27.1 - CORRENDO

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Drica

TOMANDO SUSTOS E CUIDADOS POR CONTA DO EXAGERO E FALTA DE NOÇÃO DAS PESSOAS

Minhas pernas estavam bambas.

Eu não queria admitir, mas parecia que eu estava caminhando sobre dois grandes potes de gelatina e, a cada passo, meu joelho falhava e eu soltava uma gargalhada estúpida. Várias pessoas me olharam esquisito, mas eu não estava me importando, na verdade. Só tinham duas coisas na minha cabeça no momento, apagando completamente o pavor da discussão que eu tivera com a minha mãe.

Sabe aquela sensação que te arrebate quando o episódio da novela ou série ou até mesmo um filme, que terá uma continuação, acaba? Naquela parte mais importante, que vai te deixar ansiosa até conseguir ver o que vai acontecer depois? Aquilo te prende, te sufoca e deixa seus pensamentos em redemoinhos de informação, enquanto você se esforça em imaginar o que te espera, sem conseguir chegar nem um pouco perto. Essa era onde se encontrava a primeira coisa que eu tinha em mente no momento: JP. Eu não sabia se pensava sobre o que acabara de acontecer ou no que eu aconteceria quando nos víssemos da próxima vez; tinha uma euforia boa gritando por todo o meu corpo, implorando para que eu voltasse naquele instante e implorasse por mais, que eu grudasse nele e não o deixasse fugir até que tivesse experimentado de tudo. E a graça era que eu estivera tão apavorada por experimentar de tudo antes... Mas, de alguma forma, a paciência exuberante de JP me deixava ter certeza que certas coisas só aconteceriam quando eu quisesse e agora eu tinha descoberto que queria... E queria logo. E queria muito. E queria agora. Isso me fazia rir como uma gralha e fazia minhas pernas fraquearem de nervosismo e ansiedade.

O que me impedia de voltar lá e arrastar JP para o quarto mais próximo era a segunda coisa.

Filmes de suspense e terror. As vezes, na maior parte delas, as cenas são ridículas e as sequências são sofríveis - você sabe que aquilo não é de verdade e não te assusta, na verdade, é capaz de até de você ficar prestando atenção nos defeitos: na cor do sangue que parecia rosa, na decaptação que não devia ser sido assim, nos tiros que nunca acertam nenhum dos principais. Você até poderia prestar atenção nessas coisas e se concentrar em qualquer fato que não fosse o pavor e a tensão que assola o seu corpo... Por que ficamos tão apavorados? A trilha sonora. Aquela coisa gritando em nossos ouvidos, apagando todo sinal de bom senso que poderíamos ter, tirando o foco e a noção... É ela que nos deixa apavorados. A primeira vez que ouvi alguém dizer isso, eu não acreditei, mas fui assistir um filme sem som e... Era verdade. Não senti um pingo de medo. Porém, na vida real, a gente não tinha como tirar o som das coisas, não tinha como evitar certas situações nublarem nossos pensamentos e nossas vontades e era isso de que se tratava a segunda coisa.

Cela e eu éramos irmãs de mães diferentes, não tinha outra explicação para o que nossa relação realmente era. Nós brigávamos, discutíamos, falávamos verdades uma na cara da outra sem se importar se aquilo iria magoar e nos deixar sem falar por semanas, porque a certeza de que nós voltaríamos a nos falar era clara. Como tão unha e carne quanto éramos, nós conhecíamos todos os nossos trejeitos: quando algo extremamente grave e ruim acontecia, eu me calava e me escondia, ao contrário do meu comportamento obsessivo quando eu não sabia o que fazer, mandando uma mensagem atrás da outra até conseguir uma resposta que acalmasse meu coração e minha cabeça. Já Cela era basicamente ao contrário, ela era paciente por opiniões e ouvia todas com calma, deixando que a outra pessoa analisasse tudo o que ela falara e lhe desse a melhor opção possível, mas quando algo grave acontecia... Ela perdia a cabeça, chorava e se desesperava e o número de mensagens deixadas por ela subia exponencialmente ao seu desespero.

Até o momento, eu estava contando cinquenta mensagens e quinze ligações não atendidas. Era o maior número que eu já tivera dela, maior até quando ela saiu da casa dos pais em meio a uma discussão para morar com Pepê.

Já tinha lhe respondido que estava a caminho, mas a caminhada até a casa dela era demorada e em subida, o que não era possível de se fazer na rapidez que eu queria e muito menos no estado em que minhas pernas se encontraram. Por esse motivo e pelo seu nível de desespero, resolvi parar em um mercadinho quase exatamente na metade do caminho, para comprar barras de chocolate, ao qual eu sabia que seriam extremamente necessárias, embora ainda não soubesse o porquê.

Eu tinha dez reais no bolso, o que me permitiu comprar duas barras de marca inferior. Parei na fila do caixa e retirei o celular do bolso, vendo a sequência de mensagens desesperadas em capslock que nada diziam, apenas demonstravam o desespero de Cela e refletiram em mim.

Tinha uma coisa engraçada com as relações com as pessoas que a gente amava. Eu era capaz de levar um tapa na cara e não mover um dedo para rebater, mas se visse Cela apanhar, eu chegaria com um cabo de vassoura e bateria tanto no agressor que ele com certeza ia acabar no CTI. Então, apesar de estar em minha própria bolha de problemas, sem saber se poderia voltar para a minha casa depois da resposta que eu dera para minha mãe, meu enfoque e desespero estavam concentrados em Cela e seu problema misterioso.

"Eu tô comprando chocolate pra gente. Calma. Chego em 5 min". Enviei a mensagem para ela, tentando fazer com que ela se acalmasse e me senti o pior dos seres humandos por mentir descaradamente para a minha melhor amiga. Eu nunca chegaria em cinco minutos, deveria faltar pelo menos quinze para que eu alcançasse sua rua.

Mas esperava que minhas palavras de consolo e minha breve chegada com doces a acalmasse.

Quando paguei os chocolates e sai do mercado com minha pequena sacolinha, meu celular voltou a vibrar incontrolavelmente no bolso e eu soube que não havia adiantado.



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