29.1 - MEDO

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Tinha mais de meia hora que não ouvíamos o barulho da guerra na favela e isso nos fizera relaxar, embora eu não conseguisse muito, pensando em JP e Pepê no meio daquela confusão e esperando notícias de forma desesperada e urgente.

O tiroteio tinha durado mais que o normal; pelos meus cálculos, quase uma hora se passara desde que eu me encontrara a caminho do mercadinho até o momento em que ouvíramos a última rajada de tiros ecoar pelas ruas estreitas. Ali, naquela casinha que parecia bastante simples pelo lado de fora, mas emanava conforto e modernidade do lado de dentro, ficamos seguras, embora o confronto tivesse se aproximado daquela área da favela. Ouvíamos, muitas vezes, homens gritando e subindo por aquele caminho para a mata, alguns gritavam chamando os companheiros e outros gritavam de dor e pavor.

Tiros também foram ouvidos próximos dali, a maioria feita para cima. Não sabia se aquela medida era uma espécie de aviso para que os outros homens se dirigissem àquela area ou era apenas burrice mesmo, coisa que homens faziam por causa da adrenalina, para aparecer ou qualquer outro motivo babaca. Eu só sabia que, a cada tiro escutado, cada bomba que me fazia pular no sofá de couro vermelho onde estava sentada, cada grito de dor ou cada segundo que se passava, era menos uma chance de encontrar com meu namorado ou melhor amigo mais uma vez.

Estava tentando não chorar, não na frente de Cela, que estava tão fragilizada e nervosa ainda pela notícia da gravidez. Mas, enquanto eu fingia assistir um filme com ela na televisão e ecoava as leves gargalhadas por conta das trapalhadas da principal, eu sentia o pânico subir até a garganta, fechando-a pouco a pouco, prestes a derramar toda aquela tensão em formato de lágrimas.

Embora meus olhos se mantivessem presos na telinha e nas desventuras amorosas desimportantes de uma personagem qualquer, meus ouvidos estavam focados na rua e na movimentação de gente que ia e vinha, esperando ouvir o portão abrir e JP e Pepẽ entrarem juntos, conversando e rindo da aventura, como se fosse normal - tanto quanto era para Cela - aquele tipo de confronto acontecer; meus pensamentos estavam presos neles e em todas as possibilidades.

Talvez estivessem por aí, andando de moto e conferindo se estava todo mundo bem; era uma atitude comum do Pepê e ele era sempre o primeiro a reparar quando faltava alguém em algum lugar. Talvez estivessem conferindo se alguém havia sido preso e procurando medidas para encontrar a soltura. Talvez tivessem subido o morro sem ter tempo de nos avisar - eu não sabia como aquelas coisas funcionavam, mas vai que era necessária a realização de uma reunião para reorganizar todo o movimento depois de uma operação grande quanto aquela? Todas as opções e possibilidades estavam sendo contabilizadas pela minha mente insana em encontrar qualquer razão para que eles não entrassem em contato.

Tentei me espelhar na calma de Cela; se ela ainda não estranhara a falta dos dois, poderia ser mesmo normal a demora para sabermos notícias, mas minha ignorância não permitia meu coração parar de bater acelerado e eu disfarçava o suor excessivo de minhas mãos, secando-o em minha calça jeans.
Estava cada vez mais difícil fingir tranquilidade e que estava assistindo o filme, minhas risadas estavam com bastante delay. Cela, se estivesse em um bom momento, já teria reparado no meu comportamento esquisito, mas como sofria com seu próprio drama particular, estava procurando relaxamento se afundando na história do filme, conseguindo o sucesso. Porém, eu sabia, em algum momento teria uma propaganda e ela olharia para mim e reconheceria todo o meu pavor no meu sorriso nervoso.

Como o esperado, a propaganda veio e eu tremi ainda mais com a expectativa. Tentei me controlar, sem sucesso, e quando Cela virou-se para trás - havia escorregado para sentar-se no tapete, onde achava mais confortável, embora eu não conseguisse entender o porquê -, eu sabia que não haveria jeito para disfarçar.

- Eu vou no quarto pegar um livro que eu comprei pra te mostrar! - Anunciou.

Concordei com a cabeça, os olhos arregalados longe de disfarçar qualquer vestígio de nervosismo que havia em meu corpo, mas, por Deus, Cela não reparou em nada.

Agradeci muitíssimo por ela estar tão tranquila e pelo meu desajeito e falta de experiência com a situação não estivesse lhe influenciando o humor. Eu sabia que a gravidez era muito sensível nos primeiros meses e eu não queria que meu futuro afilhado passasse por nenhum perrengue antes mesmo de nascer. Também agradeci por Cela já estar acostumada com aquela situação ou o meu nervosismo seria o dela.

Aguardei o retorno de Cela enquanto tentava me aprumar, sabia que quando voltasse, ela me apresentaria um livro e eu teria que fingir interesse nele e na conversa, dando a atenção que minha melhor amiga merecia, porém ainda estava presa nos meus pensamentos nervosos de pesar. Resolvi, por bem, ir ao banheiro. Procurei pelo cômodo ainda não desbravado e encontrei-o no corredor que ligava a sala ao quarto, bem em frente à cozinha, no centro da casa. Entrei e me tranquei, soltando uma respiração de alívio que logo se transformou em uma sequência de falta de ar.

Entranhei meus dedos no cabelo, puxando-o para trás e encarei-me no espelho, vendo cada poro do meu corpo emanar desespero. Eu estava até um pouco pálida para o meu usual.

Acho que eram informações demais para um dia só. Talvez se eu listasse-os em ordem, conseguiria reagir melhor à situação.

Discuti com a minha mãe e basicamente fugi de casa, me demitindo do meu emprego. Não sabia se poderia voltar, embora a chave de casa estivesse nos meus bolsos. Talvez escondida para pegar alguma coisa. Tinha que falar com Cela ou JP se eu poderia ficar com eles uns dias, até entrar em contato com Mila e me mudar definitivamente para Goiás.

Isso significava, também, que meus dias com JP estavam contados e terminariam mais rápido que eu gostaria, junto com a vontade exorbitante que me exacerbara de entregar-me a ele naquele mesmo dia.

Minha melhor amiga estava grávida do meu melhor amigo e era uma notícia ótima, mas ainda precisava de um tempo para digerir.

Pepê e JP estavam desaparecidos desde a guerra na favela e nada de notícias.

Pulei de susto, ouvindo a campainha tocar, tirando-me de meus pensamentos embaralhados.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!