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Eu não sei quanto tempo passei ajoelhada no chão de terra do esconderijo de Pepê e Cela chorando. JP tinha me distraído de minhas dores por todo o verão e agora, quando mais doía, ele tinha preferido se entregar às garras de tudo que era ruim e me deixado sozinha. E não voltaria. não como o homem que eu me apaixonara, bom, justo e decente.

As justificativas se embraralhavam na minha cabeça e eu não sabia mais pelo quê estava chorando. O problema com a minha mãe parecia tão distante e pequeno agora que era o que mais me fazia chorar: como tudo conseguira dar tão errado em tão pouco tempo? Eu tinha fugido de casa para buscar conforto nos braços de JP e saí de lá para resolver o drama de Cela com Pepê. E agora eu só tinha Cela. Só Cela e o bebê que ela esperava.

Eu nunca mais veria meu melhor amigo e, agora, talvez nunca mais veria JP também, porque ele estava cego demais para enxergar a merda que estava fazendo. Movido pelo ódio e a gana, corria o risco de destruir a vida da própria mãe, que eu duvidava que aguentaria mais uma perda. De destruir a minha vida.

Peguei-me rezando. Ajoelhada, entra lágrimas. Rezei para que Pepê encontrasse paz em sua morte e para que JP saísse ileso da merda que estava fazendo e para que conseguisse alguma coisa - qualquer coisa - que lhe tirasse daquele lugar.

Depois chorei mais ainda e pedi que conseguisse forças para perdoá-lo um dia. E mais forças para enfrentar tudo o que eu tinha pela frente, sabendo que nada seria fácil quando meu coração estivesse tão partido.

As lembranças da noite maravilhosa me faziam chorar mais. Não parecia ter sido partilhada com o mesmo homem que eu encontrara pela manhã, incapaz de ouvir minha súplica, minhas lágrimas, meus pedidos desesperados. Queria protegê-lo de si mesmo, mas não conseguia.

No final do dia, eu era apenas uma garotinha assustada. Eu sempre era.

A garotinha assustada que fugiu da mãe porque não conseguiu aguentar mais seus ataques. A garotinha assustada que precisou ser salva no meio do tiroteio pelo amigo, que perdeu a vida. A garotinha assustada que precisou pedir ajuda para a amiga grávida que estava passando mal. A garotinha asustada que não conseguia lidar com o fato de ser abandonada pelo namorado após perder a virgindade, porque ele queria matar algumas pessoas em troca do seu bem estar.

Decidi, naquela noite, que pararia de me assustar e me esconder. Que eu seria a primeira a me levantar e atacar, que iria lutar por tudo que acreditava.

Iria recolher meu dinheiro e minhas coisas e partiria para Jataí nem que tivesse que ir na garupa de um caminhão. Saíria daquele fim de mundo e, se tivesse sorte, arrastaria Cela comigo.

Cela.

Ainda ajoelhada no chão, encarei a porta da casa, lembrando-me dos meus planos ao me levantar. O dia estava ficando cada vez mais claro e logo as visitas seriam autorizadas e eu gostaria de estar lá para a minha amiga. Mesmo com tudo desabando, mesmo com meus planos de mudar tudo, de apagar o passado e seguir em frente, Cela estava passando por um momento horrível e complicado em sua vida e eu queria estar ao seu lado, como ela sempre esteve ao meu. Seria sua âncora, firme, por quanto tempo ela precisasse.

Fechei os olhos, adiando meus planos mentais de mudança mais uma vez; Cela precisaria de ajuda. Ficaria em sua casa, então, por tanto tempo fosse possível.

Tinha muita coisa para ser feita e muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Entrei na casa para tomar banho e tirar o cheio de JP que parecia entranhado na minha pele. O gosto. Os toques. Acabei perdendo outra meia hora chorando no chuveiro, de pavor e medo, tentando evitar pensar no que lhe estava acontecendo. Já estaria armado? já estaria no confronto? Estaria baleado, morto? Teria desistido, voltado pra mim?

Sabia que não, desejava que sim. Coisas que a gente choraminga, pedindo para acontecerem, nos enganando e sofrendo.

Desejava voltar no dia anterior e fazer coisas diferentes. Deixar JP e Pepê fugirem, o que não resultaria na morte do meu amigo e nem na ira que mudara JP.

Nada mais podia ser feito, então, arrasada e destruída, eu saí do chuveiro e me enrolei em uma toalha. Não molhei meu cabelo, mas, naquela altura, estava arrasado além do limite.

Combina comigo, pensei, cansada.

No armário, tinham algumas roupas de Cela, achava que nunca usadas, que me serviram. Escolhi algo apropriado para a perda e para o meu humor, uma calça jeans de um azul muito escuro e uma blusa preta.

Não havia maquiagem que corrigisse as olheiras em meu rosto, nem as pálpebras inchadas. Resolvi, por bem, que não precisava. Elas eram autoexplicativas e ninguém as ligaria a JP.

Parei próxima a porta, meu olhar decaindo sobre um porta-retrato na estante da TV, o qual eu não vira antes. Pepê e Cela, ela vestida com o uniforme do Pedro II. Os dois sorriam, sem nenhuma preocupação para a lente da câmera. Eu tinha tirado aquela foto, no dia em que eles completaram três meses de namoro. Sempre foram um casal animado, contente, pra cima... Eles alegravam minha vida de uma forma surreal.

O sorriso de Pepê refletiu em minha mente, e eu acabei vendo montes deles, de momentos diferentes, sorrisos diferentes, tudo o que a gente passou junto, um com o outro e, depois, quando Cela foi agregada ao nosso pequeno bando. Eu o amava como parte de mim e ele tinha estado em cada momento feliz ou triste da minha vida, me mantendo de pé ou me aplaudindo.

Agora eu não o tinha mais.

Parecia um pesadelo e eu queria desesperadamente acordar.

Sequei as lágrimas e vi além. Tinha uma nota de cinquenta reais ali, embaixo da foto, e eu não sabia o porquê, mas serviria. Depois a devolveria a Cela quando pudesse. Com aquele dinheiro, consegui pegar um moto-táxi para o hospital, esperando que não houvessem muitas perguntas, apesas respostas.



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