28.3 - PERDEU

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A pressa corroía minhas entranhas e os barulhos initerruptos de tiros estavam me apavorando de uma forma surreal há algum tempo, embora eu tentasse não transparecer para não passar aquilo para Drica. Agora, distante dela, eu me permitia tremer e virar meu rosto para cada canto, procurando desesperadamente por qualquer sinal do meu irmão.

Desci o morro com rapidez e congelei ao passar por um corpo de um rapaz que eu já encontrara algumas vezes. Com o coração apertado, lembrei-me de que ele não trabalhava com o tráfico, a avó recebera uma herança inesperada da irmã estava pagando uma faculdade para ele, eu o via chegar mais de meia noite em casa todos os dias. Deveria ter saído mais cedo naquele dia e teve a infelicidade de encontrar com a morte.

Em zigue-zague, fui guiando pelas ruas da favela, encontrando-a deserta, a não ser pelos corpos perdidos e famílias desesperadas. Uma mãe me parou para perguntar do filho dela, o qual eu não conhecia. Pela descrição, o moleque não devia ter mais de dez anos e estava aproveitando as férias para jogar bola na rua com os amigos. Apressando-a para voltar à minha busca e para tranquilizá-la, convenci de que ele deveria ter corrido para a casa de algum amigo e instrui-a a voltar para casa e ligar para os colegas na esperança de encontrar o filho protegido em alguma casa.

Voltei a ziguezaguear pelas ruas apertadas da favela e alcancei a rua do mercadinho. Entrei pela ruela e sai na rua principal para onde eu sabia que meu irmão havia ido, sem encontrar qualquer alma viva no local. Ouvia os tiros próximos e isso me gelava a alma - a ideia de já não poder fazer mais nada por Pepê estava me deixando completamente maluco. Atravessei mais um beco e continuei pilotando sem rumo.

Estava apavorado, já. Sem encontrar ninguém do tráfico a quem eu pudesse perguntar o que estava acontecendo e onde poderia encontrar meu irmão. A cada segundo, aumentava a velocidade da moto, até que encontrei uma rua mais movimentada que o normal. Desacelerei, reconhecendo um grupo de homens armados na rua, aos quais eu sabia que não eram policiais pela falta de farda - ou melhor, pela falta de vestimenta na parte superior do corpo. Acelerei, na pressa de alcançá-los, mas eles me alcançaram primeiro.

- O que você tá fazendo? - Um homem armado pulou da minha frente, sem camisa. Outros dois vieram atrás e eu freei, impedindo um acidente.

A rua até estava lotada em comparação ao resto da favela. Encarei ao redor e haviam várias mulheres preocupadas em seus portões - pelas suas expressões, todas mães, mulheres, filhas e irmãs de homens envolvidos naquele confronto.

- Desce - um deles mandou e eu o reconheci. Era o chefe direto de Pepê e se ele o conhecia bem, sabia que eu estava desobedecendo ordens.

- O que você acha que vai fazer desarmado, panaca? - Eu já desmontara da moto, um pouco perdido com a abordagem. 

- Ele pode entrar aqui - uma moça nova de pele escura e cabelos cheios e avermelhados ofereceu. 

Não esperaram nem que eu pensasse em cogitar a hipótese; queria dizer que gostaria de acompanhá-los morro abaixo e tentar descobrir onde diabos meu irmão havia se enfiado, mas eles me empurraram para dentro da casa sem nem pestanejar. 

O portão estava se fechando quando os tiros foram tão próximos que as paredes tremeram e eu achei ter visto Pepê correndo em direção a nós.

Tentei voltar a abrir o portão, mas a garota não permitiu. Puxou-me pelo quintal e me mostrou um pequeno buraco de bala no muro e nenhuma palavra precisou ser dita para que eu enfiasse a cara ali enquanto ela corria para dentro. Pelo buraco, senti meu corpo relaxar ao reconhecer Pepê quase em frente ao portão de onde eu estava. Todos os outros homens haviam desaparecido, mas a moto permanecia ali. Minha reação foi querer abrir o portão para colocá-lo para dentro, mas Pepê subiu na moto e eu soube que era mais seguro para nós três (Eu, ele e a garota) que ele apenas seguisse seu caminho.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!