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JP

O clima agitado fez com que eu esquecesse do que acabara de acontecer. A movimentação era ferrenha no acampamento e ele estava lotado de rostos conhecidos e desconhecidos. Tinha duas kombis estacionadas na descida e eles estavam abastecendo com armamento pesado e haviam muitos carros e motos parados por ali também. Ia ser destruição total, pelo que via.

Fui cumprimentado por todos por quem passava enquanto estava na subida e, ao alcançar o acampamento, levei vários tapinhas nas costas e sorrisos simpáticos. Aparentemente, eles estavam substituindo a imagem de Pepê pela minha e eu tinha a impressão de que eu não era o bastante.

Havia uma roda tumultuada bem no meio do acampamento, onde estava a maior parte de rostos conhecidos, todos eles bradando xingamentos e reclamações sem sentido.

Drica e sua manipulação tinham quebrado meu coração em dois, provocando nosso término injustificado e só era mais uma coisa para eu me preocupar, mas ali, no esconderijo, onde os homens iam e vinham, armados e agitados, prestes a, ao que eles chamavam, começar a maior investida contra a polícia realizada em anos, tudo em nome do meu irmão.

Aproximei-me do grupo e fui recebido por Kléber, que empurrou um jornal em minhas mãos. Ao olhar a capa, congelei em horor, levantando o olhar para os homens, que aguardavam minha reação.

- Não nos calarão - eu gritei, ao me mostrarem o jornal da manhã, com a foto de Pepê estampada e uma manchete sensacionalista e mentirosa vindo a seguir. - Não vão nos calar!

Os gritos de incentivo eram entorpecedores e eu sentia a cólera me envolver. Eles bradaram e levantaram as armas ao alto. Um deles, sem se controlar, deu um tiro de pistola em direção ao céu, levando uma reprimenda logo a seguir.

- O poeta sabe o que fala! Vamos organizando, galera - Kléber gritou, me dando alguns momentos para digerir a manchete.

Eu tinha um apelido agora. Poeta era porque, de acordo com eles, eu falava engraçado. Falava diferente, com mais dicção, usando o máximo de regras corretas da língua portuguesa por causa da faculdade, usava palavras diferentes, expressões que eles não conheciam.

Na realidade, eles queriam me apelidar de Shakespeare, mas, em seu desconhecimento, tinham explicado que eu "parecia aquele poeta". Virei poeta, então.

Encarei a folha de jornal em minhas mãos, a foto do meu irmão de cara séria, retirada do seu documento de identidade; devia ser a única foto séria que ele tinha e era aquela que eles usavam, para parecer que ele era mau.

Não queria ter que ler as palavras escritas porque imaginava que não poderia ser boa coisa, mas acabei por me convencer de que era a melhor coisa a se fazer, já que eu precisava saber do que falavam dele para poder defendê-lo da melhor maneira possível.

Como era esperado, não havia nada de útil, nada de bom, nada além da comemoração a mais um bandido morto. A matéria dizia que ele havia sido morto em confronto, ao enfrentar os policiais, armado com um fuzil. Tentou fugir em uma moto e foi abatido enquanto corria feito um covarde.
Mentira! bradei mentalmente, cuspindo no chão.

Além de executarem um homem desarmado e rendido, ainda o pintavam como culpado e covarde. Não podia estar mais irado, nem mais enojado.

Foi a profissão que você escolheu. Disse, a mim mesmo. Podia ser você, escrevendo essa matéria sobre qualquer outra pessoa.

Amassei o papel e joguei longe. Caminhei entre as árvores, me distanciando dos companheiros para que eles não vissem meu nível de desespero ao passar os olhos por aquela matéria.

Tinha escolhido jornalista porque eu queria, um dia, voltar a minha favela e relatar um dia de invasão, mostrar a realidade e os lados, mostrar como realmente eram as coisas. Queria fazer cobertura de todas aquelas coisas arriscadas, guerras, confrontos, manifestações... Queria relatar a verdade nua e crua da realidade brasileira.

Mas tudo o que o jornalismo relatava, hoje, era puro lixo.

Encostei as costas em uma árvore e, pela primeira vez desde que vira meu irmão ser a assassinado a sangue frio na minha frente, me deixei chorar.

Homens também choram, João. Ouvi a voz de meu pai, em minha mente, lembrando-me de um diálogo que tivemos quando eu era muito, muito novo. Mulheres são fortes de maneiras diferentes de nós e choram com mais facilidade. Isso é bom, elas colocam para fora logo e nós seguramos porque achamos que é errado chorar. Não é. Você chora, filho, e vai doer. Vai doer, mas vai passar.

Não passa.

Com horror, encarei que a dor da perda do meu pai ainda estava ali, junto a todas as outras, mais recentes. Escorreguei para o chão, abandonando o fuzil do meu lado, e chorei como uma criancinha ralada; chorei pelo mentor da minha vida, que tanto me ensinara e tão sábio foi para me guiar para o que ele acreditava ser o melhor para mim, chorei pelo meu irmão, que iria se tornar tão ou mais sábio que meu pai em uma idade ainda inferior a dele e que estava sendo tão menosprezado e injustiçado, até mesmo em sua morte; chorei pela minha vida, infeliz, que tinha virado de ponta cabeça e me trazido de volta ao ponto de partida e o quão perdido eu estava; chorei pela minha mãe e a dor que estava sentindo na perda de um filho; chorei por Cela e a criança que ela carregava no ventre, que haviam perdido Pepê; chorei por Drica e eu e o nosso amor perdido pela sua falta de compreesão.

Precisava colocar isso para fora antes que subisse para começar a missão de destruição e vingança em nome do meu irmão.

Chorei mais um pouco ao lembrar que, no pequeno caminho de onde dormira com Drica até a subida para o esconderijo, vi um Saudades do Pepê pichado em uma parece, a forma com que o tráfico saudava seus homens mortos em combate.

Aos poucos, as lágrimas foram cessando, diminuindo, pausando. Foram encontrando a calmaria do meu coração quebrado e sem muita esperança de que a vida iria melhorar.

Os barulhos do acampamento me informavam que era hora de ir.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!