29.3 - NÃO!

1.1K 127 18

   - Não!

Minha voz saiu mais autoritária, aguda e gritada do que eu planejava, fazendo meu coração acelerar, percebendo que estava faltando com respeito ao cara mais poderoso da favela, mas, no momento, não importava. Nada importava. Nada além de proteger Cela e meu afilhado de receberem aquela notícia de forma bruta e desrespeitosa a condição que estavam.

Barriga não sabia da gravidez, eu imaginava que era a primeira e a única a saber do resultado do teste e minha garganta fechou ao pensar que Pepê nunca saberia que seria pai. Senti mais lágrimas cairem desesperada de meus olhos e Barriga segurou meu pulso, da mão que lhe encostava no peito, impedindo-o de continuar, empurrando-o em uma delicadeza que eu não sabia que ele poderia ter. 

Talvez tivesse me abraçado se tivéssemos um pingo de intimidade. Talvez o fizesse com Cela. Talvez lhe contasse com mais sensibilidade do que havia feito comigo, porque ela importava. Eu era só uma ninguém, enquanto ela era uma esposa do tráfico.

Percebi, então, que o bebê lhe importaria de alguma forma.

- Preciso contar pra ela - ele sussurrou para mim, como se explicasse para uma criança mimada que ela deveria guardar o brinquedo. - Ela precisa saber.

Estava se desvencilhando de mim e caminhando para dentro da casa quando pulei novamente em sua frente, as lágrimas caindo sem controle, enquanto tentava controlar minha respiração suficiente para organizar palavras e proferi-las com o cuidado necessário.

- Cela... Cela, ela... - Ele parou ao ouvir minha urgência e encarou-me como se admirasse minha força e resistência de manter ele longe da minha amiga a qualquer custo. Lealdade, encontrei a palavra certa. Não havia outra coisa que traficantes admiravam mais que lealdade; gente que se jogaria na frente de uma bala para defender alguém ou uma causa e ele conseguia enxergar isso em mim, portanto me deu atenção. - Grávida. Ela tá grávida.

Consegui terminar a frase e vi seus olhos se arregalando, encarando a mim e a porta da casa, como se, naquele momento, não soubesse exatamente o que fazer. Eu entendia a necessidade de contar à Cela e logo, antes que o desconforto de ter todo mundo falando-lhe pelas costas a enlouquecesse, porém, não sabia como.

- Ele não sabia, sabia? - Perguntou-me. Neguei com a cabeça e ele deu um suspiro cansado, como se passasse por situações assim todos os dias. A ocasionalidade não lhe surpreendia mais. - Vamos cuidar dela e da criança. Não vai faltar nada pra eles, eu te garanto isso.

Concordei com a cabeça, satisfeita com sua postura, mas não tranquila. Alguém precisava dizer à Cela e eu não sabia como, ainda. As lágrimas não paravam de escorrer pelo meu rosto e eu me toquei: como ninguém precisara me contar, ela também não precisava. Uma olhada para mim e eu tinha certeza que saberia. Talvez fosse a melhor maneira. Chamaria ela para conversar e seria o suficiente.

- Eu conto - pedi, quando Barriga já fazia que iria me abandonar e adentrar na casa. Olhou-me, novamente, avaliando meu valor e respirei fundo. - Só preciso... De um momento.

Concordou com a cabeça e, de alguma forma, parecia me respeitar muito mais naquele momento do que quando lhe abri o portão.

- Vou esperar lá fora - anunciou. - Me avisa quando acabar, ainda quero falar com ela. Deixar ela calma... Quanto ao bebê.

Balancei a cabeça afirmativamente e ele se afastou, batendo o portão. No momento em que me vi sozinha, um soluço escapou pela minha boca em total desespero. Pepê. Pepê. O nome dele se repetia em minha mente e as palavras se acumulavam sem ordem. Eu nunca mais veria Pepê e o seu sorriso, nunca mais veria seu abraço, nunca mais ouviria suas piadas sem sentido e seus conselhos sempre tão bem articulados vindo de alguém que vivera um século na idade de dezoito.

Pepê nunca conheceria a pequena criaturinha que Cela carregava no ventre e piorava - não tinha certeza se eu voltaria a ver a alegria sublime e iluminada que Cela emanava porque eu sabia que boa parte dela vinha da felicidade amorosa que Pepê lhe proporcionava.

Lembrei de um conselho antigo, que veio a mim na época que minha prima perdera a mãe e viera nos visitar. Você tem que ser forte por ela, me disseram.

Decidi ser forte por Cela. Decidi que, se necessário, carregaria aquele fardo nas costas para que ela não precisasse.

Sequei minhas lágrimas, respirando fundo. Barriga não esperaria para sempre na impaciência de quem vivia por um fio. Logo, entraria pelo portão e era bom que meu momento já tivesse terminado.
Era agora ou nunca.

Entrei na casa e encontrei Cela sentada no sofá, encarando o nada. De alguma forma, entendi que ela só precisava da confirmação. Talvez tivesse escutado o meu grito, do lado de fora, ao ouvir a notícia.

Ela se levantou no instante que me viu e encarou meus olhos inchados e molhados e, então, balançou a cabeça negativamente. Podia ver todos os seus planos desmanchando em minha frente, o pavor que me acometera em escalas ainda maiores pela intensidade do amor que compartilhava com Pepê. Eles tinham uma história de amor linda que vencera preconceitos raciais e sociais e tinham lutado por tudo para ficarem juntos e agora lá estava ela, sozinha e grávida. A conclusão me fez correr para abraçá-la.

Foi no momento certo, pois quando meus braços lhe envolveram, seu peso cedeu em meu corpo e eu caí de joelhos no chão, sem conseguir sustentá-la. 

Desesperada, encontrei seus olhos fechados e bati em seu rosto.

- Cela - chamei, a voz falhando. - Cela? Pelo amor de Deus, Cela? Alguém ajuda aqui!

Três segundos depois, Barriga estava dentro da casa, ajudando-me a levantar minha melhor amiga.    



Desculpa essa nota ser rápida

Oops! This image does not follow our content guidelines. To continue publishing, please remove it or upload a different image.

Desculpa essa nota ser rápida. Eu tô um pouco muito enrolada aqui hahahahahaha

Nós vamos ter alguns capítulos sobre algumas fases do luto. Quando eu escrevi, eu não listei as fases e não segui uma ordem, mas pensando bem... Acho que estão todas aí.

Espero que "não encha o saco" mas temos que entender que era o irmão do JP e melhor amigo da Drica (irmão por consideração), então ambos vão sofrer bastante pelos próximos dias/capítulos, de formas diferentes.

E o negócio ainda fica um pouco mais feio daqui pra frente.

Não esqueçam de comentar e me dizer o que estão achando, ok?

E muito, muito obrigada pelos comentários da última atualização. Eu ainda estou tentando escolher o melhor, mas minha mãe adoeceu essa semana e eu to um pouco enrolada com as coisas do trabalho, portanto com pouco tempo <./3, mas aviso no grupo quando eu decidir, ok?

Beijos rosados :*

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!