4 - Sábado de festa

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Então, é assim que começa a pior história de amor que alguém já viu. Lógico, pois nas histórias de amor a mocinha ou o mocinho fazem de tudo para ficar mais perto do amado ou amada. Eu não quero isso. Começo a vasculhar na internet se poderia existir algum tipo de fórmula para se desapaixonar. Eis que entro no meu amado Google – Eu nunca irei deixar de amar o Google. Quem vive sem ele hoje em dia? Coloco deste jeitinho mesmo Como deixar de amar alguém e eis que ele me sugere vários sites, e os sites me sugerem vários passos de como deixar de amar alguém. A eficiência aqui assusta.

Decido não ler os artigos. Agora não seria a hora.

Não era a hora ainda.

Já era sábado e isso queria dizer que hoje era o dia da festa. Hoje seria o dia que tudo iria ser esclarecido – pelo menos para mim – para Henrique hoje seria o dia em que ele iria finalmente ficar com Clarissa. Ele estava explodindo de nervoso. E eu também. Até nisso nós combinávamos, mesmo que os motivos sejam os mais diferentes possíveis.

A Letícia era uma amiga nossa em comum. Ela não estudava na mesma classe que a gente e era um ano mais velha. Conhecemos-nos durante a briga de Júlia e Rodrigo no colégio. Henrique havia me arrastado para ver a briga e Letícia estava do lado. Os dois estavam se divertindo, ao mesmo tempo em que estavam atônitos com tudo aquilo. Sabe quando você está vendo alguma coisa e tem um monte de gente por perto e você diz algo bem alto pra ver se alguém responde? Henrique fez isso. E Letícia respondeu. Nós começamos a conversar e bem, a briga do outro casal ficou para trás. E nós nos tornamos amigos.

Acho que se for para contar para alguém o que eu estou sentindo será para ela. Eu tenho certeza de que ela irá me ajudar. Irá sacudir a minha cabeça para os meus neurônios voltarem a trabalhar de forma ordenada. Abri o meu guarda-roupa. Ótimo. Eu só procurava por uma calça "oi, eu não te amo" e por uma blusa "oi, você é meu melhor amigo" e um sapato "oi, é tudo loucura minha". Sim, eu queria isso. É complicado, às vezes queria que a roupa falasse por mim. Ou que houvesse algum tipo de armadura que eu pudesse usar. Terminei pegando uma roupa que usaria no dia-a-dia. Uma calça jeans, meu All-star e uma blusa normal azul. Peguei uma que tinha alguma espécie de brilhinho. Para entrar no clima da festa.

Coloquei tudo e olhei para o espelho.

Ótimo!

Estava do mesmo jeito de sempre.

Estava na hora de cuidar do meu cabelo. Peguei um babeliss emprestado de Letícia para aquela ocasião. O que queria era deixar o meu cabelo um pouco ondulado. Achava a coisa mais linda desse mundo. Olhei vários tutoriais no Youtube sobre isso. E até que não me saí tão mal assim. Sorri para o espelho. Estava na hora de colocar alguma coisa na minha cara. Mas se eu colocasse alguma coisa ele iria pensar que eu estava me arrumando para ele? Se eu ficasse bonita, será que ele iria reparar nisso?

Tinha que colocar na minha cabeça que não iria me arrumar por conta dele.

Você ainda não sabe de nada.

Vocês ainda são só amigos.

Somente isso.

Peguei meu batom rosinha e passei. Ótimo!

Só preciso agora de um olhar fatal! – Não sei o motivo de ter pensado nisso. Ninguém iria conseguir olhar para os meus olhos. Estaria tudo escuro. E a maioria das pessoas iria estar bêbada. Elas iriam olhar para os copos de vodka e cerveja. Deveria tirar uma foto de meus olhos e colocar nesses copos. Acho que assim iriam notar alguma coisa, ou não. – O meu olhar fatal se resumiu a um lápis de olho e máscara. Pronto.

Estava me sentindo bem arrumada.

Olhei para o relógio incansáveis vezes, pois Henrique iria chegar aqui para irmos juntos. Era algo como se fosse uma tortura. Uma pequena tortura a qual eu estava me pondo por livre e espontânea vontade. Esperar ansiosamente por uma festa onde o suposto cara que você gosta vai ficar com outra menina.

Ele não iria ficar nada feliz se soubesse que eu estava esperando ele tomar o melhor fora de toda a vida dele.

Escutei a sua voz do lado de fora de casa me chamando. Saí correndo. Dei um rápido tchau para os meus pais e abri a porta de casa.

- Uau – ele disse olhando para mim.

Uau? Meu subconsciente sorriu. Continuei olhando para ele. Ele gostou do meu olhar fatal, só pode.

- Você ainda tem esse All-Star? – Ele olhava para o meu sapato surrado. Lá no meu íntimo um trator passou por cima de mim uma vez – Ele tá meio velho. – Corrigindo: duas vezes.

- Ah, cale a boca – eu disse fechando a porta. – E você está todo engomado. Tem certeza que ela vai curtir um cara todo engomado assim?

- Eu perguntei para Guilherme o que ela gostava.

- E foi isso o que ele disse? – Apontei para a roupa alinhada que ele estava usando. – Nós vamos para um salão de festa de um prédio. A única diferença é que vai ter DJ, bebida, tudo escuro e várias pessoas se pegando. – Pensei um pouco. Não iria ser só isso. – Ah, e algumas pessoas chupando dedo.

Ele riu.

Começamos a andar.

O bom é que Letícia morava perto de mim. E ir a pé não seria tão distante assim.

- Você acha que eu levo um fora hoje? – Ele olhou para mim nervoso.

Eu nunca havia conversado com essa menina, então não poderia dizer o que ela tinha que o deixava assim tão nervoso.

- Não sei, Rico. Olha, sinceramente? Eu acho que você deveria abstrair. Ela vai chegar cedo?

- Não. Parece que ela vai estar em outra festa antes dessa e vai só depois. Por isso – ele chegou perto de mim e esmagou os meus ossos e estourou os meus órgãos com um abraço – você vai ser a minha distração.

Depois que quase parto desta vida ele me larga.

- Se você fizer isso de novo eu te dou um chute onde sei que vai doer. – Digo quase sem fôlego.

Ele riu.

- Não, eu passo. Só não me deixe perder a festa por pensar muito nela. E se ela me der um fora a gente pode sair de lá? Não queria estragar a sua festa, mas eu realmente irei precisar de sua companhia hoje.

- Sim. – Eu digo. Eu era a pior pessoa por querer que ela demorasse o diabo para chegar lá? Que ela desse o maior fora da vida dele?

Sim, acho que sim.


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