28.1 - PILOTA

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JP

- A coisa tá feia, temos que sair daqui - Pepê me disse, levantando-se rapidamente.

Ouvimos mais um estourar de fogos e Pepê correu para fora da boca, sem me dar qualquer justificativa. Eu achava que estaríamos mais seguros ali, fechados em uma casa, sem estar na mira de tiro de ninguém, mas Pepê conhecia melhor as estatísticas e possibilidades, então não pensei duas vezes em segui-lo. Encontrei-o do lado de fora, ao lado de uma moto, com o fuzil em riste, pronto para atirar na primeira coisa viva que aparecesse.

Os barulhos da favela estavam alarmantes, jogando pavor e adrenalina para correrem mais intensamente pelas minhas veias, deixando-me mais ligado aos problemas e às soluções. Motos corriam, escandalosas, pela rua principal, em alta velocidade. Cada veículo causava um estremecimento em mim, cada um era um pulo diferente de susto - e a maioria dos que passavam pela rua em duas rodas estava armado até os dentes, me deixando saber que estavam todos preparados para ter aquele confronto antes mesmo que ele pensasse em acontecer. Soube, compreendendo, que Pepê me deixara no escuro de propósito, para me proteger talvez, e tirara Wes da boca para que ele não tivesse que passar por isso. Talvez a mãe do garoto nem estivesse passando mal e ele inventara aquilo para que ele se afastasse o máximo possível no menor espaço de tempo. Eu apostava naquilo, era a cara do meu irmão.

E, por algum motivo, ele preferiu que eu estivesse ao seu lado, talvez porque meu histórico familiar me colocasse como suspeito mesmo que eu não estivesse envolvido com o tráfico, então, se eu estivesse em casa e eles invadissem, me pegariam de qualquer maneira. Devia ser por isso que ele me mantivera ao seu lado, para me ensinar a fugir e me esconder quando aquele tipo de coisa acontecia.

Pepê cuidava de todo mundo e de todos com tanto zelo e carinho que eu me perguntava, na maior parte do tempo, como ele conseguia ser tão atencioso e detalhista.

- Anda logo, porra - reclamou. - Me dá sua arma e pilota aqui.

Encarei a moto como quem encara um monstro.

- Mas eu...

Tentei negar o pedido, mas Pepê estada irredutível, arrancou a arma de minhas mãos e apontou para o veículo com o cano dela.

- Anda logo!

A urgência estava dolorosamente intensa, então não questionei mais. Fazia algum tempo em que eu não andava de moto e por isso quis ponderar, mas imaginava que fazia ainda mais tempo que eu não pegava em uma arma, então era a melhor opção, realmente.

Eu só queria contestar de qualquer maneira.

Subi na moto e Pepê subiu atrás. Ele preparou as armas para que ficassem cada uma em um lado meu e eu soube que estávamos correndo risco; seguindo a lógica, os policiais entravam pela parte mais baixa da favela, o Asfalto - que era onde estávamos - para alcançar o Alto, pra onde iríamos e eles provavelmente sabiam que o esconderijo principal ficava na mata, no alto do morro. Estávamos seguindo o mesmo caminho que eles e perguntei-me se não era suicídio.

Tinha outra pessoa seguindo o mesmo caminho que eles.

- Drica - murmurei, ligando a moto.

O medo me envolveu por inteiro e eu estive suspenso em um mar de horror por alguns segundos, sequer notando que Pepê apertava os fuzis contra minhas costelas, cada um de um lado. Mais a frente na rua, pude ver um grupo de cinco caras armados correndo, procurando onde se esconder e três senhoras se esgueirando pelos muros, até que alguém abriu um portão e mandou-as entrar.

Encarei os cinco homens e eles tinha o olhar fixo em algum ponto que eu ainda não podia ver e eu soube que estávamos tão perto do confronto que podíamos levar uma bala - certeira ou perdida - a qualquer momento.

Porém, minhas preocupações ainda estavam presas em Drica e sua inocência e falta de experiência, confusa e perdida no meio daquela bagunça perigosa.

- O que tem ela? - Inquiriu, refletindo minha preocupação.

Certamente, eu não era o único que me preocupava com Drica a ponto de colocar ela em prioridade naquele momento e a certeza de que Pepê pensaria na melhor opção possível, liguei a moto e nos tirei da reta principal do confronto, ouvindo mais uma série de tiros, esses absurdamente próximos. Com o coração disparado, pensei comigo mesmo que talvez alguns daqueles cinco caras armados já não estivessem mais em vida.

- Não deu tempo pra ela chegar na sua casa ainda, eu acho - respondi, sentindo o gosto de bile na boca, provocado pelo medo. - Deve estar na rua, no meio dessa confusão.

Como se lessem meus pensamentos apavorados e conhecessem todos os meus medos, os primeiros tiros se fizeram ouvir naquele momento e minha mente vagou para a imagem apavorante de uma Drica sozinha e assustada no meio da troca de tiros entre bandidos e policiais, sem saber para onde correr; se corresse para os policiais, podia levar uma bala perdida, se corresse para os bandidos, certamente os policiais a executariam por acharem que ela estava ligada ao tráfico de alguma forma.

Torci o rosto para identificar que, por minha causa, ela poderia ser considerada ligada ao tráfico, além do pai, que fora envolvido, mas que pelo tempo em que conviveram poderiam descartar seu envolvimento. Eu, no tráfico, e ela sendo minha namorada, com certeza poderiam encontrar alguma coisa para incriminá-la - haviam tantos rapazes trabalhadores que eram incriminados apenas para cumprir metas de prisão dos policiais ao entrar em um morro... Era tão fácil! Dizer que a mochila estava cheia de drogas e implantar pacotes de qualquer tipo ali dentro e pronto. Lá estava um bandido.

Sacudi a cabeça, sentindo uma das armas fazer menos pressão contra minha costela e o braço de Pepê se esticar por cima do meu ombro, apontando para uma esquina logo a frente, uma rua asfaltada que eu sabia que subia o morro, embora não fosse meu caminho usual por ser levemente mais demorado - embora menos inclinado.

- Vai por aqui e sobe a rua toda - ele falou, me guiando. - Ela costuma fazer esse caminho.

Girei o guidão sem pensar duas vezes, quase subindo a calçada na minha ânsia de alcançar Drica o mais rápido possível.

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Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!