24.2 MACONHA

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O sol já havia se posto quando cheguei à boca para encontrar com o meu irmão. Pepê me aguardava parado ao lado do portão da casa semiabandonada que era utilizada como ponto de venda de drogas há anos. Havia um beco escuro que escondia-a das ruas principais, uma parte mais utilizada porque dava para uma das ruas mais movimentadas da favela e outra menos utilizada porque levava até a rua onde o bar de Drica fazia esquina com outra rua principal.

- Bom que você veio - Pepê bateu no meu ombro de leve, como se me congratulasse, mas também tentasse me animar sobre a expressão de desgosto que eu exibia em minha face confusa. - Quer começar agora?

Olhei para os três caras armados que faziam a segurança do local e estavam sentados em banquinhos logo atrás da entrada. Olhei para os outros dois, obviamente viciados, que negociavam com o rapaz que estava sentado à mesa onde o pó estava sendo exibido. O local fedia a mijo e a maconha, sem contar o cheiro de mofo da casa abandonada que enchia e irritava minhas narinas. O quintal abandonado continha uma série de plantas diferentes que cresciam desgovernadamente. Um gato estava deitado na terra marrom e fresca e seus olhos admiravam o lento caminhar de um caracol africano que tentava se esconder no capim crescente dos limites da área limpa para a venda das drogas.

A mesa ficava em frente a porta da entrada da casa e era uma amarela, obviamente de bar. Suas pernas eram grossas e era o único motivo pelo qual ela permanecia firme, visto que pela tinta descascada, ela parecia ter anos e mais anos de utilidade. Potes, folhas e sacos de drogas variadas eram exibidos em cima dela, o branco e o verde ressaltando por sobre o amarelo. Conseguia ver os olhos avermelhados e arregalados dos dois viciados percebendo isso e sabia que era para chamar mais atenção e provocar ainda mais urgência; assim, eles pagariam o quanto fosse necessário para obter a droga da maneira mais rápida possível.

Olhei de volta para o meu irmão, tentando digerir tudo aquilo da maneira mais digna possível, sem muito sucesso. Não conseguia me imaginar ali, mas teria que me acostumar com aquela realidade.

- Não tenho certeza... - Murmurei, ainda avaliando o caos desgovernado em que aquela boca se encontrava. Será que eles não pensavam em colocar tudo aquilo com uma aparência melhor?

Rodava muita grana na venda de drogas, eu sabia. Com certeza dava para capinar aquele terreno e melhorar o odor insuportável de mofo, além de trocar aquela mesa velha por alguma melhor e mais confortável, mas eu imaginava o porquê ainda não havia sido feito: nenhum drogado se importava com a aparência do lugar onde comprava suas drogas. Na verdade, eles deveriam preferir lugares mal iluminados e escondidos porque aí não havia nenhuma chance de qualquer conhecido os encontrar ali, no seu momento mais vulnerável e enlouquecido.

- Precisa de alguma coisa? - Pepê perguntou, preocupado. - Mais uns dias, talvez? Tá tudo bem, sabe, se você não quiser ficar aqui também.

Não. Foi minha resposta automática. Pepê tinha me oferecido dez mil reais e o mínimo que eu podia fazer era aliviar o trabalho dele, ajudando-o de alguma forma. E ele trabalhava com aquilo, então era a minha única forma de pagar a dívida que eu criara com ele. Não podia simplesmente virar as costas e ignorar o braço estendido no momento de dificuldade. Eu sabia como pareceria, se eu o fizesse. Eu sabia como os amigos dele falavam sobre mim. O cara da faculdade, bom demais para a vida que a gente leva.

Eu não era soberbo o suficiente para aquilo. Eu iria aceitar enquanto eu pudesse e faria aquilo.

Mas ainda assim era difícil ver todo o meu esforço desmoronando para viver exatamente a mesma coisa que me foi oferecido e eu lutei para ter algo diferente e melhor. E, encarando aquele lugar e aquela situação, só uma coisa me passou pela cabeça.

- Você tem maconha? - Perguntei.

Pepê me olhou de forma esquisita e me acompanhou para dentro. Sussurrou algo no ouvido do rapaz à mesa e ele me passou um potinho de maconha, um isqueiro e uma folha de papel de seda. Guardei no bolso rapidamente.

- Eu preciso... De alguns minutos - murmurei ao meu irmão.

- Claro, tudo bem. - Pepê concordou.

Conseguia ver o olhar julgador de meu irmão em minhas costas - nenhum traficante era burro o suficiente para se drogar e eu sabia que nem maconha havia encostado no sistema do meu irmão. Eu, porém, tinha um longo histórico com a droga e havia começado a fumar muito moleque, com pouco mais que catorze anos. Não fumava com frequência, mas precisei de alguns cigarros durante a faculdade porque a droga me ajudava a relaxar.

E era isso que eu precisava no momento.

Ao sair pelo portão, cruzei com Cela, mas não parei para cumprimentá-la. Meu interior estava gritando por um momento a sós e depois me desculparia, mas estava feliz que meu irmão estivesse com a sua garota de volta. Vi-a me encarar, sem entender, com um "Oi" perdido sem resposta. Continuei caminhando por onde ela viera, na parte do beco mais deserta. Sentei-me no meio fio e comecei a preparar o cigarro com mãos de quem já havia enrolado muitos outros na vida.

Encostei as costas na parede e acendi o cigarro, tragando-o rapidamente. Fechei os olhos, sentindo a sensação de tranquilidade e relaxamento dominarem meu corpo. Ouvi passos, mas não estava nem aí. Ri, um pouco abobado, sem nem abrir os olhos. Os minutos foram se passando e o cigarro foi diminuindo e eu me sentia infinitamente mais calmo e menos desesperado com a decisão que havia tomado.

Novos passos foram ouvidos, mas não me preocupei. Embora o beco parecesse mais movimentado do que realmente era, deviam ser só viciados indo e vindo da boca - único motivo para se passar por ali. Porém, os passos cessaram ao meu lado e ouvi o resfolear de tecido no chão áspero da calçada e abri os olhos para encarar os grandes e preocupados globos escuros dos olhos de Drica, me avaliando silenciosamente.



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