele vai sair vivo disso tudo. Não sei...

A voz falhou além do limite e eu parei de falar para evitar um estrago total. Tomei um gole longo do suco de laranja, ouvindo-a suspirar.

"Vou falar com uma amiga minha que pode ajudar - disse. - Ela tá internada numa reabilitação... Ainda não falei com ela por causa disso, mas eu vou dar um jeito. Tem que ter um jeito. Vou tirar ele daí, Dri, e você não vai ter que se preocupar. Sei que tá magoada, mas você gosta dele. Vai ficar mais tranquila se ele não correr risco nenhum, né?" Perguntou.

- Claro - minha voz estava absurdamente aguda e eu estava segurando minhas lágrimas com o máximo de esforço.

"Talles já arrumou um apartamento em São Paulo. Ele vai dividir com um outro rapaz, que está procurando uma terceira pessoa. A Manu mora em São Paulo, então... Imagino que seja uma solução razoável. E ele conhece a cidade. Talles adiantou a parte dele pra segurar a vaga, acho que não vai ter problma. Faltam só quatro meses agora".

Ela parecia estar falando mais consigo mesma que comigo, enquanto pensava na melhor forma de me ajudar. Mordisquei meu sanduíche, sentindo o gosto um pouco apagado por conta da vontade de chorar.

"E você... Sua mãe... Você pode vir pra cá agora, se quiser. Vou pedir pro Talles esvaziar o quarto. Vai ser muito bem vinda, só espero que não se incomode... Você pode escutar uns barulhos à noite..."

Qualquer outro momento, teria rido. Sabia bem que barulhos esses eram, visto que eu já os escutara. Com vergonha, consertei meus pensamentos: eu mesma já fizera os mesmos barulhos e tinha ficado bastante irritada com o fato de que, por mais que achasse estúpido, eu não conseguira parar de gemer.

Lembrar de JP me fez querer me esconder debaixo da mesa. Enquanto tentava formular uma negativa adequada para Mila, reparei que o garçom estava encarando a TV com muito afinco e me deu uma olhada esquisita. Arregalei os olhos, vendo a confusão de fogo, tiros e explosões que a televisão mostrava.

- Mila...

Com horror, reconheci o lugar. Era a única favela com unidade de polícia pacificadora perto de casa. E, ainda mais horrorizada, eu soube que JP estava lá.

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