7 - O Universo vai conspirar contra você

58 6 0


Sim, era a coisa errada a se fazer. E no momento em que eu senti as mãos de Guilherme em minhas costas eu já sabia que era hora de parar.

- Desculpe – eu disse. – Não era para isso ter acontecido.

Não, nada disso era para ter acontecido. Nada. Nunquinha. Ele tinha gosto de cerveja. E eu acho que nunca iria me esquecer daquele dia. Iria ter pesadelos, acho. Ele olhava para mim sem entender o motivo de ter parado o beijo. Em primeiro lugar eu não deveria estar fazendo algo que eu não queria por conta de um menino, segundo, que eu realmente nunca quis beijá-lo, terceiro, eu realmente tinha que ir embora. Acho que se ficasse ali por mais tempo iria fazer alguma besteira a mais. Não sei o que poderia fazer. Pedi desculpa mais uma vez e fui embora. Não queria ver se Henrique ainda estava beijando Clarissa. Não queria ver aquilo. Iria ser demais para mim. Pego o elevador, que pareceu demorar horas para chegar, e encosto a minha cabeça no metal frio. Suspiro várias vezes. Tudo vai dar certo. Tudo tem que dar certo. Segunda-feira no colégio nós iríamos conversar normalmente. Ele não iria passar os seus braços ao redor do meu, como aconteceu hoje. Nem me puxar para mais perto. Endireito o meu corpo e fico olhando para o espelho.

Quando gostamos de alguém que não gosta da gente sempre temos a sensação de que tem algo errado conosco. Será que não sou bonita ou legal o suficiente para ele me olhar com outros olhos? No meu caso iria ser mais: Será que eu não pareço como uma menina para ele? É complicado quando você cresce junto com um menino e vocês têm o mesmo gosto. Principalmente para as brincadeiras. Enquanto as outras meninas estavam brincando de Barbie ou de seja lá o que for para serem femininas, você estava se sujando no barro, ralando o joelho no chão por jogar bola. Ficando na chuva jogando bolinha de gude. Acho que devo parecer um menino para ele.

Mesmo que tenha crescido peito em mim.

Puxo a minha blusa para frente para poder vê-los.

- Ter vocês não faz de mim necessariamente uma menina, não é? – Suspiro indignada.

Levanto a cabeça e vejo que tem uma câmera.

Nossa!

O porteiro.

Ele deve ver cada coisa.

Assim que o bendito elevador chegou ao meu destino coloquei a mão na frente do rosto – para escondê-lo – e passei pelo porteiro. Não iria querer olhar em seus olhos, se bem que ele deveria ser um senhor que iria estar dormindo neste exato momento.

Abro o portão, desço as escadas e finalmente estou fora daquele prédio. Jogo os braços para cima e inspiro profundamente o ar da noite, estava sendo exorcizada de todo o mal que tinha acontecido comigo naquele dia. Bem, era o que eu esperava.

- Sabe, você não pode fazer certas coisas em um elevador. – Eu realmente pensei que o porteiro iria ser um velhinho de voz rouca, mas aquela voz se parecia e muito com a de um menino da minha idade. Não iria olhar para ele. – Eu estou falando para você não fazer isso novamente.

Aquela voz não parecia vir de dentro do prédio e sim de fora.

Não era o porteiro.

Assim que me virei pude perceber que definitivamente não era o porteiro.

Ele estava sentado na escada que dava acesso ao prédio, como eu não havia visto aquele menino ali enquanto descia só provava o quanto o meu emocional estava abalado.

Fiquei olhando para ele sem dizer uma só palavra.

Ele se levantou e me encarou por um tempo.

- O porteiro estava dormindo e eu estava passando quando vi. Você realmente deveria tomar cuidado com o que as pessoas podem ver. Só depois que você viu a câmera, certo? – Dou um gelo nele. Ele havia visto tudo, não havia necessidade em confirmar nada. – Você é muda? – Ele arqueou uma sobrancelha.

- Não.

Ele suspirou aliviado.

- Ainda bem. Se você fosse eu iria me sentir a pior pessoa do mundo. – Cruzei os braços. Queria saber aonde ele iria chegar. – Olha, eu só estava saindo dessa festa, que eu acho que não é para uma pessoa feito eu, e você apareceu no monitor bem na hora em que eu estava passando. Não fiquei te espionando nem nada parecido. Ok?

Sim, eu tinha que ir embora.

Esse menino surgir do nada só mostra o quanto que eu tenho que ir para a minha casa e me proteger de tudo e de todos embaixo do meu cobertor – feito exatamente para isto.

- Certo. – Pronto. Agora que estava tudo resolvido eu poderia voltar para casa. Dei meia volta e comecei a ir embora.

- Ei, eu vou por ai também.

- Céus! – Disse, mas querendo dizer outra coisa.

- Você é bem irritadinha, né?

Eu queria sossego e o universo não estava deixando isso acontecer.

É tão difícil assim?

É?

É?


Como Deixar de Amar o Seu Melhor AmigoLeia esta história GRATUITAMENTE!