Madrugada

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"A madrugada ia alta, eu não deveria estar aqui fora, isso não está certo". Pensava, aflita, olhando de um lado para outro, assegurando que o capuz não caísse.

- E se nada der certo? O que você vai fazer? - perguntou Dalila, em um fio de voz.

- Não fala isso - repreendi-a, mordendo o lábio.

- Vamos embora, isso não é legal. Somos menores, desacompanhados e isso é um cemitério!

- Você disse que queria.

- Desisti. Vamos embora Jéssica. Por favor!

- Tá bem, mas e se eu o encontrasse...?

- Xiiiiii, tem alguém aqui - falou Dalila, agarrando em mim.

- Olá, meninas lindas, o que fazem em meu escritório? Sozinhas!

A voz veio de nossas costas, viramos devagar, coladas como siamesas. E lá estava ele, de terno branco e gravata negra. Apoiava-se uma bengala, mas não era velho, talvez estivesse meio bêbado.

No livro que achei entre as coisas da falecida minha avó estava escrito que havia uma maneira de encontrar a imortalidade. E eu desejava ser uma adolescente para sempre, sem ficar velha ou ter problemas que os adultos sempre encontram.

Dalila, minha prima mais próxima, também ficou empolgada. Tínhamos a mesma idade, desejos parecidos e talvez o mesmo grau de vaidade. Queríamos ter eternamente a beleza jovem que todos perdiam com o tempo, ganhando apenas experiência.

E ele estava ali em nossa frente, depois de um mês indo e vindo naquele lugar, seguindo cada passo indicado, conseguimos Vê-lo.

- E então? - Perguntou, erguendo a sobrancelha do rosto pálido com olheiras.

- A-achamos um li-livro e- e... e queremos - falei gaguejando.

- Quem quer? E o quê?

- Eu, Jessica, e minha prima aqui, Dalila - falei sem jeito, mas empinando o nariz, - queremos a juventude eterna.

- Hum, que delícia, disse sorrindo. - Mas nada é tão fácil.

- Tio - chamou uma voz vinda do lugar mais escuro. - São muito novas, não sabem de nada. Mande-as embora.

- Quieto, Rubim, não vê que tenho clientes!

- Mas, tio...

- Psiiiiiu! Quieto, já disse. Não vê que estão decididas?!

O vulto ganhou forma e da escuridão surgiu um lindo menino, pele negra e olhos vividos. Vestido de jeans e camisa social, sem sapatos, calças remangadas. Parecia um anjo, era lindo e me deixou enfeitiçada.

- Jéssica - falou baixinho minha prima - eu acho melhor irmos embora.

- Você é imortal? - Perguntei ao garoto.

- Sim, ele é - respondeu o seu possível tio.

Ele sacudiu a cabeça para os lados, em negativa, e me lançou um olhar triste. Por que seria? Não entendi, mas nossos olhares foram cortados pela fala do homem que sacudia sua bengala.

- E então? São capazes de cumprir os três pedidos que tenho a fazer?

- É uma troca?

-Claro! E dou o que vieram buscar.

- O que seria?

- Primeiro unam as mãos e jurem lealdade a mim. Segundo, preciso que encontrem o lugar mais alto dessa cidade e o terceiro digo quando me levarem a esse local.

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