25.1 - PLANOS

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Drica

O SHOW DAS PODEROSAS LOUCAS QUE DESCEM E REBOLAM

Os dias se passaram rapidamente após a rotina acertada. Minha vida estava presa no mesmo redemoinho de sempre, com a distração gostosa que JP era, sempre me salvando nos momentos mais irritadiços e complicados do meu relacionamento com a minha mãe.

João estava indo bem, apesar dos pesares. Meu medo principal era que ele caísse em depressão por conta dos desvios que os planos dele tiveram que tomar. A vida no tráfico não era fácil, eu sabia de conhecimento pelas olheiras que acompanhei Pepê ter através dos anos; além do pavor de quando a polícia entrava na favela, ainda haviam disputas internas e guerras entre facções que tiravam o sono de qualquer um. Percebi que JP estava acompanhando tudo de longe, destacado de seus companheiros, como se não fizesse parte. Apesar de cuidar de duas das bocas do Asfalto como se fosse um dos cabeças da favela, ele permanecia imaculado de qualquer problema que pudesse haver e até mesmo não utilizava armas.

Sabia que era difícil para ele e eu via o desespero e a dor em seus olhos, toda vez que eu tirava um tempinho para abandonar a lanchonete e me esgueirar pelo beco onde eu o vira fumar maconha até uma das bocas que ele controlava. JP não gostava muito que eu fosse vê-lo ali, mas nunca reclamara em voz alta, achava eu que era porque era mais fácil estar ali a noite toda quando ele se lembrava que eu estava tão perto. Mas, apesar dos pesares, ele não se deixou levar. Dizia-me que continuava tentando arrumar um trabalho digno e que tinha esperanças de sair dali até o meado do ano.

Não sabia se dizia essas coisas para se enganar ou enganar a mim.

Fevereiro se foi, levando o tempo mais seco junto com ele e março se iniciou com suas chuvas mais constantes e o calor quase insuportável que nos acometia. No meu calendário, eu marcava os dias que faltavam para junho chegar e, com ele, a inscrição para o segundo semestre das faculdades pelo ENEM. Havia um calendário em minha cabeceira e todo dia, antes de dormir, eu riscava mais uma data. Menos um dia de sofrimento. Estava quase lá.

Na manhã seguinte, encarava os dias que faltavam, indecisa entre a alegria de faltar menos do que faltava ou a tristeza de deixar JP para trás quando aqueles dias acabarem. Comecei a avaliar se haveria possibilidade de cursar alguma faculdade no Rio mesmo, ou até em Niterói, próximo o suficiente.

Minha mãe decidiu isso por mim.

Todo dia era um sofrimento diferente. Quando viu meu desânimo e nenhuma movimentação de mudanças, não perguntou sobre nada, mas seu humor pareceu melhorar em quinhentos por cento; não queria achar que era sobre o meu fracasso e preferi acreditar que tudo tinha a ver com o seu novo namorado. Aconteceu que eu só estava metade certa, ela estava realmente namorando e fez questão de me apresentar o homem no começo de março, em um jantar estúpido. Só me deu tempo de perceber que o cara era um babaca completo antes de ser colocada para lavar a louça enquanto ela sumia com ele para seu quarto. Contorci-me de raiva, abandonando a tarefa por fazer, antes que pudesse ouvir qualquer barulho desagradável, e saí pela rua atrás de JP e um abraço apertado.

Não. Minha mãe estava tranquila porque eu não havia conseguido uma vaga no vestibular. Quando esteve, finalmente, em meu quarto para pegar algo que havia me emprestado, bateu o olho no meu calendário e soube automaticamente que eu ainda não tinha desistido. Não precisou perguntar, nada precisou ser dito. Ela só começou a fazer da minha vida um eterno inferno.

- Dá pra parar de sonhar com essa merda de faculdade e vir trabalhar como uma pessoa de verdade? - Ela gritou do andar inferior, fazendo-me acordar dos meus pensamentos.

Encarei o calendário com paixão, vendo março se encerrar. Mais três meses e tudo estaria mudado. Faltava pouco, eu conseguiria. O meu dinheiro estava todo guardado em um cofre com cadeado desde que ela tentara pegar uma quantia para comprar mantimentos para a lanchonete. A chave ficava com Pepê, só para garantir a segurança. Eu colocava o dinheiro por um pequeno buraco no superior e aí não tinha mais jeito, não tinha como pegar de volta e ela também não conseguia.

Não sabia quanto havia lá, mas depois da visita de Mila e Talles e todo o dinheiro que eles me pagaram por guiá-los por ali e por aqui, além de mais da metade do meu salário de todos os meses por mais de um ano, sabia que podia estar chegando ao quinto dígito. Não era muito, não para alguém que queria morar sozinha por seis anos, mas era meu. Era o dinheiro que seguraria os meus sonhos e as dificuldades até que eu pudesse me instalar e encontrar algo para me arrumar mais grana.

Daria certo. Repeti meu mantra. Daria certo e faltava pouco.

Mas o mantra não estava funcionando mais muito bem, não no meio do caos que minha mãe estava fazendo para me manter presa naquele fim de mundo, não quando meu coração ficava tão pequeno por ter que deixar JP para trás, enquanto ele estava envolvido com o tráfico e as drogas; embora ele continuasse insistindo que não fumara mais maconha e mesmo tendo me explicado que maconha não era tão perigosa quanto minha mente achava que deveria ser, eu continuava preocupada. Diziam que era um pulo da maconha para drogas mais pesadas e ele tinha acesso fácil a todas elas.

E eu iria embora, deixando-o quebrado e sem nenhuma perspectiva.

Encarei meu cofre, desejando que ele tivesse dinheiro o suficiente para que eu pudesse arrastá-lo comigo, mas sabia que não seria possível e que ele dificilmente aceitaria a proposta. Então, fechando os olhos ao ouvir mais um grito de minha mãe no andar anterior, tentei acalmar meus pensamentos desesperados e me levantei da cama, finalmente descendo as escadas para encarar a realidade dolorosa a qual eu ainda estava presa.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!