26.2 - PÂNICO

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Ainda estava ouvindo a infinita mensagem de opções da operadora do celular quando voltei ao lado levemente iluminado da casa, procurando meu lugar atrás da mesa com as drogas. Senti as olhadas curiosas dos meus comparsas, mas ninguém disse nada sobre porque dei a entender que eu demorara tanto por estar em uma ligação importante. Fui esperto.

- Tá lento hoje - Wesley disse, ao meu lado. Ele tinha quinze anos e, normalmente, garotos de sua idade ficavam com radinhos pela favela, avisando quando algo estranho acontecia, mas ele era responsável e esperto, então colocaram-no para dentro, escondido em uma das bocas, tentando protegê-lo de levar uma bala na cara por tempo o suficiente para lhes ser realmente útil. Wesley cuidava da boca quando eu ia para a outra unidade e apesar de ter uma mão levemente boba e escondesse alguma parte do dinheiro para si, comportamento ao qual eu não relatara para ninguém porque eu sabia que se o fizesse, ele levaria uma bela de uma surra, era um bom garoto e estava ali para dar o que comer para os seis irmãos e a mãe doente. Ele era o homem da família dele e tinha mais responsabilidades que muitos outros nossos. - Deve estar acontecendo algo esquisito. Você não acha que tem algo estranho hoje?

Eu não estava inserido naquele mundo por tempo o suficiente para notar quando algo estava normal ou esquisito, então me dignei a negar com a cabeça e franzir a testa para Wesley, que transformou sua expressão facial preocupada em uma careta.

- Por que você acha que está esquisito? - Perguntei.

Wesley voltou a encarar o portão, com os olhos cerrados como se analisasse a situação. Antes de me responder, levantou-se e andou até metade do terreno, observando a rua com cuidado. Sabia que ele estava colocando em prática os meses que passara observando cada centímetro daquelas ruas, percebendo cada alteração de humor daquele coração fervente que era a nossa favela. Voltou a sentar ao meu lado com um suspiro cansado, como se não estivesse contente do que ele admirara.

- É o movimento - apontou com o queixo para a entrada do portão, onde dava para ver a roupa e, realmente, pouquíssimas pessoas passavam de um lado para o outro. - Tá tudo muito quieto. Não costuma ser assim.

Ele tinha razão, então, pela preocupação. Respirei fundo pela falta de informação; Apesar da rede de comunicação da favela ser intensa e os rapazes lá de fora saberem de cada passo do que estava acontecendo, além de soltarem fogos quando vissem que a polícia se aproximava, eu sentia aquela tensão causada pela ignorância. Nem sempre sabíamos dos riscos que estávamos correndo e isso era até mesmo proposital. Não dava tempo para os covardes fugirem e abandonarem seus postos até que eles tivessem que lutar para salvar a própria vida, atrasando o caminho dos policiais para quem mais que estivesse atrás.

- Você acha melhor a gente fazer a contenção? - Perguntei.

Todas aquelas drogas em exibição e de fácil encontro seria um problema se fôssemos pegos. As armas estavam bem escondidas e só bastaria alguns segundos para obtê-las se fosse necessário, mas aquela demonstração toda, além do dinheiro, daria em cadeia mais rápido ainda.

Wesley ponderou a pergunta e ficou pensativo por alguns momentos. Eu tinha quase dez anos a mais que ele, tinha o ensino superior completo quando ele mal conseguira completar o fundamental, mas precisava colocar sua experiência de vida em jogo. Havia uma série de coisas que Wesley sabia melhor que eu e não me importava em pedir sua opinião, pelo contrário. Ele estava se tornando um ótimo amigo.

- Acho que pode ser uma boa ideia - respondeu, preocupado. Sabia, porém, que o medo falava mais alto naquele momento. Com as drogas e o dinheiro escondidos, tínhamos uma chance, mesmo pequena, de sair daquela sem sequelas. Com elas ali, nenhum policial pensaria duas vezes em nos meter bala, mesmo que estivéssemos desarmados. - Você podia tentar perguntar pro seu irmão.

A sugestão me fez ponderar e resolver que aquela era, realmente, a melhor coisa a se fazer. Sabia que a favela estava passando por um período tranquilo e eu achava que desde que viera de São Paulo que não acontecia nenhuma operação da polícia por ali, isso por conta das altas propinas que o pessoal do alto escalão estava pagando para que eles se mantivessem longes. Eu, dentro do movimento, nunca tinha passado por uma dificuldade e não sabia como reagir e quase me coloquei envergonhado por não pensar em entrar em contato com Pepê antes da sugestão de Wesley. Peguei o rádio que estava em uma caixa de papelão embaixo da mesa e tentei chamar meu irmão. Se tinha algo estranho acontecendo, Pepê deveria saber.

- Mano. Mano. Tá na escuta? - Tentei.

O rádio fez seu chiado característico e manteve-se em silêncio por alguns momentos, enquanto Wesley e eu nos encarávamos, sem saber o que pensar. Tinham dois rapazes na porta da boca que colocaram a cabeça para dentro do portão para saber o que se passava, curiosos. Podia ver, agora, porque tantos deles morriam: ao invés de se conter e fazer o que eles tinham que fazer, se enfiavam em buracos para saber o que estava acontecendo. Realmente, comportamento genial.

- Pepê - chamei outra vez. - Pepê, tá me ouvindo?

Silêncio. Estava começando a ficar nervoso e Wesley não esperou a resposta para começar a guardar as drogas. Foram todas para dentro de uma maleta rapidamente, enquanto eu via um farol iluminando a entrada da boca. Podia ser um comprador, mas o pânico instaurado nos fez andar mais rápido, tentando esconder tudo. A possibilidade que ecoava em nossas cabeças era que poderia ser um carro de polícia.

Os dois rapazes da entrada da boca desapareceram e meus olhos se arregalaram enquanto eu corria em esconder todo o dinheiro. Wesley levantou-se com a mala de drogas e foi para os fundos do terreno, jogá-lo pelo buraco que dava para a casa ao lado e eu fiquei parado, com um monte de dinheiro na mão, congelado de pavor.

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