25.2 - DEMISSÃO

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Tive que aprender a não reclamar.

Essa foi uma das coisas mais difíceis de todas. Ouvir as reclamações da minha mãe sobre meu comportamento ou sobre o meu futuro sem dar um pio. Mas tanto JP, quando Mila e Cela me deram o mesmíssimo conselho, então supus que era a coisa mais correta a se fazer. Ela começava a reclamar, eu fazia minhas coisas e me enfiava em algum lugar mental de segurança, evitando ouvir as palavras duras.

As vezes ela gritava, arrancava-me de meus pensamentos com suas hostilidades sem sentido e eu não podia evitar ouvir e me magoar.

Eu amava minha mãe e eu sabia que ela me amava, mas não conseguia entender o pavor que ela tinha do que eu queria para mim; não conseguia entender o porquê ela não poderia ficar contente por eu querer cursar uma faculdade boa e deixar aquela vida paupérrima de garçonete para tentar ser alguém melhor na vida. Tentar até mesmo melhorar a vida dela, por que não? Se eu me formasse e passasse em algum concurso público, com certeza tiraria minha mãe daquele lugar para que ela pudesse envelhecer sem tantos problemas ou dificuldades. Deixaria-a ter uma vida melhor, junto comigo.

Mas o medo dela era tão latente e tão horrendo que só permitia que ela se desesperasse e me atacasse de tantas formas possíveis, tentando me fazer desistir dos meus planos e sonhos para ter uma vida tão medíocre quanto a dela.

Ela tinha desistido da vida que levava para ir atrás do meu pai, em outra cidade. Tinha sido seu sonho, a escolha que ela fizera pra vida dela e não a havia tomado tão mais tarde que eu, por que eu não poderia realizar a minha?

Só esperava que ela reagisse diferente de sua própria mãe e me aceitasse.

Não era um desejo muito fácil de ser concretizado, eu tinha que confessar.

- Fica enfiada nesses sonhos de caraminholas e não consegue ver as coisas que tem que fazer nem se dançassem na sua frente, cantando Show das Poderosas - reclamou, assim que me ouviu descendo a escada para a cozinha.

Soltei um longo suspiro, tentando não me importar com o seu crescente descaso e desprezo.

- O que você precisa? - Perguntei, prestativa.

Não importava que eu estivesse acordando mais cedo e tentando fazer tudo que era da minha ossada antes que me pedisse, não importava que eu estivesse saindo mais tarde todos os dias da lanchonete, as vezes até mesmo depois dela, não importava que ficasse sozinha na lanchonete com uma frequência quase absurda para que ela se encontrasse com o namorado. Tudo sem reclamar. Nada importava. Já era noite e o bar já deveria estar aberto, mas ela dissera que eu lhe esperasse para que ela me ajudasse a levar as coisas até lá.

Ela sempre tinha uma crítica nova, um problema novo, algo para dizer ou para me cutucar, só porque estava irritada com meus planos de me mudar muito em breve.

Já não havia mais um "se", era um "quando". Mila só esperava minha confirmação de que queria mesmo ir para Jataí para comprar minha passagem, me deixando livre para pensar na opção das faculdades do Rio, também. E era pelo "quando" que deixava o desespero de minha mãe tão aflorado. Minha própria prima já tentara conversar com ela sobre e só levara alguns xingamentos na cara, como se Mila estivesse me ludibriando com o mundo a qual ela pertencia, eu não.

Eu me perguntava se ela não percebia o quão cega, preconceituosa e absurda estava soando. Ao invés de me ajudar na transição, apoiando-me, ela ficava ao redor, tentando me puxar para baixo, grudada no meu pé.

Encarei a cozinha com cuidado. A louça estava toda lavada, os salgados estavam no forno e eu já tinha feito a nova torta que iria para exibição e venda naquela noite. Tudo isso enquanto minha mãe passava toda a tarde no cabeleireiro, se arrumando para mais um final de semana de encontros com o namorado. Tudo parecia em seu lugar, não consegui visualizar o motivo pelo qual ela estava me chamando e reclamando da minha imprestabilidade.

- Estava pensando se você não poderia me emprestar um pouco daquele seu dinheiro - pediu. Congelei no último degrau da escada, sem conseguir acreditar no que estava ouvindo. - Carlos e eu pretendemos fazer uma viagem na próxima semana e um pouco dele seria útil.

Ela estava me pedindo dinheiro emprestado pela quinta vez naquele mês, por motivos mais variados. Por conta de suas tentativas constantes, eu tinha guardado todo o meu último salário no cofre e não tinha dinheiro nem para comprar uma bala - JP, Pepê e Cela estavam me ajudando quando eu precisava comprar qualquer coisa, desde ingresso para festas à passagens de ônibus, cientes do problema que minha mãe estava sendo. Eu só tinha a agradecer pelos amigos e namorado maravilhosos que estavam em minha vida.

Os motivos do empréstimo eram os mais variados, começaram com compra de estoque para loja, viraram obras em casa e acabaram se tornando pedidos fúteis como dinheiro para comprar roupas e, agora, viagens.

Sabia qual era a intenção dela: gastar todas as minhas economias quando eu lhe emprestasse e nunca me devolver, impedindo o meu plano de me mudar por estar sem o dinheiro. E não estava nem se importando que eu a culpasse por isso, depois.

- Já disse que o Pepê que tem a chave do meu cofre - respondi, sem me mover.

Ela avançou em minha direção, com os olhos em brasa, como se estivesse dominada por alguma força maligna a qual eu não conseguia entender. Olhou-me de cima a baixo, me julgando e fazendo com que eu me sentisse muito menor do que eu era, mesmo estando bem maior que ela, devido ao tamanho do degrau.

- E você nunca pega essa tal de chave. Acha que eu não sei o que você está fazendo? Deixando a gente passar necessidade enquanto você está juntando esse dinheiro pra largar todas as suas responsabilidades e fugir pra qualquer outro lugar? - Perguntou, a raiva fazendo gotas de cuspe caírem em minha face. - Sabe o que eu vou fazer com você? Vou diminuir seu salário. Você não precisa desse dinheiro todo, já que guarda tudo que recebe.

Diminuir meu salário enquanto eu trabalhava igual uma condenada e ela saía com o namorado?

Fechei os olhos, tentando conter a fúria dentro de mim e tentando repetir todos os conselhos que meus amigos me deram, sem conseguir. Quando vi, as palavras já estavam saindo sem controle, em uma enxurrada de informações contidas em silêncio por todas aquelas semanas, ouvindo tudo calada.

- Diminuir meu salário quando eu tenho trabalhado mais que você esse mês? Quando eu tenho feito tudo pra você e pra essa merda de bar enquanto você fica por aí, andando para cima e para baixo com esse Carlos, pagando tudo pra ele porque ele não tem um centavo furado. Tá sustentando homem agora, mãe? Mas não pode dar dinheiro pra sua filha, que tá tentando economizar tudo pra não ter a mesma vida de merda que você - eu gritei a última parte, deixando lágrimas de raiva e mágoa escorrerem pelos meus olhos enquanto os seus se arregalavam pela minha fúria. - E sabe o que mais? Que se exploda essa merda de bar. Que se exploda o seu dinheiro! Não trabalho mais pra você. Eu me demito.

Antes que ela pudesse virar a mão na minha cara, o que eu sabia que era uma possibilidade real, escorreguei pelos espaços vazios da cozinha e corri para fora de casa o mais rápido que pude, sem saber quando teria coragem de retornar.

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