Capítulo 24 -Somos Quem Podemos Ser

Começar do início
                                                  

Lembrei de Lisbeth e do carro. Aquilo ajudaria. Um carro poderia ser uma poderosa arma na arena. Já estava amanhecendo quando acordei a menina. Ela me olhou com sono, mas não estava mal-humorada:

– Menininha, como andam os preparativos no carro?

– Logo estará finalizado. Mas tem um problema.

– Qual?

– Vou precisar de mais coisas.

– Uma bateria e combustível.

– São coisas difíceis – eu já estava descartando o carro.

– São, mas não impossíveis, acredito que a encontraremos no armazém dos carreiristas. – ela disse quase com excitação.

– Você entende que se tentarmos atacá-los novamente será mais difícil que a primeira vez? Eles não seriam burros ao ponto de cair na mesma armadilha do mesmo jeito.

– Mesmo assim não é impossível. A gente pode tentar.

O dia amanheceu e quando todos acordaram, fomos comer. Eu e Lisbeth falamos sobre o novo ataque aos carreiristas. Nem todos ficaram animados, mas eles acabaram sendo convencidos. Ainda mais que enquanto comíamos, ouvimos um tiro de canhão. E com mais essa morte, restavam apenas 12 na arena. Os rapazes foram arrumar mais alimentos, eu, Lyra e Lisbeth seguimos até o carro para ver o que realmente seria necessário para colocá-lo em funcionamento.

A menina estava certa, realmente seriam preciso a bateria e o combustível. Nós modificamos um pouco o primeiro plano de ataque aos carreiristas e estávamos preparados. Enquanto anoitecia posicionamos em nossos lugares. Eu não confiava em Asriel , então preferi que Lyra fosse acompanhada de Bishop, os dois ficaram mais longe, fazendo o papel de isca. Asriel tomou a posição de Bishop, com sua zarabatana ficou atrás de nós e deveria nos socorrer caso ocorresse algum problema. Dado as suas últimas ações, eu não tinha confiança que ele nos ajudaria, mas confiava nas minhas habilidades. Da primeira vez, Bishop não precisou nos socorrer. Assim achava que haveria uma chance de ocorrer o mesmo. Por fim, eu e Lisbeth, mais uma vez, deveríamos pegar as coisas.

As imagens dos mortos do dia apareceram. Primeiro vi Astrid, a moça negra do distrito 8, seguida da de Julius. Dessa vez, esse não era o sinal para começarmos a agir, deveríamos esperar alguns minutos para isso.

Depois de um tempo, escutamos um barulho alto, como se algo tivesse sido destruído nas redondezas. Era esse o sinal. Os carreiristas foram correndo em direção ao som. Mas eu notei que um havia ficado no armazém. Aquilo me assustou, nós teríamos que enfrentá-lo. Ou melhor, eu deveria fazer isso. Com duas facas na mão, me aproximei do armazém, reconhecendo Brody.

Meu Deus! De todos eles, por que justamente Brody ficou para guardar as coisas? Ele notou a minha presença, ficando em alerta. Já estava próxima o suficiente dele e disse:

– Só quero pegar umas coisas, Brody. Me deixa fazer isso e eu irei embora.

– Eu não posso deixar. Você sabe, Hope. Não posso. – seu olhar não era muito ameaçador, mas ele ficou parado, apontando sua espada para mim, me chamando para a luta.

Eu não acreditava no que acontecia, tinha que enfrentá-lo. Se não o fizesse isso, ele acabaria comigo, não imaginava que seria uma ameaça assim. Mas não pensei muito, lancei uma faca de onde estava. Ele caiu ao chão... Aquilo era muito difícil ... Chamei Lisbeth e Asriel, eles deveriam pegar o combustível e a bateria. Eu não tinha cabeça para aquilo.

Uma aflição enorme tomava conta de mim. Lembrei de Mercy e Kent a matando, era a mesma coisa comigo e Brody. Eu atingira o meu companheiro de distrito. Corri até ele. Ele sangrava muito na barriga, sua mão tentava conter o sangramento, ainda estava vivo, mas sua morte não ia demorar. Não consegui aguentar , chorava, olhei para ele dizendo:

– Por quê? Por que você não deixou que eu pegasse as coisas?

– Eu não podia. Você sabe. Estamos na arena e não no apartamento da capital, não somos mais camaradas.- ele falou com dificuldade.

– Mas, Brody... Me desculpe, eu não queria ...

– Hope, eu sei. Aconteceu, era eu ou você. Sabe de uma coisa? Você tinha razão, eu deveria ter tido medo de você, deveria ter ficado afastado. Eu teria sobrevivido mais se não te encontrasse. Mas eu sobrevivi o máximo que pude. Não foi isso que me disse? - sim era isso, aquela situação só podia ser ironia do destino- Você fez as coisas do seu jeito. Mostrou que realmente podia. Agora tem que ganhar, eu sei que consegue. Não quero ser o tributo morto pela mão de alguém que não vai triunfar – ele soltou um gemido, eu não entendia aquilo, o matara e ele ainda torcia para mim, isso só fez minhas lágrimas aumentarem , não aguentava mais e pretendia me afastar, mas ele continuou- Não vá agora. Não quero morrer sozinho – não podia negar aquele pedido, me sentei ao chão, segurei a sua mão, alisei o seu cabelo, ficaria ali com ele até seus olhos se fecharem.

Asriel me chamou, já tínhamos conseguido o que queríamos, mas eu continuei ali. Só saí quando escutei um tiro de canhão que representava a morte de Brody. Seus olhos ainda estavam abertos, mas ele não respirava. Os fechei, me levantando. Asriel ainda me esperava e eu saí correndo. Lisbeth já estava na frente. Eu e ele a seguimos em disparada.

Quando chegamos a casa, encontramos Lyra e Bishop. Todos comemoravam, menos eu. Não tinha motivos para isso. Acabara de assassinar Brody, o que me devastara. Eu era como Kent, matara o meu companheiro de equipe. Não conseguia perdoá-lo por matar Mercy, mas já o entendia, na arena tínhamos que fazer coisas absurdas, acabar até mesmo com quem não queríamos. Fazíamos tudo para conseguir o que precisávamos e sobreviver. Pensar nisso não me trazia felicidade. Mas não era somente eu ou Kent os culpados pelos assassinatos que cometemos. Aquele governo opressor, aqueles jogos cruéis, e todos que assistiam também podiam ser responsabilizados. Todos! Cruéis, insensíveis, que pensavam que nunca seriam atingidos ou não agiam quando eram.

A conversa estava animada. Eu não participava dela, fiquei parada em um canto. E pensava no que tinha feito, me lamentava. Lembrei dos carreiristas, o único deles por quem eu tinha alguma consideração havia morrido. Não podia ficar choramingando. E decidi.

Me levantei, reparei que Asriel me olhava com atenção, talvez até com pena. Aquele garoto não devia me olhar assim, eu não era uma coitadinha, ele não tinha motivos para ter pena de mim. Tinha um objetivo em mente, minha fúria seria direcionada a quem merecia, ele provavelmente seria um que a enfrentaria. Assim falei decidida para todos ouvirem:

– Agora é guerra. Amanhã os carreiristas não sabem o que irão enfrentar!


Então o que acharam? As coisas começam a ficar tensas, não? Se você gostou não deixe de dar estrelinhas e comentar. Mais uma vez, me desculpe pelo tempo que não posto.



O jogo da vingança (completo)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora