27.3 - TITIA

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Seguia, sem saber do que se tratava, mas reparando no que me preocupava: seu rosto estava inchado e avermelhado daquela forma que pessoas brancas ficavam após chorar muito. Queria entender, queria abraçá-la e dizer que tudo iria ficar bem sem nem saber do que se tratava, mas apenas a segui pela rua até onde a rua virava mata e as casas ficavam mais afastadas. Cela entrou em um casebre e me arrastou junto com ela.

Por dentro, não parecia ser tão pobre quanto por fora. Tinha um sofá de couro vermelho novo, as paredes estavam pintadas de uma espécie de coral desbotado e tinham aparelhos eletrônicos de última geração. Uma porta, do lado da estante da TV, me informava que a casa continuava.

Era um abrigo.

Um abrigo pequeno, mas totalmente confortável, pronto para qualquer adversidade. Deveria ter sido abastecido e limpado recentemente porque estava com cheiro de produto de limpeza e frutas.

Pepê pensava em tudo.

Cela se sentou no sofá e os dedos foram ao cabelo loiro, enfiando-se nas mechas de vários tons, enquanto ela respirava fundo. Tal como parecera forte pelos últimos trinta segundos, ela voltou a desabar, deixando lágrimas escorrerem pelos seus olhos castanhos, marcando sua pele manchada pelo vermelho. Sentei-me ao seu lado, preocupada com seu desespero. Cela jogou-se para cima de mim, colocando a cabeça em meu colo e eu comecei a passar os dedos pelo seu cabelo.

- O que aconteceu, Cela? - Perguntei.

Meu coração estava apertadinho de nervoso e, embora não achasse que fosse possível porque ela já estava chorando antes mesmo de começar a dar tiros, meus pensamentos se concentraram em Pepê, se estava tudo bem com ele. Sacudi a cabeça, levando meus cachos a caírem sobre meus ombros, lembrando-me de que eu encontrara com ele e ele parecera muito bem, até bem demais, contanto que estava com dois fuzis e parecia saber como manejar ambos ao mesmo tempo.

- Eu tô... - Ela tentou começar a falar, mas a voz se perdeu e as lágrimas caíram com ainda mais vontade. Sequei as que eu pude e aguardei. - Eu tô grávida - completou.

A surpresa foi inevitável. Não que eu não soubesse que poderia acontecer um dia, não que eu não esperasse que fosse acontecer um dia, mas achava que, na maior parte do tempo, esquecia que Cela escolhera um caminho diferente do meu; eu queria estudar, trabalhar e, um dia em um futuro distante, ter uma família. Cela, não. Cela escolhera Pepê acima de todas as coisas, não queria estudar apesar das insistências da família e até mesmo de Pepê que se oferecera para pagar uma para ela, ela queria ter uma casa arrumada e uma família, eram suas únicas pretensões. Mas acho que, como eu, ela não esperava que acontecesse tão cedo.

- Mas... Isso é bom, não é? - Arrisquei, sem saber como reagir.

Cela absorveu minhas palavras e parou de chorar, sentando-se e me olhando como se eu fosse um ET e ela não compreendesse de todo o que eu estava falando. Cerrou os olhos, analisando o que eu havia dito.

- Bom...? - Perguntou.

Não era deboche, como eu esperava - como eu teria dito se fosse o meu caso. Era pura dúvida de quem tinha se desesperado com a notícia e nem havia parado para analisar a situação. Provavelmente tinha feito algum teste só para "desencargo de consciência" e congelara no momento em que deu positivo.

- Sim, bom - concordei. - Você adora crianças. O Pepê também! Vocês estão morando juntos, se amam e na verdade não sei porque não se casaram ainda, sei lá.

- Pepê não quer assinar um documento que me ligue a ele - ela disse, sem pestanejar, me deixando saber que isso já fora amplamente discutido pelos dois. - Porque ele já é conhecido da polícia e se eles souberem que eu sou mulher dele, pode dar confusão pra mim também.

Concordei com a cabeça porque eu sabia que era uma decisão centrada e, apesar de não terem assinado nada, uma festa foi dada quando ela se mudou para a favela e aquilo foi o reconhecimento de Cela como companheira de Pepê por quem realmente importava. Ali dentro, ela tinha plenos poderes como esposa de um dos caras mais importantes da facção e teria seus direitos e poderes como tal.

- Mas... Um bebê é natural, não é? Você sempre quis, você vai ser uma mãe maravilhosa. E ele também. E eu vou ser titia! - Subitamente, estava animada e fiz Cela sorrir e secar as lágrimas.

Ela soltou um suspiro e se curvou, apoiando os braços nas coxas. Eu ouvia os tiros distantes e ao fundo, provocando temor e arrepios em todo o meu corpo, morrendo de medo por JP, mas Cela já parecia acostumada com a situação e pouco se alterava.

- Não sei como contar pra ele - ela murmurou e eu senti que estava prestes a voltar a chorar mais uma vez.

Abracei-a, sabendo que seu medo era bobo e era apenas porque aquele caminho era desconhecido e pouco trilhado. Passei minhas mãos pelos seus braços carinhosamente, tentando acalmá-la.

- Não seja boba, Marcela - retruquei. - Ele vai dar uma festa no instante que você contar pra ele - ela ponderou o que eu lhe dizia, parecendo aceitar que era uma alternativa mais provável do que o pânico e o medo lhe fizera pensar. - Vai explodir de felicidade. Conta de uma maneira bonitinha, a gente compra um sapatinho ou qualquer coisa assim e esconde em um lugar que ele vai achar. Vai ser engraçado.

Cela riu com a ideia e pareceu finalmente relaxar, passando os braços ao meu redor. Naquele instante, ouvimos uma rajada de tiros muito próxima e a voz da experiência fez com que nós duas escorregássemos do sofá para o chão, com o intuito de nos proteger.

 Naquele instante, ouvimos uma rajada de tiros muito próxima e a voz da experiência fez com que nós duas escorregássemos do sofá para o chão, com o intuito de nos proteger

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Olá, pessoal!!!! Queria aproveitar essa notinha pra fazer alguns pedidos e lembranças:

1 - Por favor, comentem </3 eu amo comentários, preciso deles pra viver!!!! Comentem com o que tão achando, se querem me matar ou qualquer coisa assim. POR FAVOR.

2 - A próxima atualização é dia 22/02, meu aniversário. MEU ANIVERSÁRIO. Sejam legais.

3 - Quem puder indicar Toque de Recolher pra amigas, espalhar a palavra, eu agradeceria muito <3

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Estamos na reta final e vocês ainda tão segurando o forninho muito bem <3 Mas vamos resistindo bravamente, viu?

Beijos e até dia 22 <3

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