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Mais homens saíram da outra kombi e dos carros que vinham atrás, fechando a rua principal da entrada da favela. Uma van descia a rampa e se deparou com aquela meia centena de homens armados e tentou dar marcha ré, sem conseguir.

O motorista foi lento demais e cinco homens conseguiram cercar a van; de longe, ainda de dentro do carro, consegui ouvir os gritos de pânico dos passageiros, enquanto eles jogavam algum líquido nas rodas do veículo.

Saí do carro, tropeçando nos cadarços do meu tênis. Alcancei a van em dez segundos, abrindo a porta dela sem que ninguém me questionasse, embora eu achasse que não era o que eles tinham em mente.

- Desce todo mundo - gritei. - Agora! Rápido!

Não foi preciso dizer duas vezes, a van estava lotada e tinha gente até em pé, saíram quase vinte cabeças de dentro dela e eu vi alguns perdidos, no meio da gente, sem saber o que fazer. Outros, subiam a rampa de entrada na favela, no meio dos homens armados e outros seguiram para a via principal, onde mais um grupo nosso se encontrava, esses desarmados, mas pude ver que também tinham garrafas de alcóol.

- Calma, poeta - eu não sabia quem era que me dizia aquelas palavras, eu estava vendo turvo e não conseguia assimilar tudo o que estava acontecendo.

Não sabia mais qual era o sentimento dominante em mim, a raiva estava ali, gritando por cima do pesar e querendo destruir tudo o que tocava, mas também tinha o medo, a confusão e a dor. Estava tudo fora de lugar e eu começava a sentir fisicamente os rastros da minha bagunça interior.

- Calma? - Perguntei, quase debochado, mostrando que a raiva ainda era quem mandava. - Achei que a gente só ia explodir a UPP e pronto. Que porra tá acontecendo?

A expressão de seu rosto era de extrema confusão e descredulidade, como se eu fosse o único ali, armado, que não soubesse exatamente o que estava acontecendo. Pelo seu olhar, eu tive certeza que eu era. Talvez tivesse sido claramente enganado ou os planos haviam mudado pela manhã, enquanto eu me escondia entre as árvores para chorar, eu não sabia.

Eu não sabia de mais nada. Nem de quem eu era.

- Ué, ninguém te falou? - Ele olhou para os lados, como se esperasse que alguém aparecesse para discutir com ele sobre me contar, afinal, eu não deveria saber daquilo por algum motivo. - A gente tá aproveitando o motivo pra tentar pegar o batan de volta, ué.

Certo. isso seria algo maior do que eu pensava. Eles estavam tentando fazer algo jamais feito, recuperar um território após a entrada das forças policiais. Aquela favela já tinha alguns anos de UPP e, embora a localização distante das outras unidades, devia ter sido tomada por conta da proximidade com a avenida Brasil e a quantidade de ônibus e pessoas que atravessavam seus limites todos os dias.

Era uma missão quase impossível, nunca tinha acontecido antes, e eles estavam aproveitando o momento para tomá-la de volta. Eu sabia que, para venda de drogas, era um ponto lucrativo, de fácil acesso, devia valer a pena.

Cocei a cabeça, um pouco perdido, vendo aquele plano perder totalmente o sentido pra mim. Estava ali pelo meu irmão, para vingar sua morte e poder descansar em paz. Olhei ao redor e encontrei as pessoas da van ainda perdidas por lugares próximos, ainda ao telefone. Nenhum bem faria suas vidas serem tiradas.

- Pra casa todo mundo - gritei para o motorista e os passageiros. - Pra casa, rápido.

Ninguém ponderou. Não sabia se era por estarem sacolejando uma caixinha de fósforos ou pelo fuzil em minha mão, todos saíram correndo.

- Sem matar civil nessa merda - eu gritei. - É pra pegar fardado, não gente! Entenderam?

Eu sabia que estava gritando para gente que estava muito acima de mim na cadeia alimentar da favela, mas, por algum motivo - seja pelo meu pai ou meu irmão ou pela sensatez das palavras ou por já me conhecerem por inteligente -, eles apenas concordaram com a cabeça, alguns gritando e levantando as armas ao alto. Era uma sensação esquisita, estar no meio de uma guerra por dois dias seguidos. E eu sentia um gosto estranho na boca ao me recordar o quanto havia perdido no primeiro dia.

Não deixaria que o segundo fosse igual. Hoje seria um dia de vitórias.

O fogo foi acesso e a van começou a queimar em minha frente, debaixo de gritos de comemoração a cada labareda comendo e retorcendo o metal. Vi o fogo lamber o veículo inteiro e, então, tomar a parte da frente.

Apertei o rosto em uma careta, percebendo o que não demoraria a acontecer.

- Essa porra vai explodir!

Eu recuei, mas todos os outros homens tomaram a dianteira da rampa. Estava tudo errado, se a polícia aparecesse ali, naquele momento, eles teriam uma vantagem absurda contra as nossas balas. Mesmo assim, contando com a sorte, eles subiram e eu decidi ir atrás, vendo alguns carros - os que ainda estavam dentro de carros como Barriga - se afastarem da van. Na via principal, dois outros ônibus queimavam e, enquanto eu os olhava, a van deu um estouro e queimou mais forte.

Olhei para cima a tempo de ver a primeira troca de tiros e o primeiro a cair no chão. O estouro da van, provavelmente, foi o que nos denunciou. Escondi-me atrás de um poste, já quase no topo da subida e arrisquei dar um tiro em direção aos fardados. Mirei com cuidado e, como estava mais afastado, ainda não tinham me notado. Meus companheiros já haviam quebrado o bloqueio policial e atiravam para todos os lados, deixando-os desnorteados.

Meu tiro voou certeiro no pescoço do policial. Arregalei os olhos, vendo-o cair e minhas mãos tremeram quando me dei conta do que eu tinha acabado de fazer.

Matei alguém.

Matei alguém.

Ele deveria ter uma família.

Alguém que o amava.

Um irmão que gostaria de vingança.

O ciclo nunca acabava?

Enquanto estava ali, parado, foi o medo e o horror que tomaram a frente da bagunça de sentimentos que me rodeava. Resolvi que não era aquilo que eu queria, não era a maneira mais certa de lidar com aquilo tudo.

Drica tinha razão.

Dei as costas e corri de volta à parte mais baixa. À distância, vi o carro de Barriga e a porta do passageiro ser aberta para me receber. Ouvi seu motor sendo ligado enquanto eu me aproximava.

Até que algo bateu contra mim, causando uma dor indescritível e eu caí no chão.

Nota: semana que vem não tem att. Sorry.
Estamos nos encaminhando para o final. Tô ansiosa mas também chateada hahahaha é mto ruim deixar as coisas irem :(
Comentem, sim? Tô sentindo falta de ter um montão de comentários hahahaha pf comentem nem que seja um "oi". Não vai matar vocês e faz diferença pra mim porque aí eu sei que vcs existem

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!