›» Capítulo 2 «‹

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Chegar em casa depois de um dia cheio deveria ser igual a palavra "paz", mas isso não cabe muito bem no meu opulento vocabulário. É certo dizer que o meu pai fica o dia inteiro no hospital resolvendo assuntos particulares, enquanto a minha mãe... Bem, minha mãe fica em casa gritando e resolvendo o que eu deveria ou não fazer, ou ela sai para fazer compras com as amigas. Esse é o meu momento preferido do dia, quando a casa fica em absoluto silêncio e eu consigo colocar as minhas ideias em ordem. Assim, prosseguindo, eu pego uma caneta e um papel e tento escrever uma música. Na maioria das vezes eu acabo enchendo a lixeira com tanto lixo, mas é como se faltasse um ponto de partida, uma linha de inspiração para que tudo viesse à tona. E eu fico perdido a respeito disso, pois não sei onde achar o sentido que vivo procurando. Pode ser que ele apareça amanhã ou daqui a 5 anos; pode ser também que ele já tenha aparecido, mas eu não notei.

Quando entro dentro de casa, vejo que realmente nada mudou. Estava torcendo para que caísse uma magia aqui hoje e que tudo fosse normal, mas ver minha mãe sentada no grande sofá me fez perceber que isso está longe de acontecer. Ela tem o telefone na mão, com certeza marcando algo para fazer. Eu só fecho a porta, mal digo um oi e subo para o meu quarto, ignorando qualquer coisa que ela fez ou deixou de fazer. A melhor sensação do dia foi quando eu deitei na cama e pensei em quando todo o pesadelo irá acabar. Nunca.

— Filho, você passou e nem sequer deu um beijo em mim — minha mãe diz abrindo a porta do meu quarto. Ela vem em minha direção e senta ao meu lado. — Como foi hoje lá? Imagino que o de sempre, né?

— Sim, tudo igual. Sem nada demais — digo não prolongando o assunto. Talvez assim ela saía

— Credo, Ben, é seu último ano! Fique animado com isso. Foi o melhor ano meu e do seu pai, e não esqueça da formatura. Quero ver você como rei.

De novo essa história. É muita merda para meu ouvido escutar. Sinceramente, é a minha menor preocupação do momento, mas ela insiste. A real é que minha mãe acha que entende de tudo, quando na verdade não contribui em nada. Só fala, fala e fala, mas é como se não tivesse dito nada. Minhas opiniões não são as mesmas que as dela.

— E a Bailey, como ela está? Sempre adorei aquela garota. Ela é tão linda, tão educada.

— Ela está bem — digo seco. Muito educada, um amorzinho! Um poço de gentileza e abnegação, é até incrível. Não sei como aquela garota consegue ser assim. Pode ser que ela tenha um outro eu escondido, igual eu tinha, e que é oprimido devido seus pais. É, pode ser, mas é só uma possibilidade.

— Hum. Você está estranho. Deveria estar com seus amigos zoando os alunos novos — ela diz com uma risada estridente e logo em seguida sai do meu quarto. Minha vontade é de simplesmente gritar e dizer que não sou como ela ou como o meu pai, mas me seguro.

Minha mãe é uma mulher bonita. Ela ainda mantém uma aparência de mulher nova, e suas rugas são quase imperceptíveis. Seu cabelo negro realça bem a sua pele branca, e seus olhos azuis dão inveja a qualquer um. Infelizmente eu não tive essa sorte, já que nasci com os olhos pretos do meu pai. Além disso, também herdei o seu cabelo loiro. Genética é uma coisa engraçada.

Ando até o meu espelho e olho para o meu reflexo. Como uma pessoa pode mudar tanto em meses? Eu estava perdido em mim mesmo. Não que eu fosse depressivo, longe disso. Me considero bonito, e talvez seja por isso que as meninas ficam em cima. Se não é isso, é pela popularidade. De qualquer forma, dá na mesma, não? Interesse é uma coisa engraçada, algo que muitos quebrarão a cara assim como eu ando despedaçando a minha em fragmentos.

Ouço um apito e uma luz logo se acende. Vou até minha cama e pego meu celular.

"Ow, o capitão do time mandou avisar que o treino foi adiantado para hoje, já que amanhã a quadra estará indisponível. Não quero nem saber, você está no time já. Não invente nenhuma desculpa. - David"

Além do MarWhere stories live. Discover now