26.3 - FUZIL

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A primeira coisa que eu ouvi foram as gargalhadas dos rapazes em frente ao portão, voltando aos seus postos e encarando-me com um monte de dinheiro escapando pelos bolsos e a expressão de puro pânico estampada na face. Em seguida, Pepê entrou na boca, franzindo a testa e tentando entender o que diabos estava acontecendo. Ele olhou bem para minha cara e pouco demorou para ecoar junto dos outros dois rapazes.

- O que que houve, cara? - Perguntou, se aproximando.

Eu sentia meu coração batendo desesperado no peito e voltei a me sentar, tirando o dinheiro dos bolsos para voltar a colocar na caixa aonde ele pertencia. Respirei fundo e balancei a cabeça negativamente, rindo também, do meu próprio pânico injustificado.

- O Wes achou a rua estranha e aí eu estava tentando te ligar e como você não atendeu, a gente entrou em pânico - respondi, arrancando outra risada de Pepê.

- Não atendi porque eu tava chegando já - ele riu. - Mas a rua tá estranha mesmo.

Eu ia perguntar o motivo, mas Wesley chegou armado naquele momento, arrancando outra risada de Pepê, interrompendo o raciocínio. Rimos os três e Wesley finalmente relaxou, deixando as duas armas, a sua própria e a que pegara para mim, em um canto da parede.

- Vai pra casa, Wes - Pepê disse. - Seu irmão pediu ajuda porque sua mãe tá passando mal. Vai lá.

Não precisou ser dito duas vezes, Wes saiu em disparada pela rua atrás da mãe e eu só pude pensar em como ele não demonstrava todos os problemas que passava, sempre aparentando bom humor e tranquilidade.

Pepê sentou-se na cadeira ao meu lado, que pertencia a Wes e se esticou, relaxando. A qualquer pessoa, pareceria que ele estava tranquilo, mas eu conhecia meu irmão desde que ele nascera e sabia ler nas entrelinhas suas preocupações e receios.

- Sobre a rua, você dizia... - Tentei fazê-lo falar, imaginando que o problema girava em torno disso.

Ele suspirou.

- Cês fizeram bem de guardar as coisas - confirmou. - Os caras tentaram pagar a propina ontem, mas os polícia não apareceram e aí a gente não sabe o que tá pegando e a rua tá estranha por causa disso. Pessoal tá de tocaia, esperando dar merda. Sabe como é. Colocamos a favela inteira em Toque de Recolher, daqui a pouco tamo botando todo mundo pra casa.

Eu não sabia como era e isso me deixou desesperado. Olhei de soslaio para a arma na parede, agradecendo por saber como usá-la pelas aulas incansáveis que meu pai me dera na adolescência, embora nunca tivesse acertado nada vivo. Achava ser o suficiente para conseguir me esconder.

Meu corpo estava enrijecido pelo pânico e eu não queria transparecer; não quando acabara de virar chacota por conta disso.

- Não é só a favela que tá estranha hoje - Pepê murmurou. Tentei prestar atenção e encarei-o enquanto ele revirava os olhos. - Cela. Cela tá muito estranha. Tô com medo que a semana que ela passou na casa dos pais tenha mexido com a cabeça dela, sabe, tudo o que eu não posso dar pra ela e tudo mais.

Entortei o lábio, sabendo, então, que Drica tinha corrido realmente para responder a um chamado importante da amiga por algum motivo que eu não sabia qual era, mas tinha a ver com a estranheza que Pepê relatava, certamente. Ponderei se deveria contar para ele sobre as mensagens e decidi que era o correto a se fazer.

- Drica estava aqui agora há pouco - relatei. - Saiu correndo porque Cela estava ligando sem parar. Não sei o porquê - completei, assim que vi que ele iria perguntar. - Não sei o que houve, só que parecia muito urgente porque Drica ficou nervosa e foi embora.

Pepê suspirou e levou a mão a testa. Dei-lhe um tapinha nas costas, sem saber o que fazer para acalmar meu irmão. Entendia que ele e a namorada eram muito felizes, mas tinham problemas como qualquer outro casal e a sombra do maior problema que eles passaram em seu relacionamento, os pais da garota, continuava a assombrá-los. Conseguia entender o porquê, eu ficaria apavorado. A garota tinha abandonado tudo para viver ao lado dele e, talvez, com a lembrança do que tivera a fizesse questionar se tinha valido a pena.

Não que eu achasse que fosse o caso. Cela e ele pareciam completa e totalmente apaixonados.

- Não sei o que eu faço se ela voltar pra lá - ele murmurou, com a voz embargada. - Ela era muito infeliz com os pais e só de pensar em perder ela, eu...

Ele não terminou de falar porque não conseguiu. Queria saber como ajudá-lo, mas eu nunca fui muito de me apaixonar e a minha única comparação era Drica e o que a gente tinha... Achava injusto comparar com aqueles dois.

- Se ela era infeliz lá, por que você acha que ela vai voltar? - Perguntei.

Pepê piscou os olhos longamente e pareceu extremamente confuso com a minha pergunta, sem conseguir demonstrar que havia qualquer resposta a ela. Porque realmente não tinha resposta alguma no mundo.

- Eu não sei... Eu... - A insegurança estava falando mais alto e ele não conseguia sequer pensar direito.

Não havia motivo para que Cela quisesse voltar para a casa dos pais, ele mesmo dissera que ela era infeliz lá. Mas aqui, todo mundo via, ela era como um sol, emanando alegria para todo mundo em que ela pudesse envolver os braços. Estava sempre de bom humor, divertindo todo mundo com suas tiradas e sua espontaneidade ferrenha.

- Você acha que ela é infeliz aqui? Com você?

- Não, mas...

- Não acho que tenha mas - conclui. - Para de pensar um pouco e deixa ela conversar com você. Vai ver ela não te falou nada porque sabe que você tá com esse problema da propina. Né?

- É, pode ser. Tem razão.

No momento em que Pepê voltou a relaxar na cadeira e a pensar com seus botões nas minhas palavras de incentivo e conforto, a paz foi encerrada em cada canto daquele lugar com cinco pequenas explosões.

Os primeiros fogos que anunciavam a chegada da polícia na favela.

Em seguida, mais cinco estouros, informando que eles avançavam rapidamente.

Pepê e eu nos encaramos por um longo segundo reflexivo. O dinheiro das drogas voltou rapidamente para os meus bolsos, dessa vez, escondido totalmente. Pepê correu para as armas e pegou as duas. Relutante, ele me encarou por um momento, até que eu estendi o braço, informando que aceitava a responsabilidade.

E ofuzil voou no ar em direção a minha mão, que o aguardava.IQ

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