31.2 - VAZIA

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Porque eu olhei em seus olhos e o chamei para passar a noite comigo e não houve dúvidas ou resistência. No momento em que proferi as palavras, JP entrelaçou minha mão, balbuciou qualquer desculpa aos companheiros e puxou-me rampa abaixo e aos tropeços e desesperos como se cada segundo longe do outro fosse demais para aguentar, decidimos que a melhor opção era a casa onde Cela e eu nos escondêramos - o motivo foi a proximidade.

Cocei meus olhos e me espreguicei na cama, sentindo o braço pesado de JP envolvendo minha cintura, como se fosse me proteger de todo o mal. Virei-me de frente para ele, admirando seu corpo perfeito, que agora pertencia ao meu, coberto apenas um fino lençol na parte do quadril, escondendo sua virilidade adormecida. Senti minhas bochechas queimarem, lembrando das roupas que foram deixadas no caminho para o quarto e minha nudez exposta e admirada.

Com um suspiro, percebi que minha bexiga estava cheia e tentei me desvencilhar de JP sem acordá-lo, o que não foi uma tarefa difícil. Ele dormia pesadamente após conseguir relaxar ao meu lado, toda dor, pesar e cansaço estavam lhe custando algumas horas de sono de pedra e eu sorri ao vê-lo se afundar na cama e puxar o lençol para abraçar em meu lugar, quando me levantei. Achei que era um pouco mais gorda do que um lençol, mas lhe serviu no momento.

Caminhei até o banheiro, estranhando a rigidez das minhas pernas e a forma esquisita e levemente incômoda de andar; não era exatamente dor o que eu sentia, não tanto quanto a dor do hímen quando fora rompido, apesar de todo cuidado de JP, era uma queimação estranha, como se meu interior tivesse acostumado-se facilmente a ser preenchido e a falta de algo lhe fizesse reclamar.

Eu tinha dito que era estranho.

Quando sentei-me ao vaso e soltei a bexiga, quis morrer. Se eu achava que dor era perder a virgindade, dor, na verdade, era fazer xixi. A queimação foi quase insuportável, vi estrelas e quase gritei uns três palavrões em sequência, mas me contive, mordendo a mão, não querendo acordar JP com um susto. No desespero e ainda sentindo a queimação interna, corri para fora do banheiro e encontrei meu celular do lado de fora da porta do quarto, ainda no bolso da saia.

"É normal sentir dor pra fazer xixi depois de transar?"

Mandei pra Mila, me arrependendo logo a seguir. Assim que visse, iria ser uma chuva de perguntas e tinha acontecido tanta coisa naquela noite que eu não sabia nem por onde começar a lhe contar.

Abandonei o celular, não querendo lidar com a resposta no momento. Voltei para o banheiro e voltei a me sentar no vaso. Tinha me lavado anteriormente com o chuveirinho dali, limpando os vestígios de sangue com JP em minha cola, me vigiando como se eu fosse de cristal, mas resolvi me limpar novamente. A queimação continuava, mas menor contra a água gelada.

Suspirei.

JP era maravilhoso. A forma com que ele tinha beijado cada pedacinho de pele do meu corpo, adorado cada centímetro da minha intimidade com a língua, cada beijo apaixonado que me dera, cada suspiro adorado que trocáramos...

Ele perguntou umas três vezes se eu tinha certeza que queria. Esperou o momento certo, preparou meu corpo para recebê-lo com toda a calma e cuidado e aguardou pacientemente, apesar do suor desesperado que escorria de seu rosto, até que eu me acostumasse com a inevitável dor da primeira penetração. Pediu-me desculpas, beijando meus cabelos, ao meu grito, e foi se mexendo lentamente, perguntando se ainda doía até que meus gemidos de prazer começaram a ecoar pelo quarto.

Coloquei o chuveirinho de volta em seu lugar e escondi o rosto em minhas mãos, lembrando dos meus gemidos desesperados, envergonhada. Por vezes, pensei em parar de gemer, mas não consegui e me achei totalmente estúpida. JP gemia também, mas bem menos. Devia estar fazendo algo errado.

Ele não tinha feito nada errado, aliás. Apertei meus olhos, tentando conter o riso desajeitado da vergonha. Estava me sentindo boba estúpida e um pouco insensível por aquela sensação boa, nova e confusa estivesse tampando um pouco o sofrimento da perda do meu melhor amigo.

Porém, era inevitável. Era como se uma nuvem de algodão doce tampasse e, por aqueles momentos, permiti-me viver na fantasia a qual nós dois desenvolvêramos por aquelas horas, naquela casinha quase não utilizada.

Levantei e me encarei no espelho, percebendo minhas pálpebras inchadas pelo choro e pelas poucas horas de sono e meus lábios mais avermelhados que o normal pelos longos beijos, mas, fora isso, não parecia nada diferente. Todo mundo dizia que a mulher mudava quando iniciava a vida sexual, mas eu não via nada em mim. Afastei-me do espelho e encarei meu corpo nu, frustada. Nada de diferente. Tudo estava como sempre.

Bom, talvez demorasse um pouco mais, mesmo.

Pela janela do banheiro, vi o céu começar a clarear, informando que um novo dia ia começar. Talvez fosse hora de me mexer e me arrumar para tentar resolver as pendências da minha vida; visitar Cela no hospital, cuidar dela e da tia (nome) e ver com Barriga como andavam os preparativos do enterro de Pepê. Por esse motivo, passei os dedos pelos meus cachos, trecho por trecho, tentando desembaraçar todos os embaralhos que a cama, as mãos de JP e todo o vento do dia anterior haviam provocado, o que não foi uma tarefa fácil.

Escovei meus dentes passando a pasta em meus dedos. Sabia que não era a maneira mais correta de se fazer, mas eu não tinha opção melhor no momento.

Com um suspiro resignado, sai do banheiro com a mente na tarefa nada fácil de acordar JP. Não queria tirá-lo na calmaria em que ele se enfiara, mas pretendia convencê-lo a passar o dia comigo, indo visitar Cela no hospital e continuar mantendo-o longe de problemas.

Foi com choque e com pavor que encarei a cama vazia quando cheguei ao quarto.



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