27.2 - NA GARUPA DA MOTO

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Assim que virei a esquina do mercadinho, continuando meu caminho até a casa de Cela, ouvi três estampidos característicos que só quem já morou em favela sabe identificar com exatidão. A sequência de três tiros me fez arregalar os olhos e procurar um canto mais próximo dos muros das casas, ouvindo uma explosão e mais uma rajada de tiros logo a seguir. Eu não tinha opção, não me lembrava de conhecer ninguém que morasse naquela rua, levaria quase vinte minutos para chegar de volta no Asfalto e mais uns dez minutos para chegar até a casa de Cela.

Meu instinto de sobrevivência foi procurar algum lugar que eu pudesse entrar e na falta de estabelecimentos comerciais naquela reta, eu resolvi voltar pelo caminho para o mercadinho. As pessoas estavam andando na rua tranquilamente como se não estivesse acontecendo nada, mas meu coração acelerado de pânico não podia ignorar o risco que eu estava correndo, tão exposta daquela maneira.

Não queria nem pensar no risco que João e Pepê estavam correndo no mesmo momento.

Corri, sentindo o chocolate batendo contra as minhas costelas por conta do movimento e se quebrando. Ouvi mais tiros e fogos a seguir, tão próximos que eu tremi na base. O barulho de motos da favela era ensurdecedor, o que já era normal, mas a quantidade de rapazes armados que passavam sobre o veículo de duas rodas, fugindo ou indo para o confronto, aumentava a tensão em meu corpo.

Eu estava prestes a entrar no mercadinho quando uma daquelas motos cruzou meu caminho e parou à minha frente, fazendo com que eu caísse sentada no chão. Estava quase soltando um palavrão e xingando até a sétima encarnação quando vi de quem se tratava.

- O que você tá fazendo, garota? - Pepê desmontou da moto rapidamente. Ele tinha dois fuzis atravessados em seu braço e era a primeira vez que eu via armado daquela forma, o que me fez arregalar ainda mais os olhos, mas não havia tempo para processar. JP estava à frente da moto, pilotando, e me olhou preocupado enquanto Pepê me ajudava a me levantar. - No meio da rua, cê tá maluca?

- Tava indo ver a Cela - respondi, me defendendo. Eu não tinha culpa se aquela merda tinha estourado enquanto eu estava no meio do caminho, tinha? - Tava subindo a rua, voltei pra ficar no mercadinho.

Pepê riu e me deu uma olhada, orgulhoso. Passou os braços pela minha cintura e me abraçou sem motivo. Ri, apesar de tensa, dando tapinhas em suas costas até ele se afastar, tentando não ficar tensa ao sentir o metal frio das duas armas contra a pele descoberta pela minha blusa curta.

- Boa garota - disse, se afastando. - Sobe.

Encarei a moto, um pouco apavorada. Não gostava muito de motos e, se pudesse evitar, não andava nelas. Ali, por outro lado, não parecia que me havia qualquer outra opção.

- Sobe, Dri. Te levo lá - JP chamou-me.

Olhei de um para outro e encarei Pepê e suas armas, que desmontara para que eu fosse em seu lugar e ficasse protegida. JP pareceu entender a minha preocupação e desviou o olhar para o irmão também.

- E você? - Perguntei.

- Eu sei me virar - ele riu, virando-se pra JP. - Você arruma um buraco pra se enfiar ou então sobe o morro. Fala com a Cela que ela te leva num lugar. Não fica na minha casa porque pode dar merda pra cima de você. Tá entendendo?

JP concordou com a cabeça, mas não pareceu muito contente com as ordens - eu tinha quase certeza que ele ia voltar para buscar o irmão, não importava o que ele havia lhe dito.

- Ótimo. Agora vão.

E, com isso, Pepê correu, descendo a rua e se enfiando em um dos becos escondidos que interligavam as pequenas ruas da favela, não nos deixando discutir nada. Nervosa e, só naquele momento que eu percebera, tremendo, subi na moto, envolvendo a cintura de JP. Mais tiros ecoaram na favela e foram tão perto que eu quis chorar e me encolher em uma bolha.

- Vamos, vou colocar você em segurança - JP anunciou.

A moto voou com destreza e habilidade pelas ruas disformes da favela, informando-me que, apesar de nunca tê-lo visto guiar, ele tinha a experiência de uma vida e com certeza já rodara aquele fim de mundo em duas rodas. Estávamos indo rápido e eu comecei a ficar levemente tonta, mas o que realmente me apavorou foi subir a rua de Cela, quase uma rampa, o que me fez agarrar JP com ainda mais força, sentindo o riso.

Ele estacionou na frente do portão de Pepê e eu desci tão rápido quanto minhas pernas de gelatina poderiam me permitir. Encaramo-nos por um momento e, então, passei meus braços em seu pescoço e beijei-lhe a boca sem conseguir evitar.

Eu estava apavorada.

A ideia de perder JP me ocorreu algumas vezes desde que ele entrara para o tráfico, mas nunca naquela intensidade, nunca naquela situação. O beijo se encerrou com o barulho afastado de uma granada e senti seus dedos em minha bochecha, acariciando daquela forma doce que me entorpecia e enlouquecia.

- Toma cuidado - pedi.

JP abriu o maior dos sorrisos e me dedicou mais um de seus beijos doces, estalado em meus lábios, durando pouco demais para o meu gosto. O sorriso continuava lá quando ele se afastou, pronto para dar a partida na moto.

- Sempre - murmurou.

Afastei-me da veículo enquanto ele ligava-o. Vi quando ele girou a moto para a descida, por onde viéramos, confirmando minhas suspeitas, de que voltaria para buscar o irmão sem nem pestanejar. Fiquei admirando-o enquanto ele se afastava e virava na esquina, saindo do meu campo de visão e torci que tudo corresse bem, enquanto me voltava para o portão da casa e batia nele com força. Cela pouco demorou para abrir a porta, informando-me que estivera me esperando no quintal.

-Que bom que você chegou - ela me pegou pela mão, saiu pelo portão para a rua eme guiou para algumas casas acima.

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