30.1 - CULPA

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OS MUROS DA FAVELA SENTEM SAUDADE

O portão se abriu e fechou em uma rapidez incrível e eu nem me movi - minha casa estava um entra e sai de gente. Era a explicitação do ditado, notícia ruim voava e toda a favela já sabia da morte de Pepê.

Meu irmão.

O horror de ver minha mãe chorando desesperada não se comparava ao horror de encarar a sua morte, que se passava em câmera lenta em minha mente; a rendição, o deboche, seu corpo caindo sem vida no chão, as risadas e comemorações dos policiais, congratulando o assassino e lhe dizendo que ele ganharia uma promoção.

Uma promoção. Era o custo da vida do meu irmão.

Apesar de ter relatado detalhes da melhor forma possível para os companheiros de Pepê, causando uma revolta sem limites, não fui capaz de olhar nos olhos da minha mãe e contar-lhes que eu fui a testemunha da morte do meu irmão. 

Pedi que não deixassem que ela visse o corpo.

Era uma coisa dura de se dizer, mas era necessária. Após os policiais se afastarem, contentes com a morte de Pepê e com a missão cumprida, a garota que me abrigara (da qual eu nem sabia o nome) não conseguiu me impedir de sair e olhar o corpo de meu irmão.

Irreconhecível. Queria não tê-lo visto, mas a imagem estava tatuada em minha retina.

Eles lhe atiraram no rosto, tirando qualquer vestígio de reconhecimento ou personalidade do meu irmão.

Era culpa minha.

Se eu tivesse encontrado-o mais cedo, ele estaria vivo e bem. Se não tivesse quebrado a ignição da moto ao parar, ele teria conseguido fugir. Se ele não tivesse que me buscar antes da merda estourar, se não voltássemos para buscar Drica porque eu falei (que estaria perfeitamente segura no mercadinho), ele teria vivido.

Mas não. 

Abandonei meu irmão no meio do tiroteio e não fui capaz de salvá-lo. Agora ele estava morto e a culpa era toda minha.

Minha culpa.

Nunca me recuperaria do grito que minha mãe dera ao descobrir a morte de Pepê. Logo, a casa estava cheia de amigas dela, a mãe de Drica inclusive foi quem lhe deu mais suporte. Minha mãe balbuciava agradecimentos sem sentido e não tirava os olhos de mim por um segundo, o que deixava minhas chances de me juntar ao grupo que planejava vingar a morte de Pepê em zero.

Marta lhe ofereceu um calmante ao que ela recusou veementemente. Agarrou minha mão e permaneceu ao meu lado sem dizer uma palavra.

O tempo voava e não diminuía a dor.

O portão abria e fechava. Pessoas iam e vinham. Pesares eram proferidos, abraços lacrimejantes eram dados... Eu já não me importava com nada. 

Nada fazia sentido. Nada mais importava. 

Havia um vazio em meu peito e a experiência me dizia que ele nunca seria preenchido de novo.

Estava encarando o nada, sentindo o aperto de minha mãe em minha mão quando um perfume conhecido encheu os pulmões.

Levantei o olhar para encontrar Drica vagando pela sala, o olhar perdido, procurando. Parou ao ver sua mãe, mas havia urgência em seu caminhar e ela correu, ajoelhando-se em minha frente.

Estava prestes a lhe pedir desculpas por não ter dado notícias quando suas mãos envolveram a mão livre da minha mãe e eu soube que ela não estava ali por minha causa.

- Tia. Tia, eu sei que tá doendo agora, mas eu preciso que a senhora me escute e seja forte. Preciso da sua ajuda - suas palavras saiam com uma dicção incrível para quem chorava tanto, demonstrando toda a força que eu já sabia que havia nela. Suas palavras doces e bem escolhidas chamaram a atenção da minha mãe e seus olhos sem vida focalizaram em Drica, fazendo-a suspirar aliviada. - Cela precisa de você, estamos com ela no carro... - a voz dela falhou miseravelmente enquanto claramente ponderava o que dizer. - Ela descobriu que está grávida hoje de manhã.

Arregalei os olhos para Drica que não tirava os olhos de minha mãe. Minha namorada sorriu, doce, e ao virar meu olhar para minha mãe, percebi o motivo, havia vida de volta aos olhos da mulher que me dera a luz e eu podia entender o porquê.

Pepê nos deixara um pedacinho dele para trás. Um pequeno alguém que seria amado e idolatrado de tal forma a diminuir a falta que o pai faria.

- Meu... Meu neto? - Minha mãe balbuciou. Não havia dúvida em sua voz, todos nós conhecedores do amor que meu irmão tinha pela namorada. Era apenas admiração pela boa noticia, vinda em uma hora inesperada. 

Drica concordou com a cabeça, o sorriso leve ainda estampado no rosto.

- Ela está no carro com o Barriga. Passou mal com a notícia. Desmaiou. Está acordada agora, estamos levando ela ao médico pra saber se tá tudo bem, mas ela não para de perguntar pela senhora.

Minha mãe estava de pé no segundo seguinte, sem nem pestanejar. Apesar da dor, havia um alívio sem fim explodindo em meu peito; estava com medo de minha mãe afundar - se em dor por estar passando por aquela situação pela segunda vez na vida, mas claramente havia encontrado um novo propósito. 

A própria ideia de ter um sobrinho me acalmava o peito r também me chocava porque ele cresceria sem o pai, mas, para minha mãe, era um novo motivo para permanecer de pé.

- Vamos - anunciou, decidida. A mão ainda estava presa à minha.

As duas me encaravam, esperando por mim e percebi que o vamos me incluía. 

- Eu vou... Eu vou ficar.

Não havia tempo para discutir e ela não o fez, apesar de me olhar de forma estranha. Balbuciou alguma coisa e correu para o quarto.

Drica levantou - se em minha frente e seus lábios encostaram - se nos meus de forma doce. Era o único segundo de atenção que ela podia me dar com Cela necessitada e minha mãe agitada, mas senti seu alívio em cada poro por eu ter cumprido minha promessa.

Afastou-se no momento em que minha mãe retornou em posse de sua bolsa, arriscou um olhar amedrontado para sua própria mãe e seguiu a minha rapidamente para fora.



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