24.1 DESCULPA MÃE

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Desculpa, mãe.

O pensamento estava povoando minha cabeça há dias. Desculpa, mãe se repetia sem parar, quando finalizava, ele retornava ao começo e ficava em uma cantiga infinita até que as palavras se juntavam. Desculpamãedesculpamãedesculpa.

Eu não via outra saída e simplesmente não havia. Nada de entrevistas, nada de emprego, nada sequer de ligações interessadas em mim. Não conseguia entender que tipo de nuvem sobrevoava minha cabeça, jogando só trevas e sombras na minha vida, mas eu não estava vencendo a batalha. Estava perdendo feio e o destino parecia rir e cuspir na minha cara e de todas as horas que eu fiquei atrás de livros, provas e apostilas, tentando conseguir um futuro melhor que aquilo.

Não havia.

Para nós só havia o desprezo. O descaso. A favela matava os sonhos de todos nós, nos prendia e nos amarrava, nos escondia e nos matava. Estávamos sempre à sombra, sempre ocultados, que os gringos não nos vissem!

Ai daqueles que ousassem escapar das garras da realidade opressora dos pobres favelados. Do ciclo vicioso que havia matado nossos avós e nossos pais.

Eu tinha tentado de tudo, de tudo. Estava quase conseguindo e lá estava eu de volta à máquina destruidora de sonhos. Logo, com um fuzil na mão e uma bala enfiada no peito ou algemas rodeando meus pulsos.

Quando saíra do Rio para cursar a faculdade em São Paulo, eu tinha tantos amigos que conseguia encher o campo de futebol do bairro sem dificuldade para fazer uma festa. Ficava tão lotado que mal dava para passar pelas pessoas. Eu era muito querido e sabia que parte da adoração era apenas de fachada por ser filho de quem era, mas não me importava porque tinha ótimos amigos. Porém, ao retornar, podia contar nos dedos quantos ainda estavam vivos e soltos. E, desses, a maioria era dos que não escolhera o caminho do tráfico.

Escolha. Ri da ousadia do pensamento. Não era como se fosse uma escolha para a maioria de nós. Quando a fome bate na porta e seus familiares passam necessidade, você é capaz de qualquer coisa, inclusive arriscar sua vida em algo que sabe que é errado.

Não tinha ninguém passando fome na minha casa, mas eu tinha muitas dívidas para pagar e não queria depender da minha mãe ou do meu irmão. Queria, sim, sair dali e tentar algo melhor e o que Pepê me oferecia era o suficiente para fazer um bom pé de meia. Eu só esperava que, dentro das regalias que meu pai nos deixara, estivesse o direito de ir e vir quando quisesse porque, eu bem sabia, era difícil sair do tráfico vivo.

Tinha que tomar uma decisão. Era o sim ou o não.

Depois de um dia inteiro trancado no quarto, arrancando suspeitas da minha mãe, eu fui ao banco e depositei os dez mil que Pepê jogara em minhas mãos. Mandei debitar todo o valor do empréstimo e sobrou uma quantia razoável ainda, a qual eu usei para pagar as outras contas acumuladas que eu tinha: cartão de crédito, telefone...

A cada centavo gastado, eu me sentia mais afundado na realidade que me cercava e sem conseguir encontrar qualquer justificativa que me fizesse dizer não para a proposta de Pepê. Eu não tocaria em armas, ele disse. Era só gerenciar algumas bocas, cuidar do dinheiro e manter os viciados longe dele. Não parecia difícil. Tinha uma boca perto de casa, ele disse. Tinha outra perto dA Caverna. Poderia tirar pequenas folgas para ver Drica todas as noites.

Depois do banco, voltei para casa e, em culpa, me escondi novamente em meu quarto. Passei dois longos dias mandando currículos para todas as pessoas que podia. Entrei em contato com Mila, perguntando se ela poderia falar com Manu sobre um trabalho e ela me prometeu que iria, assim que a garota saísse de algum tipo de reabilitação onde o pai dela havia colocado-a.

Que ótimo, repeti para mim mesmo, assim que ela me falou sobre. Aquela era a única opção real de conseguir um emprego com alguém importante me indicando e estava por água abaixo.

No terceiro dia e com nenhuma ligação e mais uma conta de cartão de crédito chegando, essa já com as despesas dos almoços do carnaval que eu insistira em pagar, decidi que era melhor tomar alguma atitude. Qualquer atitude.

Estava tremendo de cima a baixo quando me arrumei para sair e encontrar Pepê na boca ao cair da noite. Por causa do horário de verão, eram sete horas da noite e o sol ainda insistia em brilhar, meio amarelado e querendo já sair para descansar, mas permanecia quente. Minha mãe estava na sala, vendo TV e encarou-me longamente quando me viu arrumado para sair. De alguma forma, mesmo que não tivesse lhe contado e imaginava que Pepê também não, seus olhos amendoados me informavam que ela tinha certeza do que estava acontecendo, mas que nada diria sobre aquilo.

Desculpa, mãe.

- Desistiu de ficar no quarto? - Perguntou. - Está cheiroso.

Tinha passado um pouco de perfume porque era uma coisa que eu gostava de fazer e era, obviamente, o que minha mãe repararia. Tinha esperanças que ela se concentrasse nesse fato e acreditasse na mentira que eu estava preparado para contar para conter seu sofrimento.

- Vou ver a Drica - menti.

O sorriso dela foi de alívio e felicidade, eu podia ver, e mais culpa eu senti naquele momento. Não queria enganá-la, mas também não queria quebrar seu coração em dois e, as vezes, uma mentira piedosa era melhor que uma verdade dolorosa. Sabia que minha mãe ainda tinha as cicatrizes da perda do meu pai e o pavor de perder, também, meu irmão. Não queria ser mais uma peça dos seus problemas para dormir.

- Mande um beijo para ela por mim, sim? - Pediu. - E se você ver a Marta, diga que eu quero falar com ela.

Com um sorriso triste e o coração um pouco quebrado por iludir minha mãe, deixei um beijo estalado no topo de sua cabeça.

- Pode deixar, mãe.

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