30.2 - BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO

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Assim que minha mãe se foi, se foram também suas amigas, mais tranquilas e relaxadas que a notícia de um novo membro em nossa família tivesse devolvido o ar agitado que minha mãe sempre tivera. Com a casa vazia, eu pude me esgueirar para fora sem ser notado e pegar uma carona para o topo do morro.

Barriga estava distante e, como dizem, quando os gatos saem, os ratos fazem a festa. Estando ele ocupado com as notificações das famílias dos cinco mortos e, agora, com Cela passando mal, havia uma organização sendo feita.

Só um eco no quase acampamento, no meio da mata, no topo do morro.

Vingança.

Não por terem recusado a propina e invadido nosso território com a intenção de prender e matar.

Não por terem cancelado o baile do bairro, fazendo com que o lucro da semana caísse pela metade.

Não por terem assustado tantos moradores e ferido tantos outros, civis ou traficantes.

Não pelas duas mortes de civis, que nada tinham feito para levar bala, mas estavam sendo acusados de também fazerem parte do tráfico - afinal, tinham que justificar seu assassinato.

A vingança era pela matança sem motivo.

Matar um homem rendido e desarmado.

Alguém que preferia ser preso a perder a vida.

Um pai que nunca conheceria seu filho e nunca saberia da sua existência.

Um ser humano maravilhoso, que causava admiração em todos que o conheciam.

A vingança pelo assassinato desumano de Pepê.

Acho que a maioria estava ali só para causar destruição e desordem; ou pelo medo de que se rendessem e aquilo também acontecer com eles. Pelo que pude notar, era um caso que nunca havia acontecido, normalmente eles preferiam prender e mostrar para todo mundo o "bom" trabalho realizado, mas, por algum motivo, Pepê tinha sido cobaia em um experimento.

Bandido bom é bandido morto.

- A gente tem que atacar! - Cheguei na hora do incitamento. Era o Kléber, um dos amigos mais próximos de Pepê que estava tentando organizar a galera. Também era o provável substituto ao seu cargo. - Eles tiraram o Pepê da gente por motivo nenhum! Ele se entregou e, em troca, desfiguraram a cara dele.

Kléber viu que eu me aproximava e arregalou os olhos, engolindo as palavras seguintes, como se estivesse com medo de ferir meus sentimentos.

Não feriria. Ele fazia aquilo por amor ao meu irmão e eu sentia o mesmo comichão de ódio e revolta dentro de mim, gritando.

- Posso dar uma palavra? - Perguntei, me aproximando dele e do centro do círculo que se formava.

Era estranho estar ali no meio, no centro de uma centena de homens armados, atentos a minha voz. Tinha visto meu pai tomar aquele lugar várias vezes e, embora nunca fizera, sabia que tinha isso em mim. Sabia que estava ali em algum lugar. E quando Kléber concordou com a cabeça, eu sabia exatamente o que dizer para levá-los ao extremo ódio e causar o máximo de estrago possível aos desgraçados que mataram meu irmão.

- Acredito que todos aqui conheciam Pedro Paulo muito bem. Pepê, meu irmão mais novo, era uma das almas mais bondosas que eu já tive o prazer de conhecer e creio que vocês vão concordar com isso. Quantos aqui ele já ajudou, sem motivo?

A pergunta era retórica, mas não me surpreendi ao ouvir resposta. Meu irmão era muito amado.

- Ele ajudou minha irmã doente. Comprou os remédios que ela precisava.

- Deu uma cadeira de rodas pra minha mãe.

- Me ensinou a ler.

- Me ajudou a pegar umas minas.

- Deu dinheiro pra eu enterrar meu velho.

A lista era interminável, muito maior do que eu esperava e senti lágrimas formando-se em meus olhos ao ver que a bondade de Pepê ia além do que a gente podia ver.

- Marcela, minha cunhada, está grávida - minha voz estava embargada, mas saiu forte mesmo assim, causando expressões de choque e incredulidade em vários deles. - Meu irmão não chegou a saber. Uma de nossas últimas conversas foi sobre ela estar agindo esquisito com ele e ele não saber por qual motivo. Ela não teve a oportunidade de contar e meu irmão morreu sem saber que vai ser pai. E meu sobrinho vai crescer sem conhecer o homem maravilhoso que o pai dele era.

Conseguia sentir o ódio palpável naquela roda. Kléber, ao meu lado, me deu um tapinha leve no meu ombro, e eu não sabia se estava me congratulando ou me consolando.

- Esses homens tiraram ele da gente. E nós temos que fazer alguma coisa!

Os gritos de concordância foram mútuos e, ao perceber que eu não falaria mais nada, Kléber tomou a frente, explicitando os planos.

Não sei quanto tempo passamos ali, escondidos no morro, fazendo planos para vingar meu irmão, mas foram muitos. Aos poucos, com os detalhes acertados, o números de homens foi diminuindo, todos passando para me cumprimentar e deixar seus pêsames.

Nossos pêsames.

Todos nós perdemos Pepê e seu gênio incrível. Alguns ainda me contaram mais histórias do meu irmão dos anos que eu estivera ausente, coisas que talvez eu nunca saberia e que eles queriam que meu sobrinho viesse a saber; Pepê salvou a irmã de alguém de um relacionamento pedófilo e abusivo, ajudou a família de um rapaz que tava passando fome quando o pai foi preso, foi ambulância de muita gente - e antes de completar idade suficiente para dirigir.

Cada história contada, mais admiração eu tinha pelo meu irmão e mais meu ódio crescia por aqueles que tiraram-lhe a vida.

Mais algumas horas e eu teria minha vingança. O caos seria instaurado e eu estaria na dianteira, pelo meu irmão.

Sentei em uma pedra, na fim na subida que dava para o acampamento, de onde podia ver a rua. Não tinha nada para fazer em casa, então planejava ficar ali até que o dia raiasse. Era melhor que ficar em casa, sofrendo as lamúrias da perda do meu irmão.

Eu tinha um fuzil cruzado em meu peito, preparado para ser a primeira resistência, caso os fardados resolvessem voltar.

Vi quando o carro prata do Barriga estacionou na rua e surpreendi-me ao ver Drica descer dele, sacudindo deus cachos, enquanto seu olhar de águia focalizava em mim.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!