24.3 NINGUÉM PODE NOS JULGAR

1.2K 142 7

Drica.

Tinha dias que eu não via a garota porque eu não queria que ela afundasse nos meus problemas junto comigo; ela tinha seus próprios e eu sabia que eram complicados à sua maneira e as responsabilidades eram demais para alguém de sua idade. Porém, apesar do afastamento proposital, era um alívio vê-la, suas bochechas arredondadas no rosto demarcado pelas agruras da vida, os caracóis dos seus cachos, caindo sobre os ombros, deixando-a parecendo como um anjo iluminado que pousara em minha vida para estender a mão naquele momento tão turbulento e cheio de reviravoltas desesperadoras.

- Oi, morena - cumprimentei-a. - Quer um trago?

Seu rosto preocupado se contorceu em uma careta de total desgosto, enquanto ela olhava para o cigarro de maconha em minhas mãos, avaliando toda a situação e negava com a veemência de quem nunca fazia nada de errado na vida e que não queria nem sequer pensar em começar.

A futura doutora Adriana, em busca da justiça inabalável a todos os crimes, inclusive os de natureza pessoal. Como esmagar seus sonhos e vender sua liberdade em troco de algumas notas de dinheiro.

- Não, obrigada - respondeu, enquanto eu ria por motivo algum. Minha gargalhada em momento estranho apenas a fez franzir a testa e parecer levemente ofendida. Não podia culpá-la, sabia o que parecia e até era, em parte. - O que foi?

Encarei-a, analisando toda a sua beleza. Eu era um filho da puta de sorte por ter conquistado aquela morena linda, inteligente e educada. Tinha certeza que metade dos homens da favela deveriam cair de amores por suas curvas dotadas de hormônios e seus sorrisos cheios de esperteza e inocência sutil.

- Drica, Drica... - Murmurei, com um sorriso idiota no rosto. - Sua castidade inabalável ainda me surpreende e é só isso.

Vi suas sobrancelhas tentarem se juntar enquanto ela me analisava, sem conseguir entender o que eu queria dizer. Uma nova gargalhada escapou de minha boca e eu sabia que era o efeito da droga, mas nem passava pela minha cabeça me preocupar com o que ela estava pensando sobre isso. Eu estava flutuando em um mar de tranquilidade ao qual eu precisava desesperadamente naquele momento que antecedia a decisão de aceitar o que o destino me reservava.

- O que você quer dizer com isso? - Perguntou, confusa.

Suspirei. Sacudi o pouco que ainda restava do cigarro em minhas mãos e traguei mais uma vez, querendo aproveitar todo pedaço de céu o máximo possível, antes de abraçar os meus problemas de uma vez só. Drica continuava me encarando com seus grandes olhos brilhantes acusadores, esperando por uma resposta que agradasse e acalmasse sua curiosidade com toda a paciência que lhe era conferida.

- É só maconha - mostrei-a. - Não faz mal. É só pra relaxar. Te faz ficar calmo e rir. E isso é tudo. É uma sensação ótima, na verdade.

Ela não pareceu alterar seus pensamentos por causa da minha declaração, ao contrário. Continuou inabalável com seus olhos cheios de julgamentos aos quais eu não queria ter que relatar. Havia um leve tom de decepção neles, mas não era como se não soubesse que eu já havia fumado maconha; e, na verdade, eu não estava ligado o suficiente para me importar com o que ela achava, no momento.

- Achei que eu te deixava calmo e te fazia rir - pontuou.

Suas palavras me bateram com força e eu dei o último trago no cigarro, abandonando o quase nada que restava no chão. Segurei-o em meu sistema respiratório o máximo que pude e soltei-o em fumaça quando não aguentei mais.

A comparação era clara e óbvia e eu não fazia ideia de como não fizera antes: Drica era uma droga. Com suas curvas acentuadas, seus olhos expressivos, seus cabelos enrolados e lábios carnudos. Suas palavras de doçura e sua inocência recorrente, que arrepiava todos os pelos do meu corpo. Seu sorriso sincero, seus beijos abusados e seus gemidos... Ah, os gemidos da morena... Ela era totalmente viciante e eu não fazia ideia de como passara todos aqueles dias trocando apenas algumas palavras para acalmá-la e mantê-la tranquila enquanto o furacão de problemas me arrastava de um lado para o outro.

- Tem razão - murmurei, sem encontrar qualquer outra coisa para dizer.

Drica suspirou e eu senti sua mão pequena em minha coxa, apertando-a. Levei meu olhar para o contato, absorvendo seu calor e sentindo a intensidade de saudade acumulada pelos dias sem vê-la bater com força dentro do meu interior. Queria beijá-la, mas algo me dizia que não era o momento certo para fazer isso, então me contive apenas em olhá-la.

- Qual é o problema, João? - Perguntou-me. - Você pode me contar, sabe. Eu posso te ajudar.

Seus olhos exibiam toda a mágoa que ela contivera por tê-la ignorado. Tentei organizar meus pensamentos nublados pela euforia da droga, mas as ideias passavam-se rápido demais e eu não estava conseguindo colocá-las em ordem. Abri e fechei a boca algumas vezes até conseguir algo estruturado. A mim, pareceu que se passaram longos dez minutos enquanto eu pensava, mas Drica permaneceu na mesma posição, então eu não tinha certeza sobre.

- Eu não consigo um emprego - murmurei. - Pepê me chamou para trabalhar com ele.

Pude ver sua boca abrindo em compreensão e uma de suas sobrancelhas se arquear, enquanto parecia relaxar. A mão dela, que ainda estava em minha coxa, apertou-a com mais força e um sorriso doce surgiu em seu rosto.

- Você tá com medo? - Perguntou. Surpreendi-me ao concordar com a cabeça de forma afirmativa. - Bom... Ninguém pode te culpar, João. Você tentou. Você tentou de tudo. Se você acha que é a única alternativa, ninguém pode te culpar.

Parecia que ela estava se convencendo de que não podia me culpar, mas eu nada disse. Deixei-a repetir a mesma frase cerca de cinco vezes e não conseguia prestar atenção em tudo que dizia.

- Você tem certeza que é isso que você quer? - Questionou-me, ao fim de seu discurso confuso.

- Eu já aceitei - confessei. - Só ainda não sei como... Lidar com isso tudo. - Drica desviou seu olhar do meu e eu soube que tinha dito a coisa errada. - Me desculpa, linda.

- Pelo quê? - Perguntou. - Por ninguém te dar uma oportunidade? Pelo mundo ainda continuar sendo a mesma bosta de sempre? Não por isso. Tá tudo bem.

Não estava. Mas ela não iria reclamar.

Aproximei-me dela, arriscando levar uma negativa, mas não houve. Drica aceitou meu carinho em sua bochecha e aconchegou-se em meus braços antes mesmo que meus lábios encontrassem com os dela.

Nota da autora (que é maluca): OI GENTE!!!!!

VOLTAMOS!!!!! Ó, as datas das atts já estão disponíveis no meu mural, fiquem de olho. Tenho uma novidade, também: TERMINEI DE ESCREVER. TUDO. Toque de Recolher está finalizada, terminada, concluída. Postarei os capítulos aos poucos até o final, no mesmo esquema de sempre, viu?

PORÉM, NOVIDADE: Quem quiser ler o livro completo antes, sem esperar pelas atualizações, vai poder comprá-lo na Amazon nos próximos dias! Vou colocar ele lá muito em breve e espero que vocês gostem dessa coisinha nova <3

Então, nos vemos na semana que vem, certo?

E vamos preparando o coração.

Beijos rosados :*

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!