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A viagem para a unidade de polícia pacificadora mais próxima era curta o suficiente. Era a única, aliás, de toda a região. Nós não sabíamos se era sorte, competência do tráfico da região, que não permitia a entrada dos policiais ou se era descaso com a região mesmo. Eu acreditava na última opção.

Porém, para evitas as falácias de que era descaso com a região, existia aquela UPP. Aquela única unidade, abandonada, com dezenas de favelas ao redor sem a pacificação, em frente a uma das vias mais importantes da cidade. Era quase rir na cara do perigo.

- Tá calado, poeta - Barriga murmurou, enquanto dirigia.

Por algum motivo que eu não compreendia, barriga estava basicamente me adotando. Tinha andado atrás de mim desde que eu saíra do meu momento de choro entre as árvores, puxando conversa e tentando se manter simpático e agradável. Convidou-me para ir no carro dele, não que ele planejasse sair do carro e participar da empreitada, a cabeça dele valia demais, mas quis estar presente por algum motivo que eu não compreendia.

- Pensativo... - Resmunguei, de volta.

O incômodo do meu silêncio o impedia de continuar com todo o papo furado do dia, mas não significava que ele não pretendia continuar tentando de alguma forma.

Acho que, como todo mundo, estava tentando substituir a imagem de Pepê pela minha, sem muito sucesso. Eu não era tão bem humorado ou tão aberto como meu irmão, muito menos tão carinhoso, prestativo ou observador.

- Não entendo como caras inteligentes como você e seu irmão vêm parar com a gente - ele disse. - A maioria aqui não tem nem ensino fundamental.

- Não foi bem uma escolha minha.

- Nunca é, né? Só maluco escolhe entrar pro tráfico. A maioria só abraça a oportunidade.

- Foi mais ou menos isso o que eu fiz.

- Seu irmão não. Seu irmão viu a confusão que ficou na favela depois que o pai dele foi preso e pediu pra ajudar. Não queria ser bandido, o moleque. Só queria ajudar. Acabou sendo... Sempre querendo ajudar.

- Eu sei.

Eu sabia mais, sabia que tinha sido minha culpa. Estava distante, Pepê não tinha mais um modelo mais velho de homem e começou a se preocupar com a nossa mãe e no conforto que estava acostumada. Se estivéssemos juntos, talvez, não teria acabado assim. Talvez Pepê tivesse se esforçado mais nos estudos e estaria cursando a faculdade, no momento. Por três segundos, me apeguei àquela realidade alternativa, desejando-a com todas as forças.

- Você não vai ficar com a gente muito tempo, vai? - Barriga perguntou. - Seu irmão disse que era uma medida provisória pra pagar uma dívida sua?

Concordei com a cabeça, sentindo a garganta fechar. Eu não tinha mais para quem pagar a minha real dívida. Não... Não havia motivo algum para eu estar ali.

- Espero que não - arranhei as palavras e limpei a garganta em seguida.

Senti o olhar acusatório de Barriga ao fuzil no meio das minhas pernas, me dizendo claramente que não era bem isso que parecia.

Bom, o que parecia é que eu ia acabar com os desgraçados que mataram meu irmão. Depois disso, poderia largar o fuzil e as bocas e correr atrás de um emprego que me ajudasse a cuidar do meu sobrinho.

Iria pagar minha dívida com aquela empreitada, com aquele atentado. Iria deixar tudo em panos limpos e poderia enterrar Pepê com a certeza de que ele fora vingado, que sua morte, absurda em todos os termos, tinha retornado.

Houve mais um momento de silêncio completamente constrangedor enquanto nosso comboio passava despercebido no meio de tantos carros e ônibus que seguiam pala via, rumo ao trabalho. Barriga estava com as sobrancelhas franzidas e quase unidas, tentando entender porque diabos eu estava sendo tão incisivo; seus tópicos de conversa não estavam funcionando comigo porque ele escolhera os piores possíveis.

- E a sua novinha, hein? Bichinha arretada, ela. Gritou comigo pra proteger a Marcela - ele riu e olhei-o de rabo de olho, irritado. Mais um assunto sobre o qual eu não queria falar. Não só por trazer Drica a tona, mas também por um pouco irritado de ciúmes; Drica falara simpaticamente sobre ele no dia anterior e me deixara com a pulga atrás da orelha. - Inteligente, ela. Gosta de falar umas verdades na cara também.

- Sim, ela gosta - disse, irritado.

Não queria continuar no assunto e também não queria proferir as palavras que magoariam ainda mais o meu interior, que Drica e eu não estávamos mais juntos. Tinha escolhido estar ali a ficar com ela e ela, em seu egoísmo, não conseguiu entender. Como entenderia, aliás? Era filha única e não poderia compreender a relação de irmãos de forma alguma - e nem as coisas que nós éramos capazes de fazer por eles.

Drica gostava de falar verdades na cara, sim. Tinha feito, no dia anterior, com sua mãe e eu fora a vítima daquela manhã. Queria que ela compreendesse e me apoiasse, mas parecia impossível... A realidade de que eu não teria mais seus beijos ao final de um dia ruim, de que eu não teria mais uma noite tão maravilhosa quanto a noite anterior... Aquilo me sufocava.

O comboio parou na entrada da favela, sem explicação. Franzi a testa, confuso, conseguindo ver a placa que indicava o caminho para a UPP em um poste, alguns passos de onde estávamos parados.

- O que está acontecendo? - Perguntei a Barriga.

Ele soltou um suspiro cansado, encarando a primeira kombi, na ponta do comboio. Levantou os ombros, derrotado.

- Parece que é uma mudança de planos. - Disse.

A ideia era entrar na favela de carro, dar uns tiros contra a UPP, jogar uma granada e meter pé antes que desse merda pro nosso lado também, mas ficou óbvio que algo tinha saído do controle assim que o pessoal de uma das kombis desceu, armado até os dentes.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!