29.2 - O CORVO

915 118 5

Coloquei a cabeça para fora do banheiro, curiosa. Cela estava deitada no chão do quarto e virou a cabeça para mim assim que ouviu a campainha tocar pela segunda vez. Podia sentir o alívio dominar todo o meu corpo, desejando e esperando que os meninos estivessem do lado de fora do portão com todas as minhas forças.

Um sorriso foi inevitável e ele estava espelhado na minha melhor amiga.

Eu sinceramente não conseguia entender porque Cela estava deitada no chão com os cabelos esparramados, mas quando ela apoiou os braços e tentou forçar para se levantar, vi um vislumbre da sua barriga discreta e quase inexistente e sorri mais ainda. Deveria ter mais meses do que estávamos pensando, se já era visível.

Ela se sentou no chão e me encarou, franzindo a testa pela minha expressão abobada.

- Você pode abrir pra mim? - Pediu. - Ainda não achei o livro.

Concordei com a cabeça, contente, e saí do banheiro. Senti todo o pavor e nervosismo abandonar meu corpo para deixar espaço para o alívio e a felicidade. Eles estavam bem, os dois. Iria abraçá-los em um segundo e com certeza iria chorar. Eu chorava de alívio também, as vezes mais do que de tristeza.

Atravessei a sala em passos largos e alcancei o quintal de terra com os pés descalços, sem nem perceber que não estivera calçada antes. As pedras disformes do terreno machucaram meu pé na minha urgência, mas eu não me importei.

Foi o medo que me fez parar.

Meus olhos nublaram por um segundo e eu vi um corvo fantasmagórico pousar em minha frente e depois desaparecer.

Meu coração disparou de pavor e eu encarei a terra vazia onde o corvo estivera, tentando me convencer que era coisa da minha cabeça, mas eu sabia que não era. Já acontecera antes.

Eu vira o mesmo corvo pousando na minha frente quanto voltava da escola, no dia em que minha tia, mãe de Mila, falecera em um acidente de carro.

Minha mãe tentou me acalmar de todas as formas depois daquilo, eu era só uma criança e tentou de tudo para me convencer de que eu imaginara aquilo e eu quase acreditei. Até que uma vizinha, ao ouvir da filha, minha colega de classe, o que acontecera, nos convidou a visitar o centro de umbanda que frequentava para que pudessem me ver e saber se podiam me ajudar de alguma forma.

Foi-se descoberto, então, que eu era filha de Ogum e que meu dom com a espiritualidade beirava a clarividência. Disseram pra minha mãe que eu deveria procurar alguma religião que me fizesse bem e cuidasse da minha espiritualidade aflorada, mas minha mãe não quis, então foi feito um trabalho para que aquilo não me atrapalhasse, embora eu ainda sentisse certas coisas hora ou outra, era difícil. Ano após ano, eu voltava ao centro e reforçava o pedido para que a espiritualidade não me atrapalhasse e eu já tinha um carinho tão grande pela umbanda que planejava encontrar algum centro onde pudesse me aprofundar naquela região assim que me mudasse para longe dos preconceitos da minha mãe.

Sabia que, se tivesse frequentando em um centro, o corvo não me assustaria tanto quanto assustou.

Sabia que, embora não duvidasse da mensagem que ele me trazia, eu estaria preparada para aceitar e abraçar o seu aviso.

Teria outra cabeça, outra consciência, algo que com certeza me prepararia para encontrar com ele outra vez.

Eu já tinha os lábios apertados em uma fina linha quando abri o portão e dei de cara com Carlos Macedo, vulgo Barriga, o líder da favela.

Nada precisava ser dito para que eu soubesse que alguém tinha morrido. Nada poderia me preparar, porém. Não estava pronta para perder nenhum dos dois e eu sabia que a probabilidade estava contra JP, que nunca passara por uma situação daquela.

Por que Pepê não estava ali para nos dar a notícia, ao invés?

As lágrimas já se acumulavam em baixo dos meus olhos e Barriga já exibia sua expressão de complacência. Ele parecia afetado, também, e era óbvio que a perda lhe afetara.

- JP...?

As palavras não se formaram na minha boca ou em minha mente, mas o seu nome e o tom de pergunta foram o suficiente para que Barriga franzisse a testa e balançasse a cabeça negativamente.

- Ele está com a mãe - garantiu-me.

Arregalei os olhos ao não obter a resposta que esperava e a bile me subiu à garganta enquanto eu juntava dois mais dois. O ar me faltou e as lágrimas começaram a se acumular em meus olhos.

Agora entendia porque os olhos de Barriga exibiam tanto sofrimento. Ele não conhecera JP o suficiente para sentir sua morte, e JP era tão abaixo na cadeia de sucessões que ele não o faria pessoalmente, essa seria a função de Pepê, a quem ele respondia diretamente. Também não contaria a Cela em seu esconderijo, a notificada seria a mãe dele.

Com quem JP estava.

Chorando a morte do único irmão.

- Não... - murmurei, compreendendo, finalmente.

As lágrimas caíram em cascatas e eu virei o rosto para que não o deixasse ver meu sofrimento. Ele, porém, o sentia também e me deu um tapinha de leve no ombro, complacente.

- Preciso falar com a Marcela.

Não esperou que eu lhe abrisse espaço para passar, empurrando-me levemente para que adentrasse no quintal. Não esperou que eu absorvesse a notícia e já ia bater o martelo na cabeça de Cela. Sabia que ele não o fazia por mal; talvez estivesse só tentando acabar com o próprio sofrimento, dando logo a notícia e saindo para longe dali, onde poderia chorar ou tentar esquecer a perda.

Eu ainda estava em choque com a notícia, mas estávamos falando de Cela, então, como uma leoa em defesa do seu filhote, eu pulei na frente do chefe da favela e o impedi de passar, como se o meu feito fosse impedir Cela de receber a notificação da morte do amor da sua vida.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!