-ERUPÇÃO-

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Matthew Burn

Força

No sonho, eu tinha apenas sete anos de idade. Os cabelos dourados balançavam conforme o vento enquanto eu corria para a parte de trás do castelo, onde tinha uma pequena pracinha. Eu estava usando uma calça jeans azul folgada ( que já estava ficando pequena e estava toda suja) com uma blusa branca com manchas vermelhas. O local no qual chegara está totalmente vazio, lá não havia ninguém. Eu podia ver o imenso jardim a minha frente, com flores de todos os tipos, tamanhos e cores (algumas até bem esquisitas). O céu era de um azul muito forte e com nuvens branquinhas de todas as formas voando, um suave vento amenizava todo o calor daquela tarde de verão. A grama logo abaixo de meus pequenos pés fazia cócegas, era extremamente verde, em alguns cantos era alta e em outros bem baixinha. A minha direita estava minha cadeira favorita, ela balançava e lá estava meu leão de pelúcia gigante, e de seu lado tinha um pequeno espaço onde me acomodei.

Me sentei no banco, fiquei balançando as pernas incansavelmente de tanto nervosismo. Meu rosto estava todo molhado e o nariz e as bochechas doendo e meio avermelhados por conta do choro. Estava com medo, estava triste, estava apavorado. Em minhas mãos tinham pequenos vestígios de sangue e ela estava avermelhada como minha blusa.

Eu havia ferido outra coisa, novamente. Eu chorava por algo que não gostava e também por conta da dor. Meu pai gritava muito comigo, eu me sentia muito triste e culpado por uma coisa que não era culpa minha, não exatamente, não tinha culpa de ter nascido daquele jeito, como aquela força sobrenatural.

-Matthew- Meu coração quase parou quando ouvi a voz suave de minha mãe vinda da porta que dava para o quintal. Embora minha mãe não fosse tão velha, ela aparentava ser mais nova do que já era, seus cabelos louros estavam presos em um coque bagunçado com alguns fios caindo nos seus ombros. Ela vestia um vestido branco com flores amarelas e um cinto marrom bem grosso. Ela se aproximou de mim, segurou meu rosto com delicadeza e limpou uma lagrima que caía do meu olho.

-O que aconteceu?- Perguntou ela em um tom suave, tranquilo e calmo. Olhei para os seus olhos azuis claros e me senti aliviado.

-Meu pai gritou comigo- Eu disse chorando -Gritou porquê eu bati em um monstro no parquinho, ele me empurrou e empurrou meus amigos, aí fui falar com ele, mas quando toquei nele aconteceu isso... Eu não tive culpa- Falei enquanto chorava e olhava minhas mãos.

-Calma, você não teve culpa.

-Minhas mãos doem muito- Estirei minha mão para ela -Por que eu sou assim? Não quero machucar mais ninguém.

-Você não é assim por acaso, tudo isso tem um motivo, e na hora certa você vai descobrir- Falou pausadamente -O mundo é como uma máquina, e nós somos as peças, um máquina nunca vem com peças a mais ou vem faltando alguma, tudo está ali por um motivo, cada uma é especial e única, elas nunca estão ali em vão. Essa força ainda vai ajudar muita gente, entendeu?

-Entendi- Afirmei com a cabeça.

Meus olhos agora abriam, senti uma pressão muito forte sobre meu corpo. Assim que as imagens se tornaram nítidas, vi uma grande rocha que repousava sobre meu corpo, o ar está se esvaindo de meu corpo, me sinto cansado e incapaz. A pedra era enorme, gigantesca, um verdadeiro monstro, por todo o seu corpo plantas saíam dela, umas se entrelaçando, e outras seguindo um caminho para lugar nenhum, em direção ao nada, apenas a mais pedras.

A rocha estava ficando pesada a cada vez mais, eu não iria aguentar se passasse daquilo, seria meu fim, outro trágico fim. Ouvi alguns ruídos e estalos vindo do chão, forcei ao máximo minha cabeça para tentar ver o que era, fiz tanta força que agora meu pescoço também doía. Quando consegui inclinar minha cabeça, vi que o chão estava rachando, a pedra era tão pesada que estava partindo o chão. Num movimento muito rápido, o chão se quebrou e fui caindo junto a rocha, chegou em uma parte que ela ficou presa em uma árvore e eu caí em terra firme.

Não deu nem tempo de me levantar, a pedra voltou a cair, agora ela está sustentada pelos meus braços. Eu jurei a mim mesmo que nunca mais usaria essa força, ela já deve nem existir, sou fraco, e agora quando mais preciso (nunca pensei que iria falar isso) ela não existe. Desejei nunca ter feito aquela promessa, mas de nada adiantou, o que penso ou deixo de pensar não tem mais importância alguma. Novamente o chão voltou a rachar e eu junto a pedra a cair. Gritos de desespero saíam de minha boca, não queria morrer novamente, é uma sensação horrível, pior até que viver.

Consegui em meio a esse caos todo, ouvir gritos distantes vindos de baixo, olhei para lá e vi que a pedra estava indo em direção a uma vila de pequenas criaturas, talvez duendes. Não podia deixa eles morrerem. Assim que atingi o chão, a rocha veio com toda a força para cima de mim e eu a tentei levantar com os braços. Agora que vim parar para pensar, como estou conseguindo resistir a tudo isso, uma pessoa normal não aguentaria, talvez aquela força, aquele mal, nunca tenha me deixado, eu que estava o reprimindo.

Os duendes gritavam loucamente ao meu redor, eles não chegavam nem a metade da minha perna. Vi um duende bebê chorando ao ver essa cena horrível, não podia deixa uma criança inocente morrer, ela tem uma vida inteira pela frente. Nesse momento lembrei-me do sonho, em como minha mãe me disse que não estamos aqui por acaso, e que essa força tem um motivo, e esse motivo é ajudar os outros, é salvar vidas, talvez esse mal não seja um mal, seja um bem, que veio para salvar vidas, várias vidas.

Me concentrei o máximo que pude, canalizei minhas forças e as tirei até de onde não tinha. Estava na hora de salvar esse povo, mas eu tinha que tomar uma decisão, ou eles ou eu. Explicando: Se eu jogar a pedra vou cair para trás em um penhasco que não sei a onde da e que significa morte certa, mas vou salvar os duendes; ou, eu não jogo a pedra, todos morrem mas eu fico vivo. É difícil dar adeus a vida, quando você já a perdeu uma vez, você sabe como é estar morto. Mas essa era a atitude a ser tomada, a mais correta, devo me colocar no lugar dos outros. E por fim dei adeus a mim mesmo e lancei a pedra. Vi a pedra voar longe enquanto caía, apesar de tudo, me sentia feliz pela decisão que tomei. O piso onde eu estava foi ficando cada vez mais longe então Fechei meus olhos esperando a morte chegar.

Não foi isso que eu tive, felizmente não foi a morte que veio até mim. Meu corpo caiu sobre um chão muito duro, não sei como sobrevivi a essa queda, acho que a força também me deu resistência e aqui estou vivo, em frente a um imenso buraco dourado, que é o único lugar que tenho para onde ir.

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