31.1 - ESCOLHAS

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Drica

Euestava estranhando a cama e, por esse motivo, acordei diversas vezes durante anoite. E, toda vez que acordava, o mesmo sorriso estúpido me dominava a face,sentindo o braço de JP me envolvendo a cintura, apagado em seu sono pesado decansaço e pesar.

Era um pouco estranho me sentir daquela forma; tão completa e tão vazia. Sabiaque a escolha do momento não foi exatamente ideal, não comigo e JP aindaquebrados pela perda de Pepê, mas foi necessária. Encontramos apoio esustentação um no outro para ajudar as outras pessoas que estavam tambémsofrendo com a falta do meu melhor amigo.

E eu precisava manter JP longe daquilo de qualquer forma.

Não sou idiota, nem cega. Conhecia bem o valor que Pepê tinha para cada um doshomens do tráfico e até entendia que ele ainda não chegara ao topo pela faltade idade e por cargos já preenchidos. Sabia que assim que houvessem vagas, sejafosse por causa mortis ou por prisões, ele escalaria sem nenhuma dificuldade eocuparia espaços que já lhe pertenciam há muito tempo.

Era difícil engolir, tão novo e com tanta coisa para viver, um filho pracriar...

A facilidade de se desenvolver raiva e injustiça era muita. Barriga, com a minha insistência, contou-me o relato do testemunho de JP, apenas para me chocar e me fazer reduzir a lágrimas por longos vinte minutos, enquanto esperávamos por notícias de Cela e de tia Claúdia , que estavam para dentro da emergência.

Jurei que nunca permitiria que Cela soubesse daquela atrocidade, ao menos nãoenquanto estivesse grávida. Conversando com Barriga, entendi que ele lhe queriatambém o melhor possível e prometeu que espalharia por entre os envolvidos paraque lhe contassem algo diferente.

Porém, ambos sabíamos que seria difícil mantẽ-la longe da maldade das pessoassem coração e, infelizmente, haviam muitas no nosso pequeno pedaço de chão.Naquele momento de dor, muitas dessas pessoas adoravam cercar, como urubus sealimentando de um moribundo, para chutar e diminuir ainda mais a sua vítima.Sabia que Cela era muito adorada pelas ruelas da favela, mas também muitoinvejada por ser a garota que amarrara Pepê e também por sua beleza e humornaturais. Seria quase impossível mantê-la naquela redoma de vidro e eu teriaque estar ao seu lado vinte e quatro horas por dia.

Meus planos de mudança para outro estado teriam que ser alterados mais uma vez,mas estava planejando me mudar para a casa de Cela, ao menos pelas primeirassemanas, para cuidar dela da melhor maneira possível e mantê-la longe de todosos urubus.

Estava claro em cada canto da favela que o clima era de indignação. Ninguémprecisava morrer naquela noite, mas já que uma vida foi tirada sem motivo,outras também seriam.

Olho por olho, dente por dente.

Ao encontrar-me no covil deles, era mais que claro qual era o motivo de estaremagindo tão estranhamente e tão bem armados. Era uma represália que estava sendoorganizada e JP estava ali, como um cão de caça, protegendo a dignidaderetirada do próprio irmão.

Podia ler o sofrimento em letras garrafais em seu rosto e contive meu própriochoro e meu pedido de desculpas; foi por minha causa que Pepê ficou para trás,para garantir a minha segurança. Eles poderiam chegar no esconderijo em trẽssegundos se não fosse por mim, mas não. Ele desmontara da moto para que eupudesse ser colocada em segurança e, por conta daquilo, ficara no meio doconfronto, levando ao desfecho traumático que eu sabia que JP jamaisesqueceria.

Era uma dor absurda que me dominava o peito, mas eu sabia que ela poderia sermultiplicada de forma infinita se JP se juntasse àquela represália.

Era um pouco egoísta dizer que eu não aguentaria mais uma perda naquelemomento, mas eu dizia com propriedade que tia Claúdia também não conseguirialidar e pouco bem faria para Cela.
E apesar dos meus medos, agora irrelevantes, e do momento nem um pouco próprio,eu vi a necessidade e a abracei.

Quando me juntei a JP no covil dos bandidos, eu podia ver toda a dor estampadaem sua feição, embora tentasse esconder. Mas havia mais em seus olhos de melderretido, que sempre tentavam transparecer força e responsabilidade, emanavamos mesmos tons e sentimentos, só que de uma maneira mais agressiva.

Era como se ele tivesse vestido a blusa da dor e a transformara em gana etomara a responsabilidade para si; não a responsabilidade do bebê que Celacarregara, mas a de, não só vingar a morte do irmão, mas encabeçar seja lá amedida que fosse tomada.

Preferia não ter percebido o brilho quase assassino que seus olhos emanavam.Por minutos, deixei-me envolver em seus braços fortes, sem saber o que fazer,respirando fundo enquanto tentava desembaralhar meus pensamentos confusos portodas as coisas que aconteceram naquela noite.

Quando vi mais homens subindo e todo o armamento que eles carregavam para oesconderijo, eu sabia que não tinha muito mais tempo para arrastar JP para longedaquilo e protegê-lo de sua própria raiva e pesar. Depois que aqueles homenspartissem e lutassem sua vingança, ele se conformaria de não ter participado,mas sabia que se o deixasse ali, ele seria o primeiro.

Não podia deixar acontecer.

Não podia deixá-lo ir.

Não podia perdê-lo também.NO

Então eu soube exatamente o que fazer.

Voltei meus pesamentos para o início daquela noite, quando uma decisão foitomada pelos meus planos desperados por mudanças.

JP seria o meu primeiro homem e não haveria qualquer discussão sobre isso, nãoquando ele estava sendo tão maravilhoso por todo o verão, tão respeitador,carinhoso e paciente. Não quando ele entendia meus receios e medos e sempre meajudava com seus conselhos inteligentes de como lidar com qualquer tipo de situação.

Eu sabia que tipo de reação causava nele, também, embora isso me deixasse umpouco encabulada. Sabia que no momento em que eu lhe dissesse que queria, todoo seu mundo se viraria para mim e seria só eu.







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